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Um Deus com os olhos em baixo

Tiago Miranda

Na altura em que publicou o seu segundo livro, “Numa Cidade Feliz”, João Lobo Antunes. conversou com Clara Ferreira Alves para o Expresso. Recorde a entrevista originalmente publicada na edição de 12 de fevereiro de 2000

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

É muito difícil entrevistar um amigo que se conhece bem, corre-se sempre o risco de saber as respostas para todas as perguntas. Mas persiste, em todas as amizades, uma «terra incógnita», e o neurocirurgião João Lobo Antunes, que acaba de publicar o segundo livro de ensaios, «Numa Cidade Feliz» (Gradiva), confessa o que todos queremos saber. Onde estão enterrados os cadáveres, como nos romances policiais.

No médico, arregimentado a uma disciplina da inteligência e da emoção, o cientista sobrepõe-se ao escritor e ao ensaísta. No entanto, «Numa Cidade Feliz», que se segue a «Um Modo de Ser», pertence, em muitos aspetos, à literatura, ao ensaio de um escritor. E ganha as raízes nessa ética e nesse humanismo culto que já se denunciava como preceito de vida no livro anterior. Evidentemente, pairando sobre todas as coisas, resiste o amor aos livros, ao conhecimento das palavras, às personagens da literatura e da arte que atravessam o tempo de vida útil de um homem. O amor aos livros é uma forma de contrariar as coisas perecíveis, a proximidade da morte, o arrebatamento extraviado da dor. «Numa Cidade Feliz» é a reflexão de uma sensibilidade informada e bem formada sobre os grandes temas da inevitabilidade: o tempo, a morte. E uma reflexão contemporânea sobre alguns problemas do século passado, que são os do novo século: os usos da medicina, a sida, a formação articulada do gosto, da educação, da alma. «Numa Cidade Feliz» tem a felicidade de nos ajudar a pensar.

Existe neste livro um texto à memória de um grande amigo, mentor e mestre, o professor Juvenal Esteves. É um texto que revela técnicas de escrita de ficção, uma aproximação a um modo narrativo diferente do ensaio. Existe no ensaísta um desejo de invenção, de contar uma história? Ou é o resultado de quem escreve tendo lido muitos livros?

É meramente intuitivo e de cultura. Embora esse texto tenha sido o único texto do livro que não me foi encomendado. Mas talvez tenha sido por ter lido muitos livros, por endogénese. Eu acho que tenho muito disso cá dentro, estou a rebentar de coisas que quero escrever.

Histórias? A morte de Juvenal Esteves é um pretexto emocional para poder contar uma história. E noutros textos vê-se a tentação autobiográfica, o desejo de contar a própria história. O modo como se narra evidencia todas estas coisas, que dilui outra tentação, a do excesso de conhecimento. Há uma espécie de «name dropping», não no sentido habitual mas como socorro, sustento. Ir buscar ao conhecimento adquirido o suporte do raciocínio ou da narrativa.

Existe aquela frase do Eliot, «os jovens poetas imitam e os mais velhos roubam»? A minha preocupação é não me apropriar de coisas que fazem parte do capital de cultura, de experiência, de conhecimento.

Os escritores roubam e normalmente não dizem nada. Porquê justificar a fonte? O excesso de honestidade mata a voz natural do contador de histórias.

É uma coisa que não faço por causa da minha formação científica. É preciso justificar a fonte, não o fazer seria criminoso. Mas dou-me conta desse perigo, claramente.

O leitor culto identifica sempre o roubo, a intertextualidade.

Mas isso deixar-me-ia muito embaraçado. No grande edifício da cultura, a certa altura não se sabe bem o que é nosso e o que é do outro. Eu justifico. Mas é também um vício que me ficou da leitura do Montaigne, o Montaigne está cheio disso. Outras vezes, é só vontade de partilhar.

O cruzamento do ensaísta com o ficcionista é perigoso. Sai um híbrido?

Sai uma mula.

O ficcionista prescinde do tom didático, da pedagogia. O ensaísta ilumina, explica, não tem a liberdade do inventor. Misturar os dois, estilisticamente, como se faz neste livro, é um exercício complicado. Para alguém que vai continuar a escrever, há um caminho a seguir, ou tem de haver.

