Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Uma questão de tamanho

Estamos cada vez maiores. À medida que os anos passam, a média de altura do Homem vai crescendo. Alimentação, higiene, acesso à saúde e nível educacional sobrepõem-se cada vez mais à herança genética

getty

Os homens de poder sempre foram altos. Desde o início dos tempos que uma estatura grande era sinónimo de vantagem. Conta-se que D. Afonso Henriques, rei fundador de Portugal, nascido em 1109, há mais de nove séculos, era muito mais alto do que a restante população — e que isso lhe atribuía um ascendente na hora das batalhas e de ver o seu poder reconhecido. Certos historiadores atribuem-lhe uma estatura de 1,80 m, o que, à época, seria o equivalente a um gigante. Basta entrar nas celas dos monges de um convento do século XV para perceber que a estatura média era de cerca de 1,50 m. Agora, imagine ver pela frente um homem com mais 30 cm do que era habitual?

Hoje, pouco mudou. Os homens mais altos continuam a ser os de países mais desenvolvidos, mais ricos e com melhores níveis de saúde e educação. “E até com salários mais altos”, concluiu um estudo de grandes dimensões que analisou a estatura de 18 milhões de pessoas em 200 países, entre 1914 e 2014. A investigação, publicada na revista científica “eLIFE”, foi realizada em coordenação com a Organização Mundial de Saúde (OMS), com a ajuda de 800 pesquisadores do mundo inteiro. Algumas das conclusões são interessantes: “A altura dos indivíduos mede o desenvolvimento de um povo”, afirmou o cientista espanhol Fernando Alejo, da Universidade Autónoma de Madrid. “A genética influi muito na altura das pessoas, mas a nutrição adequada, a educação, as boas condições de vida e a prosperidade económica fazem com que os indivíduos alcancem a máxima altura que a sua genética permite.” É por isso, explica, que os países mais desenvolvidos continuam a ter habitantes em regra 20 cm mais altos do que os dos países pobres.

Senão, vejamos: os dez países com populações mais altas são todos da Europa, e os mais baixos vivem em África e na Ásia. Os mais altos do mundo são os holandeses, com uma média de 182,5 cm de altura, e as mais altas são as letãs, com uma altura média de 169,8 cm. Os mais baixos são os homens de Timor-Leste (159,8 cm), e as mais baixas são as mulheres da Guatemala (159,8 cm). Já os países do Sul da Europa, nos quais se inclui Portugal, conheceram um grande crescimento nos últimos 100 anos: os portugueses cresceram, em média, mais de 13 cm no último século, tendo os homens uma altura média de 172,9 cm (a 74ª posição neste ranking de 200 países) e as mulheres 163 cm de altura média (48º lugar).

Uma das conclusões do coordenador deste estudo, Majid Ezzati, do Imperial College de Londres, assenta na necessidade de diminuir o fosso entre países ricos e pobres. “Temos de nos ocupar do meio ambiente e da alimentação de crianças e adolescentes à escala global, dando-lhes as melhores oportunidades possíveis”, alertou.

No extremo oposto do espectro, há outro dado curioso: há países onde o crescimento parou, como os EUA e o Reino Unido — países ricos mas que enfrentam problemas de obesidade. A alimentação assume um papel cada vez mais central na questão da estatura.

Mas não é só... Ser alto traz uma série de vantagens, considera o estudo publicado na “eLIFE”: “As pessoas mais altas geralmente vivem mais, sofrem menos de doença cardíaca e de AVC, e as mulheres mais altas e os seus filhos têm tendência a ter menos complicações durante e depois do nascimento. Os mais altos tendem também a ter salários mais elevados e mais sucesso na escola.” E há mais. Segundo a professora Sara Stinson, que dá aulas no CUNY Queens College, em Nova Iorque, “em quase todos os estudos realizados, as crianças de famílias com maiores rendimentos são mais altas do que as de rendimentos inferiores”. A que se deverá isso?

De pequenino...

O pediatra Mário Cordeiro explica: “Durante muitos anos, a estatura das pessoas era considerada uma ‘posição social’. Ser alto significava ter tido uma boa alimentação e poucas doenças debilitantes (como a tuberculose ou o raquitismo), ou seja, pertencer à faixa social mais elevada. Por outro lado, os conceitos de altura e nobreza estavam muito associados, pelo facto de os nobres provirem de famílias predominantemente do Norte da Europa. Aí, fruto das condições climatéricas, sobreviveram sobretudo os mais altos e fortes. No Sul, dado nunca haver total míngua alimentar, os mais baixos também sobreviveram. Daí a noção de os vikings e celtas serem enormes e os ‘mouros’ baixos.”

