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O meu passaporte para Marte

SIMULAÇÃO. A base da Mars Society na remota ilha 
de Devon, no Canadá, é uma missão simulada a Marte 
e funciona há 16 anos com equipas de voluntários

FOTO MARS SOCIETY

O Planeta Vermelho está na ordem do dia com a viagem de uma nave europeia à sua superfície. Agora, começou a contagem decrescente para a chegada dos primeiros humanos

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Parece um diploma clássico, com uma moldura azul finamente rendilhada a envolver um texto solene em letra gótica. Está assinado a marcador, também azul, pelo presidente da Mars Society, Robert Zubrin, com a data manuscrita de 12 de junho de 2002. E tem um espaço onde escrevi o meu nome, hoje meio apagado por 14 anos de exposição à luz solar, porque protegi o documento numa moldura de vidro e arrumei-a em lugar de destaque numa estante onde guardo, em casa, uma parte da minha coleção de livros de astrofísica e conquista espacial.

Não é um diploma qualquer. Recebi-o pelo correio dois anos e meio depois de me inscrever como membro da Mars Society, hoje a maior e mais influente organização do mundo dedicada à exploração e futura colonização do planeta Marte. A sociedade fundada pelo engenheiro aeroespacial americano Robert Zubrin tem delegações em 28 países de todos os continentes, incluindo grandes como a Rússia, EUA, China, Índia, Bangladesh, Brasil, México, Alemanha, Turquia ou Egito, mas ainda não está presente em Portugal. E tem mais de 11 mil membros e apoiantes associados em 50 países. Eu sou o número 2424.

O meu “Certificado de Reconhecido Mérito” diz solenemente o seguinte: “Considerando que Virgílio Azevedo contribuiu para o trabalho da Mars Society destinado a criar uma comunidade humana em Marte, é opinião da Mars Society que o referido membro, ou os seus herdeiros ou mandatários, deve beneficiar de uma futura política marciana e em virtude desse facto merece ser titular de um acre de terra marciana. Em conformidade recomendamos por este meio que qualquer futura política marciana recompense o titular deste certificado com tal terra, bem como assegure a capacidade para a usufruir através do direito de livre imigração e plena cidadania marciana”.

É o meu passaporte para Marte e nunca como agora fez tanto sentido. Em 2002 podia ser uma brincadeira, um sonho impossível, um exercício de ficção científica inspirado em Hollywood, uma antecipação visionária partilhada por muito poucos sobre a futura colonização do Planeta Vermelho. Hoje, Marte está na ordem do dia, os projetos para lá chegar multiplicam-se, há mais protagonistas e um fenómeno novo: a iniciativa privada. A sua maior estrela é o empresário e inventor sul-africano Elon Musk, fundador da companhia espacial SpaceX e do fabricante da automóveis elétricos Tesla Motors, que no final de setembro anunciou os seus planos: desenvolver um gigantesco foguetão — o “Falcon Heavy” — e uma cápsula que possam transportar 100 passageiros e carga para colonizar o Planeta Vermelho, “fazendo do ser humano uma espécie multiplanetária”.

“Definimos um objetivo claro que é vital para o próximo capítulo da história da América no espaço: enviar humanos a Marte na década de 2030 e trazê-los de volta à Terra em segurança, com a ambição final de um dia ficarem lá por um período de tempo alargado”, escreveu Barack Obama no dia 12 de outubro, num texto publicado no site da CNN. O Presidente dos EUA sublinhou que para chegar a Marte será necessário “uma cooperação continuada entre o Governo e os inovadores privados e já estamos a seguir esse caminho”. Esta semana, a Europa entrou também na corrida, com a chegada à órbita de Marte da nave espacial robótica “Trace Gas Orbiter” (TGO) e a aterragem na superfície do planeta do seu módulo de demonstração Schiaparelli.

A missão ExoMars, lançada pela Agência Espacial Europeia (ESA) e pela Roscosmos, a agência espacial russa, pretende fazer, através da TGO, um inventário dos gases atmosféricos do planeta, em especial os gases raros como o metano, para saber se tem origem geológica ou biológica. E se tiver origem biológica é porque há vida em Marte. A TGO vai também fotografar a superfície marciana e procurar aí água gelada, tal como debaixo do solo. O módulo Schiaparelli irá testar tecnologias-chave para as futuras missões a Marte da ESA (organização a que Portugal pertence), de modo a permitir descidas e aterragens controladas e suaves, incluindo o escudo térmico, o paraquedas, o sistema de propulsão e a estrutura de embate no solo marciano. E fará também medições da velocidade do vento, humidade, pressão, temperatura e campos elétricos.