Cada vez me aproximo mais da narrativa. E a narrativa é cada vez mais exemplar. Eu acho que vivi, e se começasse a escrever o que vivi tenho a certeza que encontrava coisas extraordinárias. O único recurso do escritor não é a imaginação, a ficção pura. Todo o escritor, mesmo o que não tem vida, tem bocados encostados de experiência, de testemunho. Uma das coisas que eu gostaria de escrever era sobre mulheres. A mulher sempre me interessou muito mais do que o homem.

Isso nota-se neste livro, no texto sobre a Margarida Vieira Mendes, na sua morte. E o teu doutoramento tem qualquer coisa a ver com uma macaca, se bem me lembro.

O controlo nervoso na reprodução da macaca. Voltando atrás, tive sempre medo que a minha segunda atividade não fosse tão boa como a primeira. O José Cardoso Pires uma vez escreveu-me a dizer que o país não perdoa a quem faz uma coisa bem feita, muito menos duas. Eu odiava que me classificassem de amador, que a gente das letras me chamasse amador. Faço isto com uma grande reserva e trepidação.

Pode acontecer. Mas um escritor está-se sempre nas tintas para o que dizem os outros, ou melhor, vivendo obcecado com o que dizem os outros, isso nunca o impede de escrever.

O único critério que tenho em relação ao que escrevo é: pousio e voltar a ler. E a perplexidade de como é que aquilo foi ali parar, onde é que aquilo estava?

Um escritor está permanentemente em processo de escrita, a apropriar-se do real, das pessoas como personagens, da vida como história. Para isto é preciso tempo muito tempo, todo o tempo. Como é que um professor de medicina e neurocirurgião ocupadíssimo tem este tempo?

A minha vida só tem dois tempos, o tempo das mãos e o tempo da cabeça. Em primeiro lugar, falo muito pouco, falo pouco com pessoas, de modo que todos os momentos de silêncio são momentos de reflexão. Quando escrevo já tenho tudo escrito na cabeça, sai-me de um fôlego.

Como é que alguém que passa o dia todo num hospital, que atende doentes, faz operações, lê livros de medicina, desempenha os atos burocráticos da profissão e tem atividades paralelas, de representação e troca de informação com outros médicos, arranja a concentração do médico e a concentração do escritor?

Consigo. Neste momento estou a organizar uma coisa para a FLAD, para um simpósio, chamado «Paliative Care», que já sei como vou organizar. São histórias reais, a que vou chamar «O Dever Esquecido». Depois, pediram-me para falar sobre «Viver em Nova Iorque». Já estou a escrever isso. Aliás, sempre me apeteceu falar de Nova Iorque, quero falar sobre Nova Iorque, apetece-me. Deviam dar-me seis meses de tempo, mas metidos numa cápsula, tirados do tempo. Seis meses em que o tempo continuava a correr mas eu tinha outro tempo lá dentro.

Eras capaz de abandonar a medicina para escrever?

Não era capaz. Não por não haver pessoas que pudessem fazer o mesmo que eu faço, existem, mas eu fui sempre «duty bound». Não consigo renegar.

Lembro-me de te ouvir dizer uma vez, com cansaço, que a semana tinha sido mais uma corrida de obstáculos.

É assim. As semanas têm uma arquitetura própria. Mas talvez os verdadeiros escritores, os profissionais, não tenham o que eu tenho, que é uma sede de escrever.

E o medo, o medo que o escritor tem de que não venha a escrita, o medo de não ouvir a música?

A música tem vindo sempre, mas não tenho tocado muito. E há uma graça, no sentido de graça divina, que não tenho. Não tenho a obrigação de escrever. Embora tenha muitos compromissos, para falar em congressos, simpósios.

Qual a tua «dead line»?

Quando a gente pensa que uma cirurgia tem de ser feita, ela tem de ser feita logo. Nunca adio. Percebi logo no princípio que havia um elemento físico na performance, isto obrigava a uma certa disciplina. Física. De um modo geral, evito marcar coisas muito complicadas para a segunda-feira, por uma questão de ritmos biológicos. E há certas coisas que não faço à tarde.

E a morte? É uma «dead line» absoluta?

É um problema que cada vez me seduz mais, o do tempo. No outro dia desafiaram-me para falar numa coisa sobre a razão, representando eu os ímpios. Falámos do problema do milagre.Todos os anos no Natal recebo imensos cartões de boas festas e alguns dizem-me «o senhor fez um milagre em mim». No milagre, há uma intervenção, discreta no tempo, que teve um resultado que se prolongou no tempo. Há muito de intervenção oportuna no milagre. O Hipócrates percebeu isto tudo antes de todos nós. Se eu aceitar que o milagre é uma intervenção sobrenatural, nada feito, teria de dar uma volta a isto tudo. Mas se aceitar que o milagre é uma presença na altura certa, tudo bem. É um dos mistérios do tempo.

