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Porque melhoraram os alunos nos testes PISA? As respostas estão na escola

O último estudo do projeto aQeduto é apresentado esta quinta-feira e olha para as causas da subida dos resultados nos famosos testes internacionais conduzidos pela OCDE

Entre 2000 e 2012, os resultados dos alunos portugueses na literacia matemática medida pelos testes internacionais do PISA melhoraram em 8%, passando a estar na média da OCDE. E se são vários os fatores que ajudam a explicar a subida, as variáveis relacionadas com o trabalho das escolas destacam-se como as que tiveram o efeito mais positivo, concluem os investigadores do projeto aQeduto, que cruza os desempenhos dos alunos de 15 anos nos testes PISA (Programme for International Students Assessment) com vários indicadores recolhidos naquela que é a maior avaliação de competências a nível global, realizada de três em três anos, em países da OCDE e parceiros.

“Afinal, porque melhoraram os resultados?” é o nome da última análise do aQeduto e os resultados são debatido esta quinta-feira à tarde na Torre do Tombo, em Lisboa. Ao longo do período 2013-2012, constatou-se que cresceu 79% o número de escolas inseridas em meios socioeconómicos desfavorecidos, mas cujos alunos conseguem resultados médios “acima do esperado” (superiores a 500 pontos, na escala usada pelo PISA).

O estudo sublinha o facto de o enquadramento socioeconómico das escolas não ter sofrido grandes alterações entre 2003 e 2012. No primeiro período em análise, eram 80% os estabelecimentos de ensino inseridos em meios desfavorecidos. E no último passaram a 74%. Ou seja, a variação é pequena. Mas no mesmo período, o número de escolas nestas condições que passaram a ter resultados a Matemática superiores a 500 pontos aumentou de forma muito significativa: de 19% para 34%.”Estas são as escolas que fazem a diferença e é muito importante tentar compreender quais as suas práticas”, consideram os investigadores.

O sucesso, continuam, “parece estar relacionado com a formação e a motivação dos docentes, a melhoria dos recursos pedagógicos e uma maior autonomia das escolas”, tudo variáveis que melhoraram no período em análise, de acordo com os dados recolhidos pelo PISA.

Independentemente das razões, o facto é que a média de Portugal na literacia matemática (as outras duas testadas referem-se à leitura e à literacia científica) passou de 450 pontos em 2000, o primeiro ano do PISA e os 487 pontos em 2012.

Os autores da análise sublinham que esta evolução aconteceu "apesar da recessão económica". E que num conjunto de 11 países, a melhoria apenas se repetiu com igual intensidade na Polónia e no Luxemburgo.

Já em países onde até cresceu o PIB per capita, como Suécia, Finlândia, Holanda ou França, o desempenho dos alunos piorou entre 2000 e 2012. A diferença é que Finlândia e Holanda, por exemplo, apresentaram scores médios à volta dos 520 pontos. E Portugal aproximou-se apenas dos 490.

O grande salto de Portugal aconteceu porque conseguiu fazer duas coisas ao mesmo tempo: reduzir a percentagem de alunos fracos (cujo desempenho fica no nível 1 ou abaixo numa escala de proficiência em que 5 é o máximo) e que puxam a média para baixo e, em simultâneio, aumentar os que se saem muito bem (nível 5 ou mais). O mesmo aconteceu na Polónia e no Luxemburgo.

As mães e o jardim de infância

Depois há os fatores relacionados com as famílias, como a escolaridade das mães, e que, em Portugal, têm um peso muito significativo na determinação do sucesso académico. Talvez porque o ponto de partida é muito baixo. Apesar de todos os progressos, em 2012 quase metade das mães de alunos de 15 anos tinham menos do que o 9º ano (em 2003 eram mais de 60%). Era o valor mais alto entre seis países analisados, sendo que na Finlândia, Holanda ou França o valor está abaixo dos 10%..

Assim, constataram os investigadores, “Portugal foi o único país, entre os analisados, onde se verificou um aumento simultâneo das qualificações mais baixas das mães e uma melhoria nos scores PISA”.

Outra relação próxima encontrada prende-se com o impacto do pré-escolar. As crianças que frequentam um jardim de infância têm em média “mais 40 a 50 pontos” nos testes PISA do que os restantes. E apresentam também uma probabilidade mais baixa de chumbar, conclui o aQeduto.

O estudo agora divulgado passa em revista outras conclusões do PISA já analisadas em relatórios anteriores do aQeduto, como o facto de a indisciplina e a falta de respeito dos alunos em sala de aula serem os problemas que mais afectam o aproveitamento dos estudantes e o normal funcionamento das escolas. Ou ainda que Portugal é um dos países onde os professores são mais bem vistos pelos alunos, com relatos frequentes de apoio, orientação e bom relacionamento.

Em dezembro, a OCDE divulgará os resultados do último PISA, realizado no ano passado por uma amostra de meio milhão de jovens de 15 anos, em 72 países e economias.