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“Nunca perdi a fé em Deus. Penso até que tenha amadurecido, depois de ter passado por um martírio”

Luis Barra

Quando, a 13 de outubro de 2015, monsenhor Krystof Charamsa revelou a sua homossexualidade, no Vaticano, escandalizou a Igreja e o mundo católico. No dia seguinte foi expulso da Congregação para a Doutrina da Fé, da qual foi membro 12 anos, proibido de dar aulas de Teologia, de celebrar missas, de usar batina. Um ano depois, o seu livro “A Primeira Pedra – Eu, Padre gay, e a minha revolta contra a hipocrisia da igreja” (Ed. Planeta) é um grito de liberdade - e uma prece para uma igreja inclusiva, liberta de dogmas e preconceitos. O Expresso entrevistou-o, na sua passagem por Lisboa para o lançamento do livro

Luís Barra

Luís Barra

Fotojornalista

Krysztof Charamsa é um conversador nato. Fala, fala, fala, com um sorriso aberto e franco, olhos nos olhos, de um límpido azul. Na voz meiga, percebe-se que gosta de pessoas. Nos gestos expansivos, lê-se que gosta da sua nova vida. Em Lisboa para falar do seu livro, levámo-lo até à Igreja de Nossa Senhora do Loreto, vulgo dos Italianos, no Largo do Chiado. Pedimos-lhe para entrar. E no fim, perguntámos:

Como se sente hoje numa igreja, depois de ter sido expulso dela, há um ano?
Ainda me sinto em casa. Sinto-me um padre no exílio. Claro, também sinto um pouco de tristeza, própria de alguém que expulsaram de casa. A Igreja não me permite subir ao altar, fazer homilias, que era algo de que eu gostava muito. A minha igreja é a das pessoas, não das leis. Hoje sinto-me mais livre numa igreja do que antes. Mas sinto que sou dali. Nunca perdi a fé em Deus. Penso até que tenha amadurecido, depois de ter passado por um martírio.

O seu livro, as suas denúncias, são contra a instituição da Igreja Católica, não contra Deus ou o catolicismo?
O que denunciei foi a hipocrisia da Igreja, não a igreja de Cristo. O Vaticano é uma forma de manutenção do poder político, não é a mensagem de Deus, que é amor e misericórdia.

Ainda espera uma resposta à carta que escreveu no ano passado ao Papa Francisco?
(Sorri). Não, já não... Esperava uma reação no dia em que fiz a declaração da minha homossexualidade, o meu 'coming-out'. Esperava que viessem tentar "resgatar-me", como uma família faz quando um dos seus membros se "perde"... Na verdade, fecharam-me a porta, disseram-me: "Não trabalhas mais". Essa é a resposta de uma instituição, não de uma família. Para que servisse de exemplo a outros padres homossexuais que tentassem fazer o mesmo que eu. Foi uma forma de lhes dizer: deixarás de ganhar o teu salário. Muitos padres vivem neste misto de medo e ameaça.

O celibato como obrigatoriedade na igreja Católica - não o sendo noutras igrejas, como a Ortodoxa – deve ser revisto?
O celibato chega à Igreja quase como uma lei política, de organização dos bens da Igreja, para que não fossem dispersos. O celibato tenta anular a sexualidade do padre. Mas a sexualidade não se pode cancelar. São sentimentos, desejos, afetos, não são só relações sexuais. Este dogma da religião católica contrasta com metade do cristianismo - no Oriente, os cristãos Ortodoxos têm padres que podem casar-se. A sexualidade é uma realidade viva. Está na cabeça de todos nós, não nos órgãos genitais. É o que me permite amar. Na verdade, a sexualidade toca a espiritualidade. E o amor humano é um amor encarnado, com consumação física.

Luis Barra

Por que tem a Igreja tanto medo da sexualidade?
Tem verdadeira obsessão. As primeiras interpretações históricas dos Evangelhos, a propósito da sexualidade, foram "contaminadas". Rejeitam paixão, sexualidade. Mas Cristo aceita afetos, paixões, sentimentos, tudo o que está relacionado com a sexualidade. Foram 19 séculos a repetir o mesmo dogma. Como outros erros que se repetiram, como a escravatura, que demorou séculos a abolir. Ou a submissão das mulheres aos homens. A Igreja deve ter a humildade de saber refletir e amadurecer as suas interpretações, e de alterar posições imperfeitas. A sexualidade é a parte mais íntima das nossas vidas. Durante séculos, pouco se sabia sobre o tema. Era um campo de mistério, de ignorância. No século XX, as ciências sociais estudaram largamente a sexualidade, de forma científica. O assunto foi tratado de forma séria. Isso veio pôr fim ao domínio da Igreja como única entidade competente para ditar as leis da sexualidade. A Igreja proibiu que se falasse do tema, era considerado vergonhoso. Oscar Wilde dizia: "Quem controlar a sexualidade, controla o ser humano". E a Igreja controlava as camas dos fiéis. Em vez de estar em todas as divisões da casa, da vida. A revolução sexual permitiu falar sobre sexo de forma séria. Todos os escândalos de pedofilia só surgiram depois da revolução sexual, que permitiu falar abertamente sobre a sexualidade.