O tempo está ligado ao poder, à tentativa de controlo. A neurocirurgia é uma especialidade da medicina que mexe no sagrado, na cabeça, na memória, nas emoções das pessoas, que parecem zonas quase sobrenaturais, e por isso dá um poder imenso sobre os outros, sobre o mundo, sobre a natureza. E sobre o tempo. O poder de modificar a vida e a morte de uma pessoa, um poder quase divino de poder decidir o tempo da pessoa viva. A escrita dá ao escritor o mesmo poder, o controlo absoluto da memória, da experiência, da vida, da morte. A escrita transforma, redime, adia, dilata, julga, perdoa, manipula, cria sobre o ódio e o crime, o horror e a tragédia humanas, e pode transformá-los noutra coisa, numa experiência universal, em arte. A escrita é o poder de Deus. A aliança dos dois poderes numa só pessoa é controlável? Que poder controla esses dois poderes?

O primeiro poder é um poder que deriva de um profundo sentido de serviço. Literalmente.

Cito outra frase tua, a propósito do sofrimento do doente condenado. Quando não resta mais nada, resta sempre a compaixão. Como sabes, O Graham Greene distinguia entre piedade e compaixão, e só salvava a segunda.

Serviço puro?

Desapaixonado?

Apaixonado, muitas vezes. Vou ficando com a idade mais triste. Hoje sofro mais do que sofria. Julguei sempre que ia ser ao contrário, que me ia habituar. Hoje em dia vêm-me mais lágrimas do que quando eu era novo. É o tempo, a passagem do meu tempo. E por isso, alguns cirurgiões que conheço e que respeito ficam com o tempo mais conservadores, menos ousados. O risco de criar problemas é mais sentido, e ao mesmo tempo ficam mais serenos porque acham que no fim as coisas vão-se compor.

E compõem-se?

Sim, de um modo geral, sim. Quando um dia as pessoas chegam ao fim da vida e pousam o bisturi, estão consoladas. Tirando as coisas desagradáveis da medicina, os processos e os processos de intenções, de um modo geral um médico que tenha sido fiel chega ao fim do dia consolado.

E os dias de desconsolo? Os dias em que o doente morre?

São os dias de chuva, os dias de luto.

TIAGO MIRANDA

Como é que o escritor que é médico pode transformar a experiência de ver morrer alguém perto da sua mão? Como é que ele se pode apropriar disto?

O único tratamento é o do pudor, de uma grande delicadeza. Essa é uma grande dificuldade. Uma das cosias de que o Pascal -- que não gostava nada do Montaigne -- falava é que «o eu é odioso». O pôr-me muito médico naquilo que escrevo tem a sua delicadeza. Ou se aparece como estrela, ou como vítima?

Ou como Deus?

Ou como Deus. Observador de mim próprio, sim, mas com reserva. Há uma coisa engraçada a que as pessoas não ligam muito e os novos pedagogos da medicina não ligam nada, que é a estética da profissão. Há uma beleza, um valor estético, numa consulta médica, num ato cirúrgico. Quando uma pessoa entra num consultório e olha para ti, com aquela nudez da face, há aqui qualquer coisa de muito grande, de valor partilhável, que se deve escrever.

Está a falar o escritor. Por isso é que eu perguntei há pouco quem controlava quem. Porque um doente que entra ali na sua fragilidade, biblicamente falando, nu e descalço, suplicante, pode não ser um ato unívoco de beleza humana. O escritor pode ver beleza onde outros veriam a crueldade. O de transformar a miséria humana, o canceroso, o doente terminal, num valor estético, pode ser interpretado quase como um argumento totalitário, impiedoso.

Não, isto é no sentido kantiano do belo e do bom. São permutáveis.

A humanidade do escritor pode controlar a desumanidade do médico e vice-versa?

Só se pode escrever assim se do ponto de vista técnico nós formos exímios. Quando publiquei o meu primeiro livro apareceram-me doentes aflitos a dizer que só tinham ido por desespero de causa, porque tinha havido colegas meus que lhes tinham dito que eu já não operava. Só escrevia.Tive de explicar sempre que a minha prioridade fundamental era manter a minha capacidade técnica intacta, ser o mesmo cirurgião, mesmo escrevendo.

