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“O médico”, por Clara Ferreira Alves

Marcos Borga

No dia da morte do neurocirurgião João Lobo Antunes, o Expresso recupera uma crónica que lhe foi dedicada, publicada a 22 de janeiro de 2000

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

Havia no gabinete dele, no consultório do hospital, um Pinóquio que um doente lhe tinha dado. Um boneco de madeira pintada, verde e vermelho, com as pernas compridas e desarticuladas, uma para cada lado. O médico gostava muito daquele Pinóquio, do mesmo modo que gosta do Grilo na história para meninos, o Grilo como interlocutor moral, o Grilo da vigilância palradora. Um dia, um menino de cinco anos foi ao gabinete do médico e cobiçou o Pinóquio. O médico, que tinha o boneco arrumadinho na gaveta da secretária há anos, pegou no Pinóquio e deu-lho. O Grilo continua com ele até hoje, dentro da sua cabeça, dizendo-lhe o que deve e não deve fazer, apertando as roscas da consciência, apanhando as sobras do tempo breve para pequenos e grandes actos de compaixão.

Uma vez tivemos uma conversa sobre a compaixão, o médico e eu. Era uma conversa sobre a morte, sobre o sofrimento humano no instante da condenação à morte. E o médico dizia que em certos casos que lhe passavam pelas mãos, literalmente lhe passavam pelas mãos, visto que é neurocirurgião, só restava a compaixão. A medicina não traria alívio nem consolo, a humanidade do médico cobriria o resto. A humanidade não dele, mas a do médico no sentido universal, a compaixão de todos os médicos.

Conheço-o há anos, e temos uma amizade daquelas que nunca se discutem, que não têm zonas de desconfiança ou escuridão, e sempre o ouvi falar dos doentes no tom com que entregou o Pinóquio ao menino, o tom da serenidade, da aceitação das coisas finais. Um tom de alegre despedida. Oxalá todas as mortes fossem ignorantes da mágoa da sua evidência, uma despedida sem dor. Na paisagem do sofrimento inscreve-se a luta diária, a corrida de obstáculos em que se transforma uma semana de sete dias, as semanas dos dias difíceis, difíceis para quem faz o elogio da dificuldade. Dias em que a operação é penosa, dias em que se vê morrer um amigo.

No livro que acaba de publicar, João Lobo Antunes tem textos sobre isto tudo. Um conta-nos a morte solar, o ocaso épico, certo dentro do tempo de uma vida, do seu mentor, o professor Juvenal Esteves. No outro, pergunta o que fazer com os livros de alguém que morreu tão antes do tempo, nome Margarida, que no título está acompanhada de David, como uma dedicatória tardia. Os dois morreram-lhe perto da mão e do coração, e a perturbação do sofrimento, cuja aprendizagem nunca está feita, tal como a aprendizagem da morte, estabeleceu no médico uma tristeza. Mas também o vi assim com doentes anónimos, histórias de gente que conheceu, que lhe pediu um Natal, uns meses, a vida, a luz, um pouco mais de luz, como Goethe nas «famous last words».

Nem todas as histórias acabam mal, algumas têm um final feliz, têm de ter, senão a proximidade da morte incendiaria os gestos de medo e as noites de insónia. No médico, uma disciplina de ferro ajuda a romper caminho na noite e a pisar o dia claro. E a família. A família é roubada na transação das leituras de fim de semana, mas quem vai a casa do médico sabe que a família está perto, mora na sala ao lado. Separada por uma porta de vidro atravessada pelos risos das crianças, filhos grandes e netos pequenos, e a voz da Mary, a mulher, que paira sobre as vozes da sala, ordenando o território em que o médico volta a respirar fundo. O território da casa cheia de quadros de artistas, de fotografias antigas, de sinais de quietação, da sobrevivência da memória e dos afectos, da importância dos sentimentos. Sem este território onde os milhares de livros espalham um caos amável, o médico talvez não conseguisse atacar a segunda-feira.

Há pouco tempo, no casamento de uma das filhas, estava a família toda reunida, os clãs de vários lados vindos a saudar a menina que casava. E o espetáculo das famílias como uma só família, incluindo o formidável clã dos Lobo Antunes, desmentia o cinismo de Tolstoi quando escrevia que todas as famílias felizes são iguais e que cada uma é infeliz à sua maneira. É tão raro ver famílias felizes que talvez essa aliança de espíritos que o tempo vai dissipando, essa aliança a que chamamos família, seja feliz à sua maneira e só as infelizes são todas iguais. Sem os livros e sem a cidade feliz da família, creio que o João Lobo Antunes não seria o médico que é, armado de paciência e cuidado.

A inteligência e a convicção não chegam para completar um ser humano. E é de um ser humano inteiro que estamos aqui a falar, com as suas faltas, as suas pontualidades, as virtudes e defeitos. Nunca o vi de queixo caído e olhar vacilante, nunca o ouvi queixar-se, falar das debilidades próprias. Um pudor, o mesmo pudor de que fala na entrevista, arremete contra as sentenças e curiosidades. E resiste sempre, no fundo das frases, o tal amor aos livros, outro território de defesa e reconhecimento mútuo.

Conheço poucas pessoas que leiam tanto e tanto gostem de ler. A tentação não é a da acumulação mas a do conhecimento e da intimidade das palavras, como se as palavras resolvessem todos os enigmas da existência e tomassem o pulso ao medo, acalmando-o. Quem muito lê acaba sempre por escrever alguma coisa, existe nas palavras, como nas doenças, uma contaminação.

Este segundo livro, «Numa Cidade Feliz», tem por dentro os habitantes que a construíram. Gente passa no meio das folhas, devolvida à vida ou ao mundo através da sensibilidade e da atenção de quem escreve. E tem por dentro alguns preceitos reguladores de uma vida com instantes de felicidade que poderíamos classificar, parafraseando Juvenal Esteves, como «atos leves de jardinagem». Outro nome para uma ética e um rigor. E tem, sobre tudo isto, a reflexão sobre o ser e o tempo. O efeito da passagem do tempo, a melancolia das folhas que caem, o vigor das que nascem de novo. O médico, ao contrário do artista e do oráculo, pode conceder «a dádiva do tempo futuro». A vida.