Uma quinta marciana de 4000 metros quadrados

Tenho um certo orgulho no certificado da Mars Society porque, apesar do seu valor meramente simbólico, sinto-me um cidadão da Terra muito especial, um privilegiado que ganhou uma espécie de direito potencial de propriedade sobre um terreno de um acre — 4046,8 metros quadrados ou 40% de um hectare — a 225 milhões de quilómetros de distância, algures em Marte. Vaidoso, faço questão de mostrá-lo quando familiares e amigos vão a minha casa. E imagino onde poderia ter este terreno agreste de cor vermelha no planeta mais próximo da Terra.

Antes de mais, gostaria que tivesse vista para o imponente Olympus Mons, a designação científica, em latim, do maior vulcão do Sistema Solar, com 27 quilómetros de altura, isto é, três vezes a altura do Monte Evereste na Terra. Assim, o meu terreno nunca poderia estar muito longe do planalto de Tharsis, na zona equatorial de Marte, onde se encontra este vulcão extinto, com uma gigantesca base de 600 quilómetros de diâmetro e uma cratera que chega a ter 85 quilómetros de largura — a distância por autoestrada de Santarém a Lisboa.

Tharsis fica no extremo ocidental de Valles Marineris, um desfiladeiro com 4000 quilómetros de comprimento, 200 quilómetros de largura e mais de sete mil metros de profundidade, que supera todos os desfiladeiros da Terra, com uma única exceção: o vale submarino de 16 mil quilómetros da Dorsal Mesoatlântica, que serpenteia o fundo do Oceano Atlântico de norte a sul. O planalto equatorial é uma boa localização para a minha futura propriedade, porque está na região mais quente do planeta. É bom não esquecer que a temperatura média de Marte é de 63 graus negativos, contra 14 graus na Terra. E que a máxima atinge o valor médio de 35 graus positivos (57,8 no nosso planeta), sendo a mínima de 143 negativos (93,2 na Terra). Mas escolher o fundo abrigado das tempestades de poeira do Valles Marineris para ser proprietário de 4046,8 metros de terra está, para mim, fora de questão, porque no futuro, com a terraformação de Marte e a emergência dos primeiros rios, lagos e mares, o profundo desfiladeiro equatorial vai certamente encher-se de água (ver antevisão artística).

Utopia Planitia, Terra Meridiani, Planum Boreum, Ares Vallis, Olympia Undae. A toponímia oficial marciana não é anglo-saxónica mas latina, apesar de a maior parte dos cientistas que têm estudado Marte falar a língua inglesa. Os futuros habitantes do Planeta Vermelho e muitos habitantes da Terra terão, provavelmente, de aprender latim básico como língua franca se quiserem orientar-se na geografia complexa da exploração e colonização marciana. Será o renascimento inesperado da língua internacional da Europa Medieval numa Torre de Babel certamente marcada pelos idiomas mais falados da Terra, como o mandarim, o inglês, o castelhano, o português, o indi, o árabe ou o bengali.

Ter direitos de propriedade sobre Marte não é pacífico. Quando, em 2002, a Mars Society resolveu enviar a todos os seus membros um certificado semelhante ao meu, houve quem contestasse esta iniciativa no fórum oficial de discussão da organização, porque “Marte pertence à Humanidade” e deveria “ser completamente aberto a toda a gente que o quiser visitar”, com “amplas possibilidades de eventual colonização, exploração, trabalho, terraformação, etc., antes de começarmos sequer a pensar em ‘cortar as fatias do bolo’”.

A viagem low cost de Robert Zubrin

O presidente da Mars Society não se compromete apenas com documentos de valor simbólico. Além de dirigir um verdadeiro lóbi pela exploração de Marte junto do Congresso americano, da Casa Branca e de uma série de figuras políticas dos EUA e de outros países, Robert Zubrin desenvolveu um plano de viagem sustentável a Marte. Chama-se Mars Direct e defende uma abordagem minimalista da exploração espacial: obter resultados máximos com um investimento mínimo.

