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Médico dos Comandos negou qualquer tipo de negligência na morte dos dois militares

Hugo Abreu e Dylan Almeida morreram no primeiro dia de treinos, e segundo do curso, a 4 de setembro

Gonçalo Rosa da Silva

Suspeito foi ouvido uma vez pelas autoridades civis e apenas como testemunha. Voltará a ser interrogado em breve, quando já for arguido. Será indiciado pelo Ministério Público pelo crime de abuso de autoridade

O médico que estava de serviço a 4 de setembro no campo de tiro de Alcochete (Setúbal), local do primeiro dia de treinos do 127.º curso dos Comandos, foi ouvido uma vez no Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa, como testemunha.

Os procuradores responsáveis pela investigação das mortes de Hugo Abreu e Dylan Silva, ambos de 20 anos, confrontaram o responsável clínico com as informações fornecidas por outras testemunhas do processo em interrogatórios anteriores. “O médico não explicou muito bem qual a razão por que se foi embora às 19h00 da tenda de campanha onde se encontravam as vítimas”, revela uma fonte da investigação.

Duas horas depois de se retirar, alegadamente para o Hospital das Forças Armadas com o objetivo de pedir camas para os dois jovens militares, o INEM chegou ao campo de tiro: Hugo Abreu foi nesse momento dado como morto e Dylan Silva acabou por ser retirado de ambulância, com falência dos órgãos face a “desidratação extrema”, vindo a morrer uma semana depois no Hospital Curry Cabral, em Lisboa.

Às 21h00 encontravam-se na tenda de campanha os dois enfermeiros que foram ouvidos esta terça-feira no DIAP de Lisboa. “Já tinham sido inquiridos por duas vezes, sempre como testemunhas”, refere a mesma fonte. Deverão sair agora como arguidos do processo.

No interrogatório ao médico — cujo nome o Expresso opta por omitir — não terão sido dadas muitas explicações aos procuradores sobre as razões que o levaram a declarar Hugo Abreu e Dylan Silva como “doentes não urgentes” ou porque não mandou transferir os militares, vítimas de “um golpe de calor”, para um hospital ainda durante essa tarde. “Negou qualquer tipo de atos negligentes ou de abuso de autoridade”, acrescenta a mesma fonte do processo.

Durante aquele domingo (o segundo dia do curso mas o primeiro com treinos físicos) foram assistidos na tenda de campanha mais de 20 instruendos do curso, num dia em que as temperaturas em Alcochete ultrapassaram os 40 graus.

Segundo o Expresso apurou, o médico ainda não foi constituído arguido mas em breve será indiciado pela Justiça pelo crime de abuso de autoridade por ofensa à integridade física, previsto no código de justiça militar. As penas podem ir dos oito aos 16 anos de prisão, nos casos em que haja morte de subordinados, como foi o que sucedeu em Alcochete.

Ordens abrem inquéritos

Entretanto, os órgãos disciplinares da Ordem dos Médicos decidiram “abrir formalmente um inquérito” ao clínico que assistiu os dois instruendos do 127.º curso de Comandos e que acabaram por falecer. A decisão foi avançada ao Expresso pelo bastonário José Manuel Silva.

O médico visado, militar com a patente de capitão, poderá ser alvo de sanções pela Ordem que vão da simples advertência ao impedimento total do exercício da profissão.

Em relação aos enfermeiros, fonte da Ordem dos Enfermeiros adianta que vai “de imediato” pedir a identificação dos dois enfermeiros e abrir um inquérito. Lamenta, no entanto, não ter sido oficialmente informada pelo Estado Maior do Exército sobre as suspeitas que recaem sobre os dois enfermeiros.

Na última semana, o Exército abriu dois processos disciplinares no seguimento das investigações sobre as condições de formação no 127º curso de Comandos, em que morreram Hugo Abreu e Dylan da Silva. Em comunicado, o Exército informou que foram detetados “indícios da prática de infração disciplinar”.

O porta-voz do Exército, tenente-coronel Vicente Pereira, confirmou que dois instrutores foram constituídos arguidos e que o processo de “averiguações interno continua a decorrer”. Além dos dois casos, cujas identidades não foram reveladas, podem ainda ser abertos mais processos disciplinares a instrutores do mesmo curso.