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Manual de sobrevivência para mudar de casa

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O mercado vive dias animados e tanto as rendas como os preços de venda de apartamentos não param de subir, tornando a procura cada vez mais difícil. O processo é longo, eventualmente desesperante. Mas no final o novo sofá terá um sabor especial

Isabel Leiria

Isabel Leiria

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Jornalista

Olavo Cruz

Olavo Cruz

INFOGRAFIA

No início é o entusiasmo. Começa-se a procura com toda a confiança e expectativa de que a casa dos sonhos está mesmo atrás daquela porta. Ou pelo menos um novo espaço mais confortável, com a varanda ou o quintal que sempre se quis, sem vizinhos que partilhem o som da sua TV connosco, sem infiltrações, sem rachas, sem problemas de canalizações e todas as dores de cabeça que podem vir associadas a uma casa. Pesquisa-se nos portais, fala-se com amigos, anda-se com a cabeça levantada à procura de anúncios nas janelas. Mas à medida que a procura continua, o entusiasmo inicial tende a esmorecer. Os valores pedidos chocam, as divisões são pequenas, o bairro não é famoso. Para não falar de um pesadelo chamado ‘mudanças’. E ainda assim, o sector imobiliário vive dias animados. A partir de 2013, as vendas dispararam, os preços também.

A vida não está fácil, sobretudo para quem procura alugar a casa em Lisboa e no Porto, sendo que estas duas cidades concentram mais de metade da procura. A oferta é insuficiente e perante tantos interessados os proprietários não hesitam em subir os valores. E se as famílias portuguesas não podem pagar tanto, há sempre o próspero mercado do alojamento local, direcionado para o aluguer de curta duração a estrangeiros. Os números disponíveis no portal de Registo Nacional de Turismo mostram bem como este é um sector em expansão, com os valores a crescer de forma exponencial. Há já mais de 30 mil apartamentos registados, isto sem contar com os ‘não oficiais’.

“Faltam casas dentro daquilo que os portugueses podem pagar”, reconhece Luís Lima, presidente da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP). Num estudo que a associação fez recentemente, 60% dos inquiridos disseram que arrendavam a casa por valores “acima das suas possibilidades”. Quando se perguntou quanto é que poderiam despender com uma renda por um T1 apontaram para os 350 euros. Por um T2, 400, por um T3, 500. “É ver nos portais das agências se encontram casas a estes preços. Só na periferia. Mas depois têm de gastar em transportes.”

Claro que em termos comparativos com outras capitais europeias, Lisboa continua a oferecer preços imbatíveis. E os investidores estrangeiros não perdem a oportunidade.
A verdade é que quem está à procura de casa encontra mais possibilidade de escolha e acaba por fazer um negócio mais atrativo, reconhece Luís Lima. Mesmo que os preços neste sector também estejam a subir, sobretudo com o investimento na reabilitação, Portugal continua a ser um país de proprietários, com um sistema de rendas penalizador para quem arrenda, entre impostos, custos de manutenção e algum risco associado a incumprimentos, critica o presidente da APEMIP. “Tradicionalmente os portugueses preferem comprar em vez de arrendar, uma vez que já que estão a investir optam por ficar com um bem no final da transação. Se o sistema bancário continuar a apostar na concessão de crédito bancário acredito que as vendas irão continuar a reunir a preferência dos portugueses”, avalia Beatriz Rubio, CEO da Remax.

INFOGRAFIA OLAVO CRUZ

Globais ou parciais, os números estão aí para o provar. Só no caso da Remax, a maior agência imobiliária a operar em Portugal, nos primeiros sete meses do ano, registou-se um crescimento de 30% de volume de negócio face ao período transato. E 2015 já tinha sido para a Remax Portugal “o melhor ano de sempre”, nota Beatriz Rubio.

O que não quer dizer que a busca não seja difícil e até desanimadora. São muitos os fatores a ter em conta. A localização e hipóteses de valorização futura; a exposição solar (com a desvantagem de vir a ser penalizado no IMI, já se sabe); o ano de construção e os isolamentos, em relação ao andar de cima ou ao frio e à chuva lá de fora. Se for um andar alto, é simpático ter um elevador, mas já sabe que os preços do condomínio, tal como o elevador, também vão subir. Há toda uma lista de prós e contras que deve ser feita. E depois, é preciso arranjar o dinheiro para a pagar, com a romaria aos bancos na procura pela melhor proposta de crédito à habitação (não se fique pela consulta a um ou dois e faça muitas contas).

Se depois de todas estas etapas encontrar a casa certa, fica a faltar apenas um passo final. Não necessariamente o mais fácil. As mudanças. Desde a arte de bem empacotar (pode tentar junto de mercearias e lojas de conveniência vizinhas arranjar caixotes em vez de comprar), passando pelas limpezas a assegurar, à tarefa de rever todos os contratos, a lista de ‘assuntos a tratar’ é longa. Não é fácil, exige paciência e até pode chegar ao ponto de pensar duas vezes na opção que tomou. Mas nem tudo são desvantagens. Não há melhor momento para deitar fora a profusão de coisas inúteis que acumulou ao longo dos anos. A caixa com os papéis que um dia achou que tinha mesmo de guardar, mas para os quais nunca mais voltou a olhar, se calhar não faz assim tanta falta. E pode aproveitar o pretexto para rever contratos e até rescindir com a operadora (se não tiver agarrado a períodos de fidelização) de televisão e net que tantas vezes o irritou. No final, é sentar-se no sofá acabadinho de estrear e desfrutar da nova casa