A proposta do engenheiro aeroespacial e inventor americano passa por “usar a tecnologia existente de lançamento de foguetões e a atmosfera marciana para gerar combustível propulsor, extraindo água do solo de Marte e eventualmente recorrendo às reservas minerais abundantes do planeta para a construção de peças e equipamentos”. Deste modo “haveria uma redução drástica do material necessário a enviar da Terra para Marte”, ou seja, um corte radical nos custos para “apenas” 30 mil milhões de euros , “e seria rapidamente acelerado o calendário da exploração humana do Sistema Solar”. Com efeito, há propostas convencionais de viagens de ida e volta a Marte com orçamentos superiores a 400 mil milhões de euros.

Para preparar esta viagem low cost, a Mars Society tem em curso um projeto único no mundo: duas missões simuladas a Marte, destinadas a testar as necessidades de abastecimento, os equipamentos, a capacidade de sobrevivência e de trabalho em equipa dos membros de uma tripulação. A organização construiu uma base “marciana” na gélida e remota ilha de Devon, no norte do Canadá, e outra base “marciana” no tórrido deserto do Utah, nos EUA, muito parecidas com as bases instaladas por vários países na Antártida para desenvolver experiências científicas. A base de Devon, no Ártico, chama-se “Flashline Mars Arctic Research Station” (FMARS) e a do Utah “Mars Desert Research Station” (MDRS).

A localização do Canadá foi escolhida por ser uma das regiões da Terra mais parecidas com Marte: a ilha é totalmente desabitada, não tem vegetação, é muito seca, tem temperaturas extremas próximas das marcianas e a estação está construída numa cratera de impacto idêntica a muitas crateras do Planeta Vermelho. A localização no deserto do Utah também tem semelhanças com Marte, incluindo a geologia do terreno envolvente, embora não tantas como a de Devon. Contudo, tem a vantagem de ser bastante mais acessível (fica perto da cidade de Hanksville), barata e fácil de manter. É verdade que outras experiências do mesmo género têm sido feitas nos EUA, na Europa ou na Rússia, mas sempre com um prazo limitado. As missões da Mars Society, pelo contrário, duram há 16 anos consecutivos e as duas estações têm uma ocupação humana permanente. Até agora já participaram mais de 2000 voluntários e está em curso a 160ª missão, a Mars 160.

Elon Musk, por sua vez, quer reduzir o custo de uma viagem a Marte a 200 mil euros por pessoa, quando as estimativas atuais de uma missão convencional apontam para 10 mil milhões de euros. O segredo está na reutilização dos propulsores. A nave espacial seria lançada e ficaria inicialmente numa órbita de estacionamento, de espera, depois de o propulsor queimar o combustível necessário para vencer a força da gravidade do nosso planeta. A seguir o propulsor separava-se da nave e regressava à Terra para se reabastecer, voltando à órbita de espera e prosseguindo a sua viagem até Marte, onde seria também produzido o combustível para o regresso à Terra.

A ambição do empresário sul-africano é grande, o otimismo e a pressa para o seu foguetão “Falcon Heavy” ser o primeiro a chegar a Marte em 2024 também, mas a realidade é bem diferente. O seu lançador de satélites comerciais e governamentais, o foguetão “Falcon 9”, explodiu na rampa de lançamento a 1 de setembro, com um satélite israelita a bordo que custou 178 milhões de euros. É o segundo acidente da SpaceX em 14 meses, mas Elon Musk não quer perder nenhum dos clientes da sua companhia espacial, porque tem uma carteira de encomendas de 70 missões que vale 9000 milhões de euros. Por isso diz, com leveza, que a explosão do “Falcon 9” “é uma coisa pequena num longo caminho”. Veremos.

Antevisão. Um foto atual de Marte e uma antevisão artística da futura terraformação do planeta, isto é, da criação de um atmosfera e de ecossistemas parecidos com a Terra

Antevisão. Um foto atual de Marte e uma antevisão artística da futura terraformação do planeta, isto é, da criação de um atmosfera e de ecossistemas parecidos com a Terra

foto mars society

Robert Zubrin reconhece que o empresário apresentou ideias muito interessantes e úteis”, mas não acredita “que sejam praticáveis”. Em todo o caso, “com pequenas mudanças podem ser viáveis e muito poderosas”. Elon Musk “tem razão quando fala na produção de combustível em Marte que possa tornar uma nave enviada para o planeta reutilizável e reabastecível em órbita”, diz Zubrin. “Mas alteraria o seu plano de enviar todo o sistema de propulsão numa viagem de ida e volta ao Planeta Vermelho”. Com essas alterações, “a capacidade de lançamento necessária baixaria de 500 toneladas para apenas 50 toneladas”, reduzindo os custos e tornando a primeira viagem possível “mais cedo”.

