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“Foi por gostar muito dele que me desgracei. Paciência”, justificou-se a falsificadora de moeda

RETRATO-ROBÔ Rita de Melo

ilustração joão roberto

Quando a vida dera uma volta, para si a melhor, e Rita de Melo passara de prostituta a falsificadora de moeda, com o seu amante João Batata, apareceu a polícia na rua das Atafonas... Ele confessará tudo e entregará a quadrilha que ambos chefiavam. Ela chorará de amor, resignada. Este é o sétimo capítulo da segunda temporada da série Crime à Segunda

Anabela Natário

Anabela Natário

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Jornalista

João Roberto

João Roberto

ilustração

Motion designer

Rita andava encantada da vida. E não por o reino ser desde há seis meses uma República. Deixara a rua, vivia com o seu amor, podia comprar roupa e libras de ouro de que tanto gostava. A indústria que criaram ia de vento em pompa, até já exportavam para Espanha, e dava-lhes tempo para gastar em pândegas, teatro, bailes e bailaricos. Mas tudo tem um fim. “Foi por gostar muito dele que me desgracei. Paciência”, desabafou no dia em que foi presa por fabricar moeda.

“Feita 'cocotte', das que passeiam os 'trottoirs' da baixa e habitam a travessa da Palha, vestindo elegantemente, de chapéu, vestidos caros, joias, muito ouro ao pescoço, sempre finamente enluvada e calçada, e tendo uma numerosa roda de admiradores”, assim era Rita de Melo, ainda em tempos de monarquia, no dizer do jornalista de “O Século”, quando descreveu a prisão dos fabricantes de moeda falsa da rua das Atafonas, no dia 30 de janeiro de 1911, baseado no que o amante dela (hoje dir-se-ia companheiro) relatou à polícia e no juízo de instrução criminal.

‘Cocotte’ é apenas mais um nome usado pelos literatos coevos para evitar a curta palavrinha que designa as praticantes da chamada “mais velha profissão do mundo”. O escritor Fialho de Almeida, que morre em março de 1911, apelidava-as de “mulheres de leito”, ‘hetairas’, ‘huris’... e trouxe do francês o termo “horizontalismo”, do suavizado “horizontal”, para a meretriz fina, “importado do ‘argot des boulevards’ para servir o paladar requintado dos janelinhas da alta”, como elucida, em 1913, Óscar Pratt em “Notas à margem ao novo dicionário”, sobre o eufemismo usado pela primeira vez por Giorgio Casanova, o “Dom Juan” do século XVIII.

Quando Rita conheceu João, de alcunha o Batata, rapaz simpático e jeitoso nascido na Covilhã, era uma tolerada, ou seja, prostituta com registo legal e casa para desenvolver a atividade. Com o dinheiro que ganhava e o que ele lhe proporcionava, tornou-se uma ‘cocotte’ da baixa da capital, das que exibiam o amante na travessa da Palha, como conta o fado de Gabriel Oliveira, com o nome antigo da Rua dos Correeiros, que será consagrado em 1958, pela voz de Lucília do Carmo, mãe do fadista Carlos do Carmo.

ilustração joão roberto

“Foi na travessa da Palha/que o meu amante, um canalha,/fez sangrar meu coração;/ trazendo ao lado outra amante/vinha a gingar petulante/ em ar de provocação”, versejou o “poeta Marujo”, como ficou conhecido Gabriel Oliveira que, na altura em que Rita andava para trás e diante, no “trottoir”, teria uns 19 anos e tirava o curso de artilheiro na Marinha Portuguesa. Talvez a tenha visto por ali, feita prostituta de nível intermédio até ao último trimestre de 1910.

As “prostitutas de 2ª ordem” preferiam as ruas dos Correeiros (travessa da Palha), dos Sapateiros (do Arco da Bandeira), dos Canos e das Gáveas, e “entre todas estas a travessa da Palha, que tinha então 56 prostituas”, enquanto as “da 3ª ordem” gostavam mais da travessa dos Fiéis de Deus, da rua das Atafonas, e da das Madres. Isto já afirmava o médico Francisco Santos Cruz, autor do primeiro estudo aprofundado sobre o assunto, publicado em 1841, sob o título “Da Prostituição na Cidade de Lisboa ou considerações históricas, higiénicas e administrativas em geral sobre as prostitutas, e em especial na referida cidade; com a exposição da legislação portuguesa a seu respeito e proposta de medidas regulamentares necessárias para a manutenção da saúde pública e da moral”.