Hoje, contudo, estas razões históricas já não se aplicam. “Houve uma evolução enorme quanto à altura das pessoas, não porque tenham ficado geneticamente maiores mas sim porque a melhoria brutal das condições de vida permitiu que elas atingissem o seu potencial.” “O grande salto deu-se na geração pós-25 de Abril”, continua o médico. O que dizemos de os jovens serem “enormes” é falso cientificamente. Cordeiro acredita que “já atingimos o nosso potencial de crescimento, e só se espera que as más posturas não levem à redução dos discos intervertebrais, o que faria pessoas baixas por patologia”.

infogafia ana serra

Contrariamente ao estudo publicado, o pediatra não considera que ser alto traga vantagens — “pelo contrário”. “O número de acidentes é muito maior, porque o centro de gravidade é mais alto, logo a pessoa desequilibra-se muito mais. Por outro lado, anda-se mais curvado, o que causa maiores problemas de coluna e menos exercício dos abdominais — uma pessoa baixa tem de se ‘esticar’, o que retifica a coluna e obriga a contração dos abdominais, uma alta curva-se... Mas tal como numa equipa de futebol, todos fazem falta e ninguém é melhor”, argumenta. “Messi tem 1,67 m, creio, como tinha Maradona ou Rui Barros — se fossem mais altos nunca conseguiriam driblar a equipa adversária toda sem cair, e os remates à meia-volta dariam um desvio angular que faria a bola errar a baliza. Os defesas centrais são altos, mas já para fintar é pior. Ronaldo tem uma corrida incrível, jogo de pés que baralha os adversários e um pontapé canhão milimétrico, mas não consegue as fintas de Messi. Todos são necessários no seu lugar específico, e é bom que se passe essa ideia: é tão normal e bom ser alto como baixo.”

No início é a saúde

Trabalhar para o crescimento começa desde pequenino — do aleitamento materno às primeiras sopas, à alimentação dos primeiros anos de vida. Mas se a nutrição é importante, existem outros fatores primordiais na faixa etária dos 0 aos 2 anos. O “fator genético” é o que mais interfere no processo de crescimento nessa idade, pois a herança recebida do pai e da mãe estabelece um potencial ou alvo genético, pode ler-se em revistas internacionais de pediatria. Mas também se defende que só o carinho, o afeto e uma boa relação entre mãe e bebé podem garantir um bom crescimento.

A demógrafa Maria Filomena Mendes diz que “a melhoria das condições de vida dos portugueses, em especial das condições de saúde e da qualidade assistencial, poderão ter feito toda a diferença no crescimento e no aumento da estatura dos portugueses ao longo do último século (em particular a partir do final dos anos 70)”. Mas o fator principal, a seu ver, prende-se com a saúde materno-infantil na primeira infância. “Portugal assistiu a um espetacular declínio da mortalidade infantil. A esta grande evolução podem estar associados três fatores: a melhoria da assistência materno-infantil, que se inicia logo no acompanhamento da grávida e na melhoria da qualidade de alimentação e suplementos (ferro, ácido fólico, suplementos vitamínicos) durante o período de gestação (os bebés nascem com mais peso e maior comprimento); a melhoria do acompanhamento do bebé nos primeiros anos de vida pelo pediatra ou pelo médico de família, também com incidência nos cuidados de alimentação e na melhoria do nível de nutrição, mais proteica e com complementos de vitaminas; e as consultas regulares ao pediatra ao longo dos primeiros meses e anos de vida, que inibem o desenvolvimento de doenças infantis (tratadas atempadamente), que competem com o crescimento em termos de consumo de energia. Acresce ainda a adesão generalizada à vacinação fixada no Plano Nacional de Vacinação”, enumera.

Segundo ela, também foi importante uma melhoria do nível de instrução dos portugueses e o investimento emocional dos pais nos filhos, tentando garantir-lhes o máximo de oportunidades (saúde, educação, etc.) e procurando minimizar as restrições a que podem ser sujeitos ao longo da vida (no caso, desde que nascem). Seguramente que o aumento da atividade desportiva dos mais jovens e a redução do trabalho infantil poderão também ter desempenhado um papel importante. No caso das meninas, o crescimento acontece até aos 12/14 anos, até à primeira menarca (menstruação), e nos rapazes até aos 15/16 anos (até que a sua estrutura óssea estabilize) — ou seja, o “investimento" deve ser feito nos ganhos em saúde nessas idades mais do que na adolescência.

Será que vamos crescer mais ou já atingimos o planalto em termos de estatura? Isso trará mais vantagens ou desvantagens? Será que a nossa perspetiva do mundo, a partir de um ponto mais alto, pode ajudar a elevar a fasquia da exigência sobre o nosso papel nele? Seria bom pensar que sim.