Somos uma civilização de exploradores

Mas faz sentido apostar na colonização de Marte, um projeto que vai exigir a mobilização de imensos recursos humanos, materiais e financeiros durante muitos anos, quando há tantos problemas para resolver na Terra? Porque não enviar apenas naves robóticas, que são muito mais baratas e não põem vidas humanas em risco? Há argumentos convincentes que contrariam todas estas dúvidas. A Agência Espacial Europeia (ESA), por exemplo, sublinha a propósito da missão ExoMars que “há grande evidência de que a água no estado líquido existiu e fluiu na superfície de Marte no passado. E pode acontecer o mesmo hoje, de forma intermitente”. Na Terra “a água está fundamentalmente ligada à vida e por isso surge a pergunta óbvia: se houve água em Marte, houve vida?” Esta é “uma das mais importantes questões que estão ainda por responder na exploração marciana”.

Steven Dick, historiador-chefe da NASA, coloca a mesma dúvida: “A exploração espacial é realmente desejável numa altura em que é preciso fazer tanta coisa na Terra?” E acrescenta que “é uma pergunta séria que exige uma resposta séria”. Podem ser apresentados muitos argumentos, “da criação de emprego ao ensino, do desenvolvimento científico e tecnológico à segurança nacional”. Num mundo ideal, no entanto, “seria necessário apenas um argumento, a exploração”. E devemos apostar na exploração espacial “pela mais básica das razões: a nossa preservação como sociedade criativa, por oposição a uma sociedade estagnada”. A exploração, a descoberta, “devem ser vistas num contexto histórico e não no contexto da política ou dos caprichos do presente”.

Os historiadores “costumam distinguir três grandes Idades da Exploração”, recorda Steven Dick. “A Idade das Descobertas nos séculos XV e XVI associadas ao Infante D. Henrique, o Navegador, a Cristóvão Colombo, Fernão de Magalhães e outros nomes europeus”. A “Segunda Idade” nos séculos XVIII e XIX, com a exploração geográfica marcada por viagens com as do capitão Cook, “guiadas pela revolução científica”. E a “Terceira Idade”, no século XX, que começou como Ano Geofísico Internacional e a primeira viagem da nave espacial russa “Sputnik”, “relacionadas com a exploração espacial e também com a Antártida e os oceanos”. Cada uma destas eras foi o produto de decisões específicas de certas culturas e povos: os europeus e durante um curto período os chineses, na “Primeira Idade”; os europeus e os americanos na segunda; os russos, os americanos, os europeus e outros povos na terceira.

Stephen Pyne defende que “a exploração é uma invenção específica de civilizações concretas conduzida em épocas históricas específicas, o que significa que não é uma propriedade universal de todas as sociedades humanas”. Nem todas as culturas exploraram ou viajaram muito. Algumas “contentaram-se em existir em isolamento xenofóbico”, constata o historiador americano, como é o caso muito citado da Dinastia Ming na China do século XV. Depois das seis grandes expedições do general Zheng He no Oceano Índico com 317 navios e 27 mil homens, “houve uma decisão da sociedade de não explorar”, o que teve um impacto negativo no desenvolvimento da China, “como é geralmente reconhecido pelos historiadores”, recorda Pyne. Alguns consideram mesmo que as consequências dessa “decisão catastrófica” ainda hoje são visíveis na sociedade chinesa.

O historiador de ciência Henrique Leitão, investigador do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia da Universidade de Lisboa (Faculdade de Ciências), explica que os grandes projetos civilizacionais como a conquista de Marte “nunca são movidos apenas pelo gosto de descobrir e explorar, ou pelo interesse intelectual e científico”. Pensar assim “seria uma visão idealista da História”, porque a verdade é que estas iniciativas “são também atraentes pelo retorno económico, mesmo que este aconteça apenas no longo prazo”. No fundo, são megaprojetos “que só se tornam sustentáveis durante bastante tempo se houver uma vantagem económica”.

