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Fugitivo de Aguiar da Beira a monte há duas semanas

A fuga de Pedro Dias continua a baralhar as autoridades que fazem uma caça ao homem desde o dia 11, altura em que terá assassinado um militar da GNR e um civil, ferindo ainda um outro militar e uma mulher. Já passou por Arouca, São Pedro do Sul e Vila Real. O Expresso fez o mapa interativo

Durante os últimos dias, Pedro Dias terá estado escondido num dos mais de cem palheiros, casebres e armazéns de pedra espalhados pelo enclave de sete aldeias junto a Vila Real. Muitas destas casas isoladas são usadas para guardar lenha e as colheitas e outras estão abandonadas há anos, servindo de refúgio perfeito para o homem mais procurado do país, suspeito de assassinar a sangue frio um militar da GNR e um civil em Aguiar da Beira (Guarda) há doze dias.

São 1553 hectares de terrenos acidentados e zonas de mata densa onde não faltam videiras, macieiras, amoreiras e outras frutas da época que servem de alimentação gratuita e permanente. “Um fugitivo inerte é mais difícil de ser apanhado do que alguém em movimento. Basta ter que comer”, conta um ex-operacional da PJ habituado a buscas desta dimensão. “É a tática Bin Laden”, acrescenta.

Durante cinco anos, o líder da Al-Qaeda esteve escondido dos satélites militares dos EUA. Nunca saiu do interior de uma vivenda com três pisos, rodeada por muros altos, sem telefone nem ligações à internet, que estava situada a um quilómetro da Academia Militar do Paquistão, no norte do país. Só foi detetado depois de quatro agentes da CIA descobrirem, quase por acaso, um dos homens de confiança de Bin Laden a guiar um Suzuki branco. Seguiram-no com paciência e meses depois, a 29 de abril de 2011, as forças especiais dos EUA abateram o inimigo nº 1 do Ocidente.

Pedro Dias e Manuel Baltazar

Pedro Dias e Manuel Baltazar

Em Portugal, Manuel Baltazar, mais conhecido por “Palito” e os irmãos Cavaco, nos anos 80, também conseguiram fintar as autoridades durante vários dias, usando esta técnica da imobilidade que os tornou quase invisíveis. “Sempre que precisaram de se movimentar acabaram por cometer erros e deixar pistas”, acrescenta o mesmo ex-PJ.

Sequestro em Moldes

Há duas semanas que Pedro Dias baralha as autoridades. Esta segunda-feira terá furtado um jipe, perto de Sabrosa, dado que as autoridades não confirmam. Embora tendo já deixado pistas e cometido erros, o único suspeito dos crimes de Aguiar da Beira tem estado sempre um passo à frente da polícia.

Após ter sido dado como estando em Salamanca, a PJ e GNR foram surpreendidas com um casal de idosos sequestrado numa casa em Moldes, perto de onde vivem os pais e a filha, em Arouca. Seguiram-lhe a pista até Vila Real e descobriram o Opel Astra roubado no dia seguinte, segunda-feira, na aldeia de Carro Queimado, a de 10 quilómetros de Vila Real.

Apesar das buscas, a polícia perdeu o rasto a Pedro Dias, avistado na madrugada da passada terça-feira no telhado de uma casa, junto à ermida da vizinha aldeia de Assento. O alerta foi dado por uma idosa, o que levou a uma nova perseguição sem resultados. Nos últimos dias, o cerco às aldeias da União de Freguesia de Vale de Nogueira e Constantim, habitadas sobretudo por idosos em casas dispersas, tem sido cada vez mais discreto, com batidas à região por agentes sem distintivos nas sinuosas estradas que ligam os povoados rurais, situados em zona de caça associativa.

A estratégia é vencer Pedro Dias pelo cansaço, à espera de que cometa um erro. Mas o suspeito conhece bem a região, como caçador de longa data. Seis dias antes dos crimes, “Piloto”, como é conhecido por ter brevet, e um grupo de seis caçadores almoçaram no restaurante Constantino, em São Martinho de Anda, a menos de cinco quilómetros do local onde abandonou o carro.

Agiu só ou com ajuda?

Várias fontes policiais garantem que pelo menos em algumas partes do percurso o fugitivo terá contado com a ajuda, intencional ou involuntária, de algumas pessoas. “Neste momento estamos quase que a procurar uma agulha num palheiro. Não é uma operação fácil. Já sabíamos disso”, conta um alto responsável da investigação.

Esta quinta-feira, Almeida Rodrigues, diretor da PJ, reconhecia que se tratava de “um caso complexo, num meio muito aberto e com muitos esconderijos” e que o suspeito é alguém com um perfil psicológico “que inspira cuidados”. Os traços de “sociopatia, frieza e calculismo” fazem temer, entre vários operacionais contactados, “um dramático confronto final” entre Pedro Dias e a polícia. Poucos são os que acreditam que se entregue sem resistência, como aconteceu com o “Palito”. “Temos de estar prevenidos para aquilo que chamamos suicídio pela polícia”, diz uma fonte.

Sentindo-se acossado, e sabendo que o espera uma pena de 25 anos de prisão, Pedro Dias pode obrigar deliberadamente as autoridades a reagir violentamente contra ele. E a terem de o matar.