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Morte nos Comandos. DIAP vai ouvir médico substituto, como testemunha

GONÇALO ROSA DA SILVA

Procuradores querem ouvir o clínico que não esteve presente no campo de tiro de Alcochete no segundo dia do 127.º curso dos Comandos. Vão também chamar peritos responsáveis pelas autópsias aos instruendos Hugo Abreu e Dylan Silva

Esta é uma semana decisiva na investigação ao caso das mortes nos Comandos. O Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa vai chamar, como testemunha - e não como arguido -, o médico substituto responsável pelo acompanhamento dos casos clínicos no campo de tiro de Alcochete.

Este clínico não estava presente no dia em que cerca de vinte instruendos foram assistidos na tenda médica do campo de tiro pelo capitão O.D., o médico responsável do curso, dois enfermeiros e dois socorristas. Mas terá assistido no Hospital das Forças Armadas pelo menos uma das vítimas com sintomas menos graves do “golpe de calor” mas que, ao contrário de Hugo Abreu e Dylan Silva, conseguiu sobreviver.

Segundo o Expresso apurou, os procuradores querem ouvi-lo para perceber a sua versão dos acontecimentos durante a hospitalização de alguns jovens instruendos do 127.º curso dos Comandos.

Alguns dos peritos responsáveis pelas autópsias aos militares Hugo Abreu e Dylan Silva, as duas vítimas mortais, também vão ser ouvidos nos próximos dias por Cândida Vilar, a procuradora titular do processo. Os especialistas serão chamados sobretudo para explicar pormenorizadamente, e numa linguagem não técnica, as conclusões das perícias forenses aos corpos dos dois militares.

Tal como o Expresso escreveu na última sexta-feira, o “golpe de calor” foi a causa da morte de Hugo Abreu e Dylan Silva, que não acusaram substâncias ilegais no organismo.

No relatório do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF), enviado ao Ministério Público no final da última semana, é referida a “necrose dos tecidos”, bem como o estado “amnésico” que vitimou ambos os instruendos. Os autores das análises toxicológicas e histológicas salientam o elevado esforço físico desenvolvido por Hugo Abreu e Dylan Silva num dia em que a temperatura do ar ultrapassou os 40 graus.

Mas a investigação quer apurar com mais detalhe as razões porque morreram duas pessoas e outras sobreviveram, sob as mesmas condições climatéricas, exigência física e racionamento de água. Saber a quantidade de soro disponível em Alcochete, as razões da falta de refrigeração da tenda médica ou da ausência do médico responsável pelo curso ao final da tarde, quando o estado de saúde dos dois instruendos se agravou, estão entre as questões ainda por responder.

Na última semana dois enfermeiros foram constituídos arguidos no caso, depois de serem ouvidos no DIAP de Lisboa, e é provável que mais responsáveis do curso venham também a ser oficialmente considerados suspeitos nos próximos dias. Também o Exército já abriu três inquéritos internos a dois oficiais e a um sargento do curso, que termina no final de novembro.

Administrar soros gelados

Tal como explicou ao Expresso Rui Moreno, especialista em Medicina Intensiva, o golpe de calor tende a verificar-se em pessoas jovens e capazes de suportarem temperaturas muito elevadas. O excesso de calor no interior do organismo e no ambiente exterior provoca uma alteração no funcionamento do corpo. “Quando se atingem os 42 graus endógenos (no interior do corpo) — como tinha Dylan Silva quando nessa noite foi admitido na Urgência do Hospital do Barreiro — é porque o centro que comanda a temperatura corporal, localizado no cérebro, deixou de funcionar.”

Ainda segundo este médico, as lesões — como a morte de tecido muscular ou o sangue ácido em excesso, por exemplo — surgem ao fim de 48 a 72 horas.

“A morte deve-se, sobretudo, a um edema (inchaço) cerebral, provocado por alterações no equilíbrio entre a água e os iões no organismo, como sódio, potássio ou magnésio. O cérebro deixa de cumprir a suas funções e há uma paragem cardiorrespiratória.” Normalmente, recorre-se a máquinas para arrefecer o sangue, tenta-se repor a composição sanguínea em termos de água e iões (dar apenas água aumenta ainda mais o edema cerebral e precipita a morte) e administram-se soros gelados, a 4 graus.