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Como se cria magia (do primeiro ao último segundo)

A Heidi, o Marco, o Mickey ou o Rei Leão marcaram gerações. Quem não se lembra das músicas que os acompanham? Quem não viu vezes sem conta os episódios? Mas por detrás de cada história há um mundo escondido. Como são feitos? Que poder exercem sobre as crianças? Os Nutri Ventures são a única série de desenhos animados produzida totalmente em Portugal com objetivo de ser comercializada internacionalmente. É transmitida em 36 países, já conta com cinco temporadas e 52 episódios. Esta sexta-feira, em que se assinala o Dia Internacional da Animação, fomos espreitar pelo buraco da fechadura para tentar perceber a magia que faz nascer os heróis dos mais novos

Allan J. Katz acabara de chegar a sua casa em Washington, nos Estados Unidos da América. Vinha de Lisboa, onde era embaixador. Largou as malas e colocou os DVD que lhe tinham sido oferecidos em cima de uma mesa. Nem sabia bem o que continham. Nessa noite, os seus dois filhos, de 5 e 7 anos, apanharam os discos e conheceram Theo, Nina, Ben e Lena. Bastaram quatro episódios para ficaram viciados nas façanhas dos Nutri Ventures. Acordaram o pai, queriam saber o que acontecia a seguir e não podiam esperar mais.

“Guys, you got a winner! Let’s talk”. Foi esta a mensagem que Rodrigo Carvalho e Rui Miranda, as mentes por trás dos Nutri Ventures, receberam do embaixador norte-americano. Dias antes, quando o encontraram e lhe entregaram os DVD ficaram com a sensação de que aquilo não iria dar em nada. Mas deu. Atualmente, os desenhos animados made in Portugal são transmitidos em 36 países, já contam com cinco temporadas e 52 episódios.

Os Nutri Ventures são um grupo de jovens heróis que vive num mundo onde apenas se comem barritas energéticas, produzidas e vendidas por Alex Grand, o vilão que destruiu todos os alimentos. Um dia, Theo, Nina, Ben e Lena provam um pedaço de pão e descobrem os poderes dos nutrientes. A sua jornada leva-os a reinos distantes [cada um simboliza uma fatia da roda dos alimentos], onde a comida está escondida. Vão aprender que só com uma alimentação saudável e equilibrada conseguem reunir todas as forças para derrotar o mal.

Stop. Rewind. Mas como é que isto tudo começou?

Da ideia ao episódio

Um episódio da Nutri Ventures tem cerca de 21 minutos. Quando a história já está definida e o guião escrito, são necessários entre três a quatro meses para transformar o que está no papel no que se vê na televisão.

Normalmente a história precisa de ter um 'arco': um protagonista com um determinado objetivo e um antagonista a dificultar-lhe a vida. “Se se encaixa aqui, então é uma história. Se o arco não é compreensível para quem vê, então não há uma história e esses filmes e séries, normalmente, não agarram as pessoas”, defende Rodrigo Carvalho.

Depois o fio condutor é dividido em vários sub-arcos, ou seja nas tramas por temporada, por episódio e por personagem. Normalmente, este é esquema que é desenhado e colado na parede para que quem escreve consiga visualizar e garantir que não há demasiados momentos de ação seguidos e que mais à frente é mais parado. Resumindo, é aqui que se equilibra os vários ingredientes que fazem a história resultar.

Estabelecidos os arcos, chega a fase do tratamento, em que num documento se descreve rigorosamente e bloco a bloco o que vai acontecer. Equipa satisfeita? Então os conteúdos são partidos em cenas. Só depois, é que entra a “cereja”: os diálogos.

“Quando estão três guionistas numa sala temos de ter um nível de soltura, sem medos e ao mesmo tempo voltar a ser criança e dizer besteiras,senão a coisa não flui. Não se consegue enganar uma criança. Se o produto não for bom, não for feito do coração, então a criança não fica colada. Honestamente, os adultos não podem fazer produtos para crianças. Às vezes ouvem-nos na sala a ter ideias e parece que estamos a passar-nos da cabeça”, diz Rodrigo.

O grande desafio dos guionistas é conseguir passar por palavras ao realizador aquilo que querem que seja mostrado. Portanto, através da escrita têm de “mostrar e não contar”.

Guião fechado. A próxima etapa está nas mãos do realizador de animação, que divide cada cena em planos (“se é um close-up, se é um plano aberto ou mais fechado, um plano frontal, médio…”) e cria um storyboard: um quadro com os desenhos estáticos de cada plano idealizados. “Os nossos episódios têm pelo menos 300 planos. Ainda nem pensámos em animar e já foi preciso fazer 300 desenhos”, conta Rodrigo Carvalho.

