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A jogo herdado...

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Os clássicos de tabuleiro que reuniam famílias ao serão estão de volta, renovados e com versões alternativas

Ir à prateleira, escolher o jogo e pôr a caixa no centro da sala era o primeiro passo para uma noite de jogos bem passada em família. Depois era a altura de convencer os mais reticentes, de os levar a abrir a tampa para retirar o tabuleiro. Desdobrá-lo — enquanto se sentia o cheiro a cartão fechado — e colocá-lo na posição correta. Seguiam-se as peças (muitas vezes com o odor característico do plástico), as cartas e os dados. O cenário estava montado e era tempo de definir equipas, nuns casos, ou lutar pelo peão preferido, noutros. O que importava era brincar até os ânimos se exaltarem na hora de conhecer o vencedor. Às vezes não chegava a acontecer. A hora de dormir adiantava-se ao desfecho e o jogo havia de ficar em pausa até à noite seguinte. Outras vezes nem era retomado.

São memórias de tempos que parecem demasiado distantes, em que a tecnologia não tinha qualquer papel nos momentos passados com os mais novos — e talvez seja também por isso que há títulos que se mantêm há décadas nas prateleiras, ganhando maior destaque em alturas como o Natal, sem nunca desaparecerem por completo durante o resto do ano.

Seja na pequena loja de bairro de sempre ou numa grande superfície, todos sabem onde os encontrar. É uma certeza tão antiga como eles próprios. Monopólio (onde o objetivo é ter o maior número de propriedades possíveis até ganhar todas as casas, tendo várias edições comemorativas diferentes), Trivial Pursuit (com perguntas de várias categorias e níveis de dificuldade), Pictionary (descoberta de uma palavra-mistério através do desenho), Cluedo (jogo de mesa para adivinhar segredos), Scrabble (de palavras cruzadas), Quem é Quem? (adivinhar quem é a personagem através de perguntas e respostas) são alguns dos mais populares e continuam a reunir as preferências das famílias todos os anos.

No entanto, há títulos que se foram esquecendo e que já são difíceis de encontrar nas principais lojas da especialidade. Se houver um jogo da sua infância que gostaria de recuperar — daqueles que trazem boas memórias sempre que são lembrados — e este já não está à venda, não desespere. Procure pelo nome na internet e decerto haverá quem o venda. Usado, mas muitas vezes completo.

CLÁSSICOS NACIONAIS

O revivalismo também vende e as marcas mais antigas sabem disso. Catarina Jervell, diretora-geral da Majora, conta como o regresso da empresa ao mercado com o seu portefólio de jogos clássicos é também uma forma de cativar os pais e familiares para a compra. “Há uma questão de reconhecimento dos jogos e da marca”, afirma, lembrando que “as gerações que cresceram a brincar com a Majora são hoje pais, em alguns casos avós, que procuram que as crianças se desliguem do digital e aprendam a relacionar-se com os seus pares e com os mais velhos”. Para a executiva, “há uma certa nostalgia de um tempo de brincadeira de qualidade em que se aprendia a gerir emoções, a partilhar, a descobrir e a inventar”, sem que esta descoberta seja feita a sós. “É nosso desejo que as famílias possam brincar mais no mesmo espaço e no mesmo tempo, criando memórias que perduram e pontes entre diferentes gerações.”

Os títulos de sempre da marca criada em 1939 regressam agora, mas o lançamento não acontece sem que haja alguma renovação no portefólio da Majora. “Procurámos renová-los do ponto de vista gráfico e em alguns casos introduzimos novos desafios”, explica, convidando os amantes de clássicos a descobrir as novas versões. Do catálogo de jogos de tabuleiro, o Sabichão não chega sozinho e traz com ele o Ludo de Circo, o Jogo da Glória e o Desafio a descobrir as novas versões, à venda na segunda quinzena de novembro em todo o país — e com quiosques dedicados no Amoreiras e Centro Colombo, em Lisboa, Cascais Shopping, em Cascais, e Norte Shopping, em Matosinhos.

DO TABULEIRO PARA O TABLET

Apesar do revivalismo dos jogos tradicionais em tabuleiro — cuja oferta tem aumentado, com edições especiais e reformulações dos jogos originais —, há marcas que viram no digital a saída para que o seu nome não caísse no esquecimento. Foi o caso de gigantes do entretenimento juvenil como a Hasbro, que conseguiu adaptar os seus maiores títulos às plataformas digitais. Lembra-se do seu Monopólio de sempre? Agora tem várias versões, entre as quais se conta o Monopoly Here & Now ou uma aplicação dedicada à personalização dos jogadores. O clássico de estratégia Risco também foi renovado e chama-se agora RISK: Global Domination. O domínio mundial está disponível para tablet — com a possibilidade de adicionar a opção multijogador à equação e desafiar um amigo que viva do outro lado do mundo. Já do lado das palavras, é com o Scrabble que a festa se faz (agora rebatizado com uma versão digital especial chamada Scrabble Blitz). Neste, a interação homem-máquina engrandece-se e é com o auxílio do Chromecast que a informação enviada pelos vários telemóveis em concurso é gerida. O dispositivo da Google que se liga à televisão pode também ser utilizado para jogar os títulos acima e é compatível tanto com iPhone/iPad como com smartphones e tablets que corram o sistema operativo Android. O Jogo da Vida (menos popular em Portugal enquanto jogo de tabuleiro) também está incluído no lote de títulos com versões digitais alternativas. The Game of Life conta com vários minijogos dentro da aplicação principal.

Os dados e os pinos continuam a ter um papel importante em grande parte dos jogos de tabuleiro. Nas versões digitais, são replicados como se estivéssemos perante o jogo clássico

Os dados e os pinos continuam a ter um papel importante em grande parte dos jogos de tabuleiro. Nas versões digitais, são replicados como se estivéssemos perante o jogo clássico

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A Hasbro não foi a única a piscar o olho ao digital. O jogo de estratégia Catan é outro dos exemplos da integração das plataformas móveis em jogos clássicos. Não há que temer: o objetivo e a forma de interagir com o jogo permanecem inalterados. Sim, continua a ser possível competir com até quatro jogadores pelo maior número de povoados, estrada mais longa ou exército mais poderoso, sendo permitidas as trocas entre outros jogadores e a reivindicação de territórios e recursos naturais preciosos.

Nesta forma de entretenimento caseiro, as possibilidades são, com mais ou menos tecnologia, quase infinitas. Como conclui Catarina Jervell, “os jogos de tabuleiro são um universo onde a imaginação domina e estes pautam-se pela capacidade de envolver os participantes convocando as suas competências sociais e cognitivas”. O melhor é, independentemente da idade, não parar de brincar e conquistar os petizes com jogos que são, aos olhos deles, algo completamente novo. Arrisque e aproveite.