Na verdade, Rita de Melo tinha um companheiro à maneira, o pior foi quando soube que o seu querido Batata partilhava os amores com “uma velha rica” da rua da Palma, “um conhecimento” feito quando ele regressara a Lisboa, vindo de Angola, onde cumprira pena por se de dedicar à gatunagem. Até à condenação ao degredo, em 1901, João de Oliveira ou João de Oliveira Rocha ou de Oliveira Rocha Bronze, que terá à volta de trinta anos de idade, já contava 12 prisões por vadiagem e furto.

“Depois de um doloroso cativeiro em terras africanas, o conhecimento com semelhante criatura foi um maná, que mais se acentuou depois que se fizeram amantes e ela consentiu em trazê-lo sem trabalhar, com os bolsos bem recheados, vivendo à larga, como príncipe. Como quer, porém, que os carinhos da velha fossem algo serôdios e a liberdade concedida ao Batata lhe permitisse a conquista de novos amores, não foi difícil a este enrodilhar nos seus galanteios a atual amante”, conta o “O Século”.

Rita “desentranhava-se em rodeá-lo de favores, para o trazer sempre um primor"

A rapariga, de cerca de 30 anos, olhos negros rasgados, “roliça, um tanto formosa, pele branca…” não agarrou o amante com um duelo de fado com “a outra qualquer”, porém, tal como nos versos do poeta marujo, no final foi ela quem voltou para casa com o João. Rita convenceu-o com os vários chinfrins que foi fazer à rua da Palma, à porta da senhora Luzia “até que esta, farta de insultos e de vergonhas, deliberou pôr com dono o Batata”.

A partir dessa altura, Rita fez tudo para o trazer satisfeito. Trabalhar não era com ele, mas ela não se importava, “desentranhava-se em rodeá-lo de favores, para o trazer sempre um primor, bem trajado, com dinheiro, e frequentando teatros, bailes e salsifrés”. O problema é que as despesas eram muitas e só um corpo se dava ao manifesto, e aí o "seu amante" começou a pensar como poderia arranjar dinheiro por outras vias.

João Batata, cuja alcunha talvez viesse do feitio do nariz, gostava de viver à custa de mulheres, mas tinha um carinho especial pela Rita, queria tirá-la da rua, “tê-la por sua conta, viver com ela na mesma casa”… A ideia da “moeda falsa” surgiu-lhe numa conversa com “vários amigos”, dias depois de um grupo de republicanos derrubar o rei Manuel II, a 5 de outubro de 1910. É o que dirá à polícia para justificar ter-se metido num negócio fora do seu ramo de atividade.

Na antiga cadeia do Limoeiro, na Graça, funciona agora o Centro de Estudos Judiciários

Na antiga cadeia do Limoeiro, na Graça, funciona agora o Centro de Estudos Judiciários

Como nada percebia de falsificação, foi ao Limoeiro pedir conselhos a José Maria da Silva, homem que passara a maior parte dos seus 63 anos na cadeia. O Caramelo, como era conhecido (não por ser doce, já que de ladrão passou a assassino) fora um moedeiro digno de nota, aprendera com o melhor, com Alfredo Alves Mendes, o Pera de Santanás, funileiro, uma “lenda” do crime já desaparecido em 1911.

Quando Alfredo e José Maria foram julgados em 1882, o tribunal ficou à pinha e muitos espectadores nem conseguiram lugar na sala de audiências. A atração era o Pera de Satanás que ganhara fama por injuriar e bater em juízes e jurados; preso a primeira vez, em 1869, tinha 28 anos, por fabricar moedas com uma receita própria, não a queria dar a mais ninguém, tanto que conseguiu, durante o interrogatório, roubar a folha do processo onde constava o modo como combinava certos metais.

O Batata tomou nota da sabedoria do Caramelo, percebendo que sozinho não conseguiria produto apurado. E procurou outro ilustre moedeiro de apenas 21 anos, preso pela primeira vez aos 16, de nome Fernando Matos Gomes, membro de uma quadrilha que dera muito que falar. Os dois recrutaram um auxiliar, gatuno de profissão, Joaquim Ferreira Bondade, e dois outros colegas de largo cadastro para passarem o artigo feito, sendo eles Luís Ferreira e Abel Andrade, mais conhecidos por Pechuga (peito de frango em espanhol) e Rosita.