Ao mesmo tempo que ilustradores e o realizador de animação idealizam as imagens e planos, num estúdio de vozes, os atores gravam os diálogos. E aqui está a grande diferença: em Portugal faz-se sobretudo dobragens de conteúdos internacionais e não se criam personagens animadas de raiz. Na NutriVentures não. “Existe a oportunidade de um ator ser o próprio herói, criar a maneira de falar, percebe qual é mensagem e dar-lhe o tom e personalidade que acha adequado. Nas dobragens, já há a animação e a voz tem que corresponder aos movimentos e ao tempo”, refere Mafalda de Barros, produtora da empresa.

Com as vozes gravadas (em estúdio não há diálogos entre personagens, cada ator diz as suas deixas sozinho) e os 300 planos desenhados, é hora de juntar tudo. O episódio começa aos poucos a aproximar-se daquilo que o espetador já bem conhece. Assim nasce, o animatic, um vídeo com os desenhos iniciais, como se fossem feitos em papel, e as vozes dos atores. O realizador confere tudo e acerta o que há a acertar.

Está finalmente acabada a pré-produção do episódio. Só agora chega a parte animada.
O realizador apresenta o animatic aos animadores e aos ilustradores. A preocupação de quem ilustra é fazer todos os fundos e de quem anima é criar o movimento das personagens. Existem milhões de técnicas para fazer, por exemplo, uma personagem sorrir ou chorar. Depende muito de cada profissional.

“Estamos a falar de 300 planos no total. Em média, cada cena tem 16 planos. Para cada segundo, tens de fazer 16 paragens de animação”, conta Rodrigo. Pega-se nas animações e colacam-se no fundo ilustrado.

Por último, entra-se na pós-produção do episódio. O editor corta, tira, altera ordena,… Faz o que bem entender para dar ritmo. O que não ajuda a contar a história, é deitado fora. O vídeo segue para a equipa de banda sonora e volta aos atores, para que sejam dados os últimos retoques.

Depois, o que fica já é praticamente o resultado final. Falta apenas ver mais umas vezes, detetar erros, alterar detalhes, acrescentar ideias de última hora e colar o genérico no começo e no fim.

Voilá, temos um episódio acabadinho de sair do forno. Passaram 4 meses.

Após todos este trabalho, não há qualquer garantia de que as crianças gostem do produto final. “Está completamente além do nosso controlo. Esse é o risco. A vantagem do entretenimento é que se ele cola, temos um negócio a seguir. Se não cola, estamos bem lixados porque enterramos uns bons milhões”, comenta o cofundador da Nutri Ventures.

Qual o poder dos desenhos animados nas crianças?

Os Nutri Ventures arrancaram com a ideia de criar um conteúdo de entretenimento de projeção internacional e com uma causa social. Por questões pessoais, os dois fundadores apostaram na alimentação e aliaram-na ao poder do entretenimento.
“O entretenimento está de tal forma nas nossas vidas que, por exemplo, ninguém se lembra qual fórmula do Newton, mas todos se lembram da história da maçã que lhe caiu na cabeça e despontou a ideia. Nem se sabe se isto aconteceu, mas o que ficou gravado foi a história”, justifica Rodrigo Carvalho.

Carla Cruz, docente da cadeira Televisão e Cinema do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) explica que há influência entre aquilo que os media transmitem e o que as crianças fazem no dia-a-dia.

“A identificação, sobretudo em crianças e jovens, é um dos fatores mais importantes para a fidelização de um espetador normal, quanto mais para os mais novos. Uma criança está numa fase do desenvolvimento que se baseia na imitação e tanto imita os pais como um boneco animado”, diz a professora do ISCSP. “Inclusivamente, adotam comportamento das suas personagens preferidas, porque se sentem mais próximos da personagem que idealizam. Os bonecos animados têm este poder muito grande”, acrescenta.

Bons ou maus, a televisão passa valores e modifica comportamentos. E isso pode ser “grave” porque as crianças mais novas absorvem de forma linear o que veem na televisão, uma vez que ainda não sabem filtrar e ter um juízo crítico. Além disso, defende Carla Cruz, é uma atividade em que estão totalmente focadas, pois “é muito atraente pela sonoridade, pelas cores exploradas, pela montagem”.

E é este poder que a Nutri Ventures quer aproveitar para influenciar comportamentos mais saudáveis. O sucesso tem sido tanto, que já conseguiram que as marcas de produtos alimentares os procurassem. Hoje figuram nas caixas dos cereais Nestum, mas para isso acontecer foi preciso um compromisso de que ao longo de 18 meses fosse reduzido o açúcar e aumentada a proteína da papa. O processo está agora a meio. Muito provavelmente, no próximo ano poderá comparar os rótulos e tirar as conclusões. “Não estamos aqui para brigar com os gigantes da indústria”, assegura o fundador.