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Sociedade

Hospitais têm de ser mais rápidos a identificar bactérias

José Carlos Carvalho

Peritos afirmam que os médicos devem ter acesso facilitado a análises aos agentes infeciosos para ‘acertarem’ à primeira no antibiótico prescrito

Já se sabe que qualquer antibiótico é para tomar até ao fim, para garantir que o tratamento surte efeito e evitar que o invasor sobreviva, tornando-se resistente ao que era suposto matá-lo. E se o medicamento receitado não for o mais correto para a bactéria específica que causou a doença?

É suposto o médico saber que antibiótico prescrever, mas sem uma análise que identifique o agente só lhe resta arriscar, pois o doente não pode esperar dois ou três dias, na melhor das hipóteses, pelo resultado. Uma vezes o clínico acerta, outras não.

Para reduzir o nível de incerteza na prescrição de antibióticos, e assim as resistências das bactérias a estes fármacos, um grupo de peritos recomenda que sejam criadas condições nos hospitais – onde as infeções são mais graves, os antibióticos têm um espectro mais vasto e os riscos de resistência são maiores – para facilitar a caracterização das infeções. É pedido que se atue para "aperfeiçoar a logística interna, de modo a encurtar os períodos de tempo despendido entre a terapêutica empírica e a terapêutica dirigida". Por exemplo, optando por métodos de diagnóstico mais rápidos, mas, claro, mais caros.

Novo estudo

O estudo "Infeções Associadas aos Cuidados de Saúde: Contributo da Indústria de Meios de Diagnóstico In Vitro para o seu controlo", a divulgar na tarde desta feira no Centro de Investigação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, faz 12 recomendações para melhorar a resposta às infeções adquiridas no âmbito dos cuidados hospitalares e a respetiva terapêutica antibacteriana.

O grupo de peritos, liderado pelo antigo ministro da Saúde socialista António Correia de Campos, afirma ser igualmente necessário "apoiar e reforçar a cooperação entre instituições e sobretudo dentro das unidades de saúde, entre os diversos especialistas que têm a ver com a luta contra as infeções associadas aos cuidados de saúde (IACS), alargar e aprofundar o conhecimento: clínico, organizativo, social e económico nomeadamente através de estudos que permitam melhor conhecer a dimensão do problema, custos, alternativas de ação, riscos e resultados".

A divulgação de casos de sucesso, nacionais e internacionais, devem ser igualmente estimulada, bem como programas em curso como o projeto que a Fundação Calouste Gulbenkian tem em vários hospitais públicos nacionais. E o Serviço Nacional de Saúde também tem de ser mais proativo. "Deve utilizar a experiência que só a prática gera, de desenhar, executar e difundir estudos metodologicamente corretos e cientificamente independentes, de análise de custo-efetividade de cada nova tecnologia, para gastar melhor os recursos que o país colocar ao seu dispor."

Testes inovadores "subvalorizados"

A equipa coordenada por António Correia de Campos garante que o recurso a novos métodos não é adequado. "Os dispositivos in vitro são ainda subvalorizados" mas "têm potencial de intervir em toda a 'fileira' da doença". Permitem, por exemplo, identificar o agente infecioso em poucas horas. Por exemplo, uma análise convencional – uma zaragota nasal para a bactéria MRSA (das mais detetadas em Portugal com resistências aos tratamentos) –demora dois a três dias e custa nove euros, e um teste rápido (de biologia molecular) tem um resultado em seis horas, mas por 40 euros.

Os especialistas referem no estudo que "os dispositivos in vitro representam 5% dos custos de um hospital, mas os seus resultados influenciam entre 60% a 70% das decisões em saúde. Todavia, são subvalorizados". Assim sendo, dizem, "torna-se necessário conhecer e garantir os seus atributos".

Do conjunto de recomendações consta ainda uma proposta para "integrar o sector privado de saúde na recolha de informação e cumprimento das orientações e boas práticas sobre a IACS, recomendadas pela Direção-Geral da Saúde, desde logo através do Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e Resistências aos Antimicrobianos.

Portugal com mais infeções hospitalares

O problemas das infeções e da perda de eficácia dos antibióticos é há muito considerado um problema de saúde à escala global pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e o país não tem razões para estar descansado. "A situação de Portugal está longe de ser aceitável no contexto europeu. A infeção hospitalar atinge 10,5% dos doentes internados, para 6,1% na média da União Europeia". Além disso, "o consumo de antibióticos é elevado (45,4% dos doentes em hospitais) quando comparado com os restantes países da Europa (35,8%), levando a taxas de resistência que podem atingir 73,7% e 84,5% com certos microrganismos e locais (anatómicos) de infeção.

As estimativas da OMS estão feitas se nada for alterado. Em 2050, morrerão anualmente 390 mil pessoas na Europa, dez milhões em todo o mundo vítimas de uma infeção adquirida no âmbito da prestação de cuidados numa unidade de saúde.

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