Dás-te conta desse duplo poder?

De maneira nenhuma. Não me dou conta dos poderes que tenho. Só me dou conta do prazer que as coisas me dão. Por que é que eu fui buscar o Dom Quixote, num dos textos do livro? O Dom Quixote é a solidão, e esta vida do médico é profundamente solitária.

A do escritor também.

Também. E como no escritor, cada vez se perdoam menos os insucessos, as falhas técnicas. Antigamente ninguém julgava o produto do médico, como se julga hoje, e já se julgava mais o produto do escritor.

A tua fragilidade será maior na escrita, porque na medicina já estás numa fase onde não te sentes tão julgado, há mais confiança no produto.

A fragilidade é muito maior na escrita. Trasformo-me num menino. O Somerset Maugham dizia que o escritor pedia crítica mas o que queria era elogio.

Como é que o facto de teres um irmão que é um escritor famoso age em ti?

Nada de especial. Continuaria a fazer o que faço se ele não fosse escritor. Mas obviamente faço o que faço porque ele é escritor. Acredito muito no património genético. É possível que eu escreva por razões biologicamente semelhantes às que ele escreve. Sendo nós seis, os meus irmãos escrevem todos bem. As epístolas eram sempre boas peças de escrita.

E o vosso pai também escreve bem? Transmissão biológica do dom?

As minhas filhas escrevem bem. Porque não, se acreditamos que o dom do desenho ou da música se transmitem?

Falámos do tempo para escrever e do tempo para operar. E tempo para ler? Posso testemunhar que lês prodigiosamente. O tempo de ler e de escrever é muito roubado aos outros, à família, aos amigos.

Para ler, é sempre tempo. É roubado, claro. No texto sobre a Margarida conto um bocadinho disso. Quando eu digo que tenho saudades da América e da biblioteca, digo que tenho saudades de mim na biblioteca. Com o tempo livre. Eu fico perplexo quando me perguntam como é que eu tenho tempo, o que me faz pensar qual é a minha receita. Obviamente não é em tempo ganho, é em tempo não perdido. O meu domingo é todo utilizado para a escrita e a leitura, todo. Das dez da manhã às sete e meia da tarde. E hoje, o sábado também. Todo o feriado, igual. Toda a viagem de avião é para ler. E rende imenso. E continuo a ler mais depressa em português do que em inglês, embora 70% a 80% do que leio seja em inglês. E ainda não descobri o porquê do meu gosto pelos poetas de língua inglesa, quando há poetas portugueses que ainda não li, não descobri. Por que é que estou tão confortável na poesia escrita em inglês?

Não sou a pessoa indicada para responder, concordo mas sem perplexidade. A poesia de língua inglesa é muito boa. Só sinto conforto com alguns poetas portugueses.

O Alexandre O´Neill, que me faz sentir tão confortável como o Auden. Ambos estão a falar para mim. Mas por que é que a ficção portuguesa contemporânea me diz tão pouco? Porque eu acho que não me vão ensinar nada, que não me vão dizer nada que eu já não tenho visto com a mesma clarividência e se calhar mais sentimento ou benevolência. Quando se está em contacto diário com o drama real, o drama da ficção tem outra dimensão.

Também pode dizer-se, com simplicidade, que achas os romancistas portugueses maus romancistas. Eles não te seduzem, nem te levam pela mão. A Alice tem de passar para o outro lado do espelho e ir atrás do coelho. Tens pena que isso aconteça?

Tenho uma pena enorme. Era bom poder continuar a ler como antigamente, como se lia Flaubert, ou Eça.

Mas o Eça e o Flaubert estão sempre disponíveis.

A culpa também é de não haver na área da literatura muitos «maîtres à penser». Alguém que faça seleções, leituras. Eduque o gosto. Como um Alfred Kazin, um Lionel Trilling? A Maria de Lurdes Belchior, antes de morrer, estava a preparar um curso de Literatura para pessoas como eu, mais velhas, que gostassem de ler. Adorava frequentar um curso desses.

Quem é o teu romancista português favorito? O Eça?

O Eça, claro. Há outro? Há um teste curioso. Imagina-te a ouvir um poema na rádio, português. De repente, há ali qualquer coisa que arranha, uma espécie de fífia. Aconteceu-me isso no outro dia com um poema do Pessoa que eu não conhecia.

Já me aconteceu o contrário. Ouvir de repente «A Tabacaria», na rádio, e reconciliar-me com o poema.

O Camões não tem fífias.