Alugado um quarto na rua da Bica de Duarte Belo, onde circula desde 1892 o elevador, começaram então o fabrico a que se juntou Rita de Melo, mal soube do caso, “começando desde logo a trabalhar como um homem”, segundo disse João Batata durante a instrução do processo, quando confessou a história toda, denunciando a sua trupe e ouros com quem fizera negócio.

Ao principio, fabricavam 12 mil réis, em moedas de 500, depois passaram para 20 mil por dia, fazendo moedas com o dobro do valor. Dividiam-nas em igual quantidade por todos, com exceção do Batata e do Bondade, encarregados da compra do material. Com a produção a aumentar, começando a fazer negócio com outras quadrilhas e a exportar para Espanha, o Fernandinho trouxe mais dois "trabalhadores", um seu ex-companheiro de quadrilha e de prisão, filho de uma atriz famosa na altura, José Ribeiro de Avelar, e Carlos Constantino Neto, o Simoni, gatuno “cuja crónica é das mais dignas de registo”.

Em menos de seis meses, a indústria cresceu e o casal passou do quarto para uma casa na rua das Atafonas, no sopé do castelo, agora parte da praça Martim Moniz. O negócio rendia: cada moeda, "pronta a sair para o mercado", custava em material 80 réis. No fabrico, usavam formas de gesso, colheres de alumínio e cianeto de potássio para as pratear. O estanho em barra utilizado, o Britannia, embora estivesse em decadência, era o último grito nas falsificações; no fim faziam a serrilha com uma lima que foi enviada a tribunal.

Depois era só fazer compras que implicassem grande troco ou, apenas, pedir para trocar moedas. Contas feitas por baixo, quando presos, já seriam responsáveis por cerca de mais de um conto de réis falso a circular, à data, quantia superior ao segundo prémio da lotaria. "As moedas fabricadas e passadas pela quadrilha são admiravelmente bem feitas e acabadas, com o toque igual às verdadeiras e diferindo apenas destas no peso, pois que são um pouco mais leves”, diz "O Século", com base na apreciação de dois peritos da Casa da Moeda.

Moedas de 1000 e de 500 réis, provavelmente semelhantes às falsificadas pelo casal, num lote leiloado este ano por 175 euros (com mais uma de 200 réis)

Moedas de 1000 e de 500 réis, provavelmente semelhantes às falsificadas pelo casal, num lote leiloado este ano por 175 euros (com mais uma de 200 réis)

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O Governo da República não lhes perturbou a faina. A reforma do sistema monetário só surgirá pelo decreto de 26 de maio de 1911. As moedas de prata de 500 e de mil réis passaram a ser de um escudo e de 50 centavos, respetivamente, e ostentavam no anverso “uma composição ou figura simbólica com a legenda República Portuguesa”, todavia, ainda haveria um período de tolerância até que se extinguissem os réis em prol da nova unidade monetária, o Escudo.

“Feito o rateio e divididos os lucros, à noite, havia, então, pândega rasgada, passeio de trem, idas ao teatro, compras de vestuário, ceias, homenagens à Rita, que cada vez aumentava mais o guarda-roupa e comprava libras, moedas muito da sua predileção, tanto que costumava adornar-se com elas, no cordão que trazia ao pescoço, nos anéis, nas pulseiras, etc”, narra “O Século”.

E andavam nisto, quando João Batata e Rita de Melo resolveram ir passar moeda para fora de Lisboa, na companhia de Avelar e de uns tais José Barbeiro e Chico Marujo. Depois de deitarem ao Tejo duas formas de gesso (eram usadas três vezes para as moedas não saírem defeituosas) e antes de apanharam o barco rumo a Cascais, compraram um cachecol na Rua do Ouro com uma das suas de mil réis — mais barato do que os da Loja das Meias, onde “cache-cols de lã, artigos de novidade vindos dos Pirenéus", custavam entre 1200 e 1800 réis.