O investigador tem estudado a fundo o desenvolvimento científico da época dos Descobrimentos portugueses e acrescenta que “falar da importância do retorno económico não significa menorizar o papel da ciência. E obviamente que a componente de curiosidade e de aventura também conta” (ver caixa na página anterior). No século XX, nos chamados projetos de “Big Science” ou grandes empreendimentos científicos, como a invenção da bomba atómica, a criação do CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear) ou a colonização de Marte, “houve sempre um conjunto diversificado de objetivos que os moveram, onde as motivações políticas e económicas estiveram quase sempre presentes”. Os grandes empreendimentos geram mais tarde progressos em todas as áreas do conhecimento “que nós hoje nem conseguimos antever”. E a aventura do espaço “acabou por ter um importante impacto na indústria, na tecnologia, na ciência e na vida concreta das pessoas”, em áreas tão diversas como a saúde e o bem-estar, a educação, a energia ou a mobilidade.

No seu artigo publicado no site da CNN, Barack Obama dirigiu-se, naturalmente, aos americanos. Mas fez afirmações que se aplicam a toda a Humanidade: “O programa espacial representa uma parte essencial do nosso carácter — a curiosidade e a exploração, a inovação e a ingenuidade, a vontade de superar os limites do que é possível”.

Marte no coração

Tenho Marte no coração, é a minha segunda pátria, mas não acredito que algum dia pise aquela terra vermelha para tomar posse do meu terreno de 4046,8 metros quadrados. Nos cenários mais otimistas do empresário Elon Musk ou do discurso da semana passada do Presidente Barack Obama, em 2024 ou na década de 2030, quando os primeiros humanos pisarem o seu solo cheio de segredos, terei 70 anos de idade ou mais. As viagens seguintes serão feitas certamente por super-homens e supermulheres jovens ou de meia-idade, altamente qualificados, motivados e preparados para correrem todos os riscos, enfrentarem todas as dificuldades e começarem a colonização do planeta mais próximo da Terra.

Será um processo pioneiro com altos e baixos, sucessos e fracassos, recuos e avanços, como nos ensina a história de todas as colonizações humanas. E só décadas depois, com a consolidação das primeiras colónias, chegarão homens e mulheres vulgares como eu. Já cá não estarei a deambular pela Terra. Por isso, vou deixar o meu certificado emoldurado da Mars Society à minha primeira neta, que tem apenas sete meses. Em 2034 ela terá 18 anos de idade e muito tempo para decidir o que fazer para reclamar o seu terreno marciano. E talvez algures na década de 2090 ela esteja a observar maravilhada, no conforto de uma casa de vidro no seu terreno agreste e vermelho, o gigantesco Olympus Mons, o eterno vulcão adormecido.

5 razões para colonizarmos Marte

1 Conhecer o planeta mais próximo da Terra
Se encontrarmos atividade biológica em Marte ficaremos a saber que a origem da vida não é exclusiva da Terra e, provavelmente, que o Universo está cheio de vida e de inteligência. Mais: começaremos a perceber melhor qual é o nosso verdadeiro lugar no Universo

2 Conhecer melhor o nosso próprio planeta
A atmosfera e o clima da Terra estão a mudar e, por isso, é fundamental conhecer melhor todos os aspetos do ambiente em que vivemos, por causa da nossa sobrevivência. Se formos para Marte passaremos a ter uma ferramenta poderosa para o fazer, a planetologia comparativa, já demonstrada pelos estudos da atmosfera de Vénus e dos seus gases com poderoso efeito de estufa

3 Um desafio à nossa civilização
As civilizações humanas, tal como as pessoas, prosperam com os desafios e entram em decadência sem eles. A exploração e colonização de Marte é um desafio poderoso, que pode favorecer fortemente a cooperação e o entendimento internacional e demonstrar que a ação conjunta pode funcionar na Terra noutros desafios

4 Pelo retorno económico e científico
Colonizar o Planeta Vermelho mobilizaria os jovens na construção de um novo mundo, apostando em carreiras como cientistas, engenheiros, inventores, investigadores médicos. Introduzindo inovações criariam riqueza, novas indústrias e serviços, cura para muitas doenças e benefícios para toda a sociedade

5 Pela sobrevivência da espécie humana
Os humanos são mensageiros da vida, têm capacidade de continuar o trabalho da criação, levando a vida a Marte e Marte à vida. E de fazer com que a nossa espécie se torne multiplanetária