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Vaticano proíbe dispersão de cinzas. Famílias também não as podem guardar em casa

Receptáculo para guardar cinzas

MARK DJURICA / Reuters

A Congregação para a Doutrina da Fé anunciou uma nova “Instrução” sobre o destino das cinzas dos defuntos que são cremados. O Papa Francisco assina por baixo esta norma que censura os católicos que espalhem as cinzas dos entes queridos, as lancem à água, ou guardem em casa

Há 7,2 milhões de católicos em Portugal de acordo com o Censo de 2011, que revela que os portugueses residentes em território nacional são 8,9 milhões. Mesmo que uma parte significativa desses 7,2 milhões de católicos seja não praticante, e apenas se afirme assim por ter nascido e sido educado num país de tradição católica, todos sabemos que na hora da morte a grande maioria da população procura igrejas ou capelas para se despedir dos entes queridos.

Numa época em que o número de cremações tem aumentado progressivamente, o Vaticano anuncia esta terça-feira novas normas sobre o destino das cinzas dos defuntos católicos que optaram por ser cremados. “Para evitar qualquer tipo de equívoco panteísta, naturalista ou niilista”, não será “permitida a dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água ou, ainda, em qualquer outro lugar”.

“Exclui-se, ainda a conservação das cinzas cremadas sob a forma de recordação comemorativa em peças de joalharia ou em outros objectos”.

Dito de outra forma, isto significa que Francisco sancionou a Instrução agora divulgada, e que está disponível para consulta – em sete línguas – no site do Vaticano, mas que já tinha sido aprovada há alguns meses.

Vaticano prefere sepulturas

No ponto 4 da nova Instrução da Congregação para a Doutrina da Fé, lê-se que a “Igreja continua a preferir a sepultura dos corpos, uma vez que assim se evidencia uma estima maior pelos defuntos; todavia, a cremação não é proibida, a não ser que tenha sido preferida por razões contrárias à doutrina cristã”.

A nova doutrina da Santa Sé sobre o destino dos mortos revê e atualiza a “Instrução Piam et constantem, de 5 de Julho de 1963”, lembrando aos católicos que se tenham afastado do dispositivo normativo de há 53 anos, que o destino dos mortos é competência da Santa Sé, e não da esfera privada dos católicos.

“Mediante a sepultura dos corpos nos cemitérios, nas igrejas ou em lugares específicos para tal, a tradição cristã conservou a comunhão entre os vivos e os mortos e opõe-se à tendência a esconder ou privatizar o acontecimento da morte e o significado que ela tem para os cristãos”.

A Instrução lembra ainda que a “sepultura dos corpos dos fiéis defuntos nos cemitérios ou noutros lugares sagrados favorece a memória e a oração pelos defuntos da parte dos seus familiares e de toda a comunidade cristã, assim como a veneração dos mártires e dos santos”.

Exéquias recusadas aos que queiram espalhar as cinzas

No ponto 8, o último desta Instrução, a Congregação para a Doutrina da Fé, diz que no “caso do defunto ter claramente manifestado o desejo da cremação e a dispersão das mesmas [cinzas] na natureza por razões contrárias à fé cristã, devem ser negadas as exéquias, segundo o direito”.

A Santa Sé admite, contudo, que “por razões de tipo higiénico, económico ou social” se escolha a cremação, “uma vez que a cremação do cadáver não toca o espírito e não impede à omnipotência divina de ressuscitar o corpo. Por isso, tal facto, não implica uma razão objetiva que negue a doutrina cristã sobre a imortalidade da alma e da ressurreição dos corpo”.

Mas avisa que “quaisquer que sejam as motivações legítimas que levaram à escolha da cremação do cadáver, as cinzas do defunto devem ser conservadas, por norma, num lugar sagrado, isto é, no cemitério ou, se for o caso, numa igreja ou num lugar especialmente dedicado a esse fim determinado pela autoridade eclesiástica”.