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AT&T e Time Warner têm acordo mas a procissão ainda vai no adro

d.r.

O chão ainda treme, e bem. As réplicas provocadas com a anunciada compra do gigante de media Time Warner pelo titã americano das telecomunicações AT&T, este fim de semana, fazem sentir-se de Los Angeles a Nova Iorque, com especial incidência em Washington. O espaço público está, portanto, transformado num campo de batalha argumentativo e muitas são as opiniões cruzadas sobre este mega negócio de cerca de 74,5 mil milhões de euros que terá de passar pelo escrutínio dos reguladores norte-americanos e que poderá levar mais de um ano até vir a ser conhecido o veredicto: luz verde ou chumbo

Luís Proença

A duas semanas das eleições presidenciais, o acordo é publicamente encarado com reservas de ambos os lados das trincheiras (democrata e republicana) que pedem a intervenção dos reguladores no sentido de investigar e apurar do impacto da fusão sobre a livre concorrência. O candidato a vice-presidente pelos democratas, Tim Kaine, veio dizer que o acordo pode levantar questões a respeito da lei “antitrust”, sobre práticas de concentração monopolista, e acrescentou numa entrevista à NBC que “menos concentração é geralmente bom para os media”.

O senador democrata Bernie Sanders, opositor derrotado de Hilary Clinton nas primárias, recorreu ao Twitter para anunciar estar contra o acordo que “se traduziria num aumento de preços e na redução de opções para o povo norte-americano”. Donald Trump manifestou-se frontalmente contra e num comício afirmou que “é muita concentração de poder nas mãos de muito poucos”, tendo acusado os media de serem tendenciosos contra si mesmo e contra a sua campanha eleitoral.

Randall Stephenson, presidente executivo da AT&T

Randall Stephenson, presidente executivo da AT&T

d.r.

A partir do olho do furacão, o presidente executivo da AT&T vem defender que a fusão permitirá enfrentar o Facebook e a Google que aglutinaram mais de metade das receitas publicitárias no ano passado nos Estados Unidos. Randall Stephenson contraria a corrente de que os consumidores sairão a perder e diz alto e bom som que “não tem sentido no plano económico. É uma ideia louca”, sublinhando que terão, ao contrário, mais opções com grande variedade de pacotes e de preços.

Stephenson defende que o conteúdo de qualidade ganha sempre: “foi assim com o grande ecrã, com a televisão e está comprovar-se de novo com os dispositivos móveis. (…) Com um grande conteúdo podemos desenvolver serviços de vídeo realmente diferenciadores, seja através da televisão tradicional, OTT ou ‘mobile’”.

A concretizar-se esta fusão, a AT&T obtém o controlo das três divisões da Time Warner: HBO com todos os serviços de televisão por subscrição premium e de streaming (HBO Go e HBO Now) nos Estados Unidos, bem como os serviços internacionais de subscrição e streaming; a Warner Bros Entertainment que no todo inclui televisão, cinema, home vídeo e produção e distribuição de vídeo jogos; a Turner. que engloba os canais por subscrição, dentro e fora de portas, da CNN, TNT, TBS e Cartoon Network. Juntam-se as quotas da Time Warner nos serviços de OTT e plataformas digitais como a Hulu, CNN.com, Fandango, etc. A AT&T é o segundo operador de telecomunicações com maior implantação nos Estados Unidos, depois da Comcast. Tem 142 milhões de assinantes nos serviços móveis, internet e televisão por subscrição (através do serviço DirectTV).

Chegando a vias de facto, este negócio é o maior no sector do media dos últimos cinco anos – a Comcast adquiriu a NBCUniversal em 2011 -, e poderá vir a provocar novos acordos de consolidação face ao contexto de “cord-cutting”, de abandono dos consumidores da televisão linear paga, e do crescimento exponencial, por outro lado, da oferta OTT (Over The Top) TV e das oferta das plataformas digitais cada vez mais consumidas através dos dispositivos móveis (smartphone e tablets).