O Camões está por cima de todos. Gosta-se mais dele que de Dante?

Dante? É como a história do velho aristocrata inglês que estava a morrer e que quando soube que estava no fim decidiu confessar uma coisa: sempre achara o Dante uma maçada. Eu acho. Mas há uma coisa que existe em português, a bela escrita. Como existe em espanhol o belo espanhol, o de Ortega Y Gasset. Ou a bela escrita de George Steiner. O Steiner tem um ensaio muito interessante sobre os livros que ele não leu. Eu li o Proust com 14 ou 15 anos, mas nunca li o «Ulisses».

E os Dubliners, o melhor livro de histórias do mundo?

É perfeito. E este ano estive a ler «Moby Dick». Sobre os Dubliners interrogo-me sempre por que é que ele teve de escrever coisas tão complicadas depois daquilo.

Pergunta lugar-comum: para quem se escreve? Que destinatário? Porquê?

Eu gosto muito de uma resposta do meu irmão António, que disse que escrevia porque não sabia fazer sapateado como o Fred Astaire. Já perguntei isso muitas vezes a mim mesmo. Eu tenho uma escrita utilitária, encomendam-me uma coisa e eu quero fazê-la bem, prepará-la bem. Para que dure. Mas faço assim tudo o resto, preparo, não faço nada sem me preparar bem.

Conseguirias escrever por dinheiro?

Creio que se me pronunciasse sobre isso seria uma ofensa a quem o faz. Mas faz parte da minha vigilância pessoal que não consigo fazer uma coisa mal preparada. E aproveito todas as oportunidades que me dão para pensar.

Falemos do ciúme corporativo. Ele será muito maior dos médicos, que se sentem ameaçados por ter um escritor entre eles, do que dos escritores, que não se sentem ameaçados pelo médico.

Claro. Falo disso no ensaio sobre o Egas Moniz, o Ricardo Jorge já chamava a atenção para isso. Esta coisa já tem cem anos pelo menos. A inveja é um sentimento que se autopune. E essa inveja é uma consequência da falta de formação científica de muitos médicos, sobre a qual já tenho escrito e falado. Quem esteve no laboratório, como eu, a provar, a comprovar, a experimentar, a aprender o rigor, sabe que não faz sentido nenhum a crítica «ad hominem», característica das corporações. Habituei-me a criticar com critérios do racionalismo ocidental. O homem escreve. É bom ou mau o que ele escreve?

Também, segundo os jornais, participaste numa espécie de «protoatividade» política, como conselheiro de Marcelo Rebelo de Sousa, quando era chefe do PSD.

Nunca tive qualquer atividade política. Fui muito mais vezes ao Ministério da Saúde, falei muitos mais com os ministros da Saúde e da Educação do que falei com o Marcelo. Tive muito mais colaboração com o Governo do que tive com a Oposição, o que não é nenhuma bicefalia mas um serviço público. Também estive agora na Presidência Aberta sobre a Saúde. Se há um capital de experiência e reflexão, ele tem de ser partilhado, isso é suprapartidário, é um magistério. Nunca seria um político. Primeiro, porque sou pragmático, gosto de resultados limpos. Segundo, tolero mal a crítica. E terceiro, gosto de ser eu a selecionar as situações.

Ser lido por portugueses é importante? Voltaste dos Estados Unidos para Portugal e há sempre um esforço de integração no próprio país. Escreves diretamente em inglês, quando é preciso.

Com certeza que quero ser lido. Escrevo em inglês diretamente. Mas há uma coisa que vou confessar: quando começo a escrever histórias fora do âmbito científico, a linguagem começa a enriquecer-se, o inglês fica diferente, mais literário. Tudo o que não seja estritamente técnico é muito mais rico do que antigamente. A linguagem literária portuguesa transvazou para a língua inglesa. Quinze anos depois de ter regressado, a minha língua de trabalho ainda é o inglês. Ainda é no inglês que rezo, ou que sei imprecações, ou que chamo as tropas, ou que dou ordens de comando.

A língua portuguesa não é um instrumento tão fácil de manejar como a inglesa. É uma língua cheia de truques, de cantos e esconderijos e armadilhas.

Acho que é uma língua que precisa de ser escrita com pincéis. Tenho enorme admiração por quem escreve no computador. Sinto-me muito mais à vontade com o lápis e a caneta.