Defende que metade do clero é homossexual. É uma afirmação polémica, não?
Essa estimativa minha é uma intuição para base de trabalho. No meio fechado do clero, ao fim de anos de convivência começa-se a perceber, sem serem precisas palavras. São pessoas que tendem a querer estar sempre ao pé de companhias masculinas. Durante séculos, a Igreja foi o sítio perfeito para os homossexuais se realizarem. Bastava que não falassem sobre isso, e ganhavam um estatuto social, e era-lhes retirada a obrigação de criar uma família. Mas esse "lugar perfeito" fez-se acompanhar por uma vincada homofobia, sinal de profundo mal-estar e ódio por si próprios.

Quando o Papa Francisco, em 2013, pronunciou aquela frase "Quem sou para julgar?", a propósito dos crentes homossexuais, sentiu que havia esperança?
Sim, penso que foi um sinal de abertura, apesar de não se ter concretizado... É curioso que, quando ele disse essa frase, respondia a uma pergunta sobre um colaborador seu muito próximo, Monsenhor Ricca, diretor da Casa de Santa Marta, onde o Papa vive. Mas depois nada foi feito no sentido de abrir a Igreja... Não foi anulada a lei que o Papa Bento XVI promulgou em 2005, proibindo qualquer homossexual de ser ordenado padre. Isso é afirmar que qualquer homossexual não é são, que tem uma patologia - e isso é uma ofensa comparável aos dogmas nazis de Hitler. O Papa Francisco não promoveu estes estudos, tão necessários.

Tem esperança de ainda vir a conhecer uma Igreja Católica que inclua todos os seus fiéis?
Só Deus sabe a resposta. Isso depende de uma decisão da Igreja de iniciar uma discussão livre. Neste momento, preocupa-me que as gerações mais jovens de padres seja ainda mais fechada, mais fundamentalista. Têm um nível intelectual baixo, e uma fé fundamentalista. Querem alhear-se do mundo, visto como fonte de pecado, não querem "sujar as mãos". Querem manter-se longe das pessoas reais. José Saramago, que era ateu, dizia que somos todos cegos. Cegos que podemos ver, mas que não queremos olhar. Acho graça que seja ateu, porque eu leio-o e vejo imagens cristãs por todo o lado. Ao longo da História, lutámos primeiro pelo direito das mulheres, depois pelos direitos dos negros . E agora lutamos pelos direitos das minorias.

Houve papas homossexuais?
É pública a "amizade" entre o Papa Paulo VI e o ator milanês Paolo Carlini, que tinha autorização para entrar no Vaticano a qualquer hora do dia ou da noite. Na Alemanha, há variadíssimos testemunhos de pessoas que conviveram com Ratzinger (Papa Bento XVI) e que contam que ele é homossexual. Como teólogo, acho que, moralmente, denunciar homófobos que lutam contra a homossexualidade é justificado – porque é um crime de direitos humanos, e tem impacto de vida de muitas pessoas. Mas eu não faço "outing" de ninguém, não denuncio ninguém. Digo apenas que, na Igreja Católica, haveria um vasto campo, entre bispos e membros da Igreja, para "coming-outs".

Com que idade soube que queria ser padre, na sua Polónia natal?
Desde sempre. Desde que me lembro de mim que estive sempre ligado à Igreja. Fiz o meu percurso todo lá, fui catequista, leitor... Toda a minha família é muito católica - e sofreu uma enorme perseguição desde que eu assumi publicamente a minha homossexualidade.

E quando soube que era homossexual?
Na adolescência. Comecei a sentir desejo – e a perceber que eram os rapazes, e não as raparigas, que me atraíam. Nessa altura, iniciei uma luta enorme dentro de mim. Rezei muito, pedi para não ser homossexual. Carreguei um sentimento de culpa enorme durante anos. Era como uma prisão. Guardei este segredo até aos 40 anos. Depois, percebi que nenhuma igreja tinha o direito de dizer que eu sofria de uma patologia, por ser homossexual. Por isso, escrever este livro foi um ato de libertação.

Hoje, com 44 anos, vive em Barcelona com o seu companheiro, o catalão Eduard Planas. Como se conheceram?
Sobre isso, julgo que vamos escrever algo sobre o assunto. Hoje, posso dizer que estou muito contente por estar em Portugal a apresentar a versão portuguesa do meu livro. Porque esta sociedade é muito semelhante ao meu país, em termos de catolicismo, mas deu passos de gigante em relação à minha Polónia natal. Aqui, sinto-me mais em casa do que no meu país.