Embarcaram no sábado dia 28 de janeiro, quando dois dos seus passadores, o Fernandinho e o Pechuga, esperavam presos a apresentação em juízo para serem indiciados por “um furto importante de roupa em casa de uma espanhola” e um outro cometido mais recentemente. E à espera que fossem do Governo Civil para a Boa-Hora, estavam Rita da Silva e a sua colega Amena, prontas a pagar a fiança dos amantes. Mas a primeira teve azar. Foi reconhecida pelo guarda Cunha como sendo a ex-Rita do João Batata…

Ex-amante que João Batata maltratou durante três meses leva a polícia à fábrica

A Judiciária já tinha conseguido apurar o nome do moedeiro que, há meses, perturbava o mercado com a introdução de dinheiro falso e enchia a polícia de queixas, mas desconhecia o seu paradeiro. Cunha levou Rita da Silva ao agente Martinheira, cuja parceria com o colega Figueiredo ganhara fama nos jornais, e este arrancou-lhe a morada que faltava. Não terá sido muito difícil, encerrada no calabouço da esquadra do Bairro Alto e lembrando-se bem dos três meses em que o Batata a explorou, espancou, deixando-lhe tudo na casa de penhores...

Na segunda-feira, dia 30 de janeiro, pelas três da tarde, a polícia entrava na fábrica de moeda no 3º andar do número 10 da rua das Atafonas surpreendendo o casal. Prendeu o Batata e a Rita, sua "poderosa, se não a sua principal auxiliar no rendoso negócio", e uma modista que logo libertou por se provar ser inocente. E apreendeu vários frascos com ingredientes, um cesto, um carimbo-sinete, duas formas de gesso e dez moedas falsas de 500 réis, dentro de um tacho de barro, num banho químico da invenção do fabricante. Além de documentos que provavam "entendimentos com moedeiros do país vizinho", como referiram todos os jornais diários.

Perante os factos e o desconforto — o Batata mandou pedir à sua ex-Rita um cobertor “para se agasalhar no calabouço” —, o casal confessou tudo no dia 1 de fevereiro. Segundo o “Diário de Notícias”, João até dirá, num dos cartórios onde se instruíam os processos para o tribunal Boa-Hora, “estranhar bastante que tendo indicado à policia onde poderiam encontrar os seus cúmplices que são vistos todos os dias pelas rias de Lisboa, só ele e a sua amante fossem enviados a juízo, enquanto os outros andavam em liberdade”.

Mas foi apenas uma questão de dias até os restantes membros da rede (e da quadrilha do Emílio Mora e Vidal Barroso, e outros, mais de uma dezena) serem apanhados, apesar de alguns deles beneficiarem, de facto, de alguma proteção por “amizades” e por serem considerados informadores pelo comandante da Judiciária, capitão Câmara Pestana. Entre estes, foi incluída como passadora Rita da Silva, denunciada pelo Batata que a acusou de o perseguir por vingança, e uma colega desta, Elvira Rodrigues de Meneses da mesma “casa de má nota” da Amélia Chinesa.

Todos, em grande alarido, se disseram inocentes do crime punido com prisão maior celular de dois a oito anos — o Pechuga, “vitrinário”, designação dada aos ladrões de vitrinas, o Rosita, o Bondade e o marinheiro Francisco Querido, o Chico Marujo. O Rosita, danado, disse aos jornalistas que assim a polícia não ficaria a saber de mais sete fábricas de moeda falsa de Lisboa. O Bondade, um “garotelho de fraca figura”, prometeu fazer "revelações importantes" à imprensa e “afirmou que só sairia do calabouço para o hospital, pois havia de agarrar-se ao bigode do polícia que dele se aproximasse”, conta o “Diário de Notícias” de 5 de fevereiro.

Antes de João Oliveira seguir para o Limoeiro e Rita de Melo para o Aljube, mais precisamente entre a ida do Governo Civil para a Boa-Hora, ambos foram sujeitos a uma prática que se tornara comum. Em cima do acontecimento, o vespertino “A Capital” contou: “O Batata, que veste, com toda a elegância, fato de caxemira, bota de polimento e 'pardessus' [sobretudo] claro, ao ser conduzido à rua Ivens, a fim de ser fotografado, escondeu o rosto dos fotógrafos de jornais que estavam na rua, mas, no regresso, disse galhofeiramente: ‘Vá lá. Se não mo tiram aqui, vão pedi-lo lá fora e por isso poupo-lhes o trabalho’”.

Para o mesmo efeito de registo policial, Rita de Melo foi conduzida ao ateliê do “conhecido e apreciado” Júlio Novais, com loja aberta na zona do Chiado desde 1897. Vestindo elegantemente, saia de seda preta, xaile felpudo e lenço de seda, ao ser fotografada, chorou: “Foi por gostar muito dele que me desgracei. Paciência”.

Perante este caso, o Banco de Portugal e a Tesouraria da Alfândega de Lisboa resolveram começar a cortar ao meio as moedas falsas que eram apresentadas.