Fazes no livro o elogio da dificuldade. Qual o preço disto? E qual o prémio do perfecionismo? O perfecionismo tem por detrás um comportamento compulsivo. Li um artigo na «New Yorker», que também leste, em que se dizia que na América se fazem entrevistas aos candidatos a neurocirurgiões e os melhores são geralmente os compulsivos, os obsessivos, os maníacos da perfeição. Esses cometem menos erros.

Li o artigo. Isso faz parte de um programa. Não sei se é bem assim, eu acho que não sou um obsessivo. Sou um ritualista. Em relação à facilidade, sou um objetor de consciência.

Efeitos práticos disso?

Não cortar por atalhos. Há várias maneiras de lidar com a dificuldade. Esta é uma delas.

É definir regras? E nunca quebrá-las?

E nunca quebrá-las. Quando eu digo a mim mesmo que antes de me ir embora tenho de ir lá acima ver o doente do quarto número tal, vou, mesmo que não me apeteça nada, que não seja preciso, que o doente de manhã tivesse estado bem e já seja muito tarde. É uma disciplina. É como se sentisse uma coisa a empurrar-me. É um diálogo comigo mesmo, com o Grilo do Pinóquio. Gosto muito do Grilo.

Vamos ao segredo e à confidencialidade. O escritor pode usar um segredo e ser perdoado. O médico pode contar tudo? Se passar para a ficção?

O médico está obrigado à confidencialidade, ao pudor. Há coisas que não são contáveis, mas se eu as transformar em ficção, com outro nome, são. Nunca tive essa tentação, mas acho que ainda posso vir a escrever alguns contos exemplares, como fez o Tchekov, e fez tão bem. Pegar na essência da história e transformá-la. Como um tratamento musical. Quando eu penso numa menina que tratei cujo nome começa pela letra M e que esperou por mim para morrer, e morreu um exato minuto depois de eu chegar. Nunca escrevi isto, mas talvez escreva, de outro modo. Ou aquele senhor que me pediu mais seis meses para poder ver o campeonato do mundo de futebol. Ou o outro que me pediu um Natal, dê-me mais um Natal. Ou o senhor que tinha tido uma vida cheia e me disse «não quero mais um inverno». Isto são coisas grandes.

A aprendizagem da morte nunca está feita, nem bem feita. Pensamos sempre que um médico sabe mais sobre isso do que nós, mas não é verdade.

Não sabe nada. Foge disso! A abordagem da compaixão, e da sensibilidade, e da sensatez, é sempre superior, a meu ver, ao plano dos eticistas profissionais.

E a tua própria morte? Saberes mais do que os outros mortais sobre o corpo não confere um medo suplementar? A escrita, como escreve o Naipaul, é uma forma de resistência à extinção.

Fraca resistência. Não há nada de mais parecido com a necrologia do «Diário de Notícias» do que os catálogos dos alfarrabistas. Tantas campas da literatura. Eu já vejo nos catálogos de alfarrabistas do Porto, que me mandam, o nome do meu irmão. As edições tal e tal, nas datas tal e tal. Já lá está. Isto faz-me fantasmar, relativizo. Estou como o Bernard Shaw, o que é que a posteridade fez por mim para eu me preocupar com ela?

E a morte física?

Ao domingo à noite tenho uma depressão crónica. Adormeço com o pensamento da minha extinção. E a outra coisa que eu vejo é uma parede de cimento cinzento.

Um pouco de Deus não faria jeito?

Eu tenho muito de Deus. Mas é um pouco um Deus que está sem levantar os olhos, o meu. Sempre com os olhos em baixo. Sem querer ver a face.

A psicanálise nunca te atraiu, tendo vivido em Nova Iorque? Nunca tentaste esse «trading» intelectual? Ou existem corredores onde não te apetece entrar, com essa formidável disciplina?

A dra. Margaret Mahler, uma psiquiatra famosa, quis-me psicanalisar. Nunca quis. Ela queria desmontar-me a cabeça, dava-lhe prazer. A psicanálise nunca me atraiu, mas sonho imenso e tenho um sonho recorrente. Matei alguém que está enterrado no jardim da minha casa de infância. E vai ser descoberto, os ossos vão aparecer, ou no jardim ou no alcatrão da rua. E tenho outro sonho em que tirei o cérebro para fora de alguém que operei e a seguir olho e vejo o crânio completamente vazio. E sei que não vou conseguir voltar a fazer as conexões do nervo óptico, voltar a meter o cérebro lá dentro. Acordo instantaneamente, aterrorizado. Agora já sabemos onde está enterrado o cadáver.