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Mandou estrangular o marido, assistiu ao seu assassínio e por pouco não escapou à pena máxima

RETRATO-ROBÔ Maria da Purificação Vasa Marreiros

Vinte e três anos os separavam, mas casaram-se e, de início, tudo parecia correr bem... Maria da Purificação saiu do tribunal convencida de que cumpriria a pena mínima, mesmo assim recorreu da sentença do juiz das Caldas da Rainha. Foi o seu azar. Os tribunais superiores não encontraram atenuantes para ter mandado um amigo estrangular o marido

Anabela Natário

Anabela Natário

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Jornalista

João Roberto

João Roberto

ilustração

Motion designer

Passaram-se quase dois meses desde o crime, Maria da Purificação, com direito ao título de Dona, continuava a viver na mesma casa, a dormir na mesma cama onde dera sentença de morte ao marido. A criada espalhara desconfianças, mas tudo parecia ter ficado pelo Casal da Areia, no máximo pela freguesia de Salir de Matos. Parecia... O administrador do concelho das Caldas da Rainha há de dar-lhe voz de prisão, o juiz irá condená-la e quando julgar que cumprirá pena mínima, apanhará um calafrio.

Havia gritos, morras a este e àquela, e… vivas à República. Até às três horas da tarde de 24 de outubro de 1882, as autoridades mantiveram as portas do tribunal fechadas. Mas o povo mostrava-se cada vez mais difícil de conter. E o acesso foi permitido. “Grande tumulto, muito vinho e pouco respeito”, conta o correspondente do “Diário Ilustrado”, o primeiro a dar a notícia da prisão, no ano anterior, num telegrama datado de 25 de setembro e publicado na edição do dia seguinte.

Às seis horas da tarde, “havendo então grande vozearia”, confirma o jornal “O Século”, o juiz interrompeu a audiência. Tinham sido ouvidas 25 testemunhas, das 45 arroladas. Torna-se impossível continuar com o julgamento de dona Maria da Purificação Vasa Marreiros, acusada de assassinar o marido, com a cumplicidade de dois homens, na madrugada seguinte ao seu 47.º aniversário. “A ré na recondução à cadeia foi acompanhada por muito povo, dando-lhe morras e dirigindo-lhe toda a espécie de doestos”, conta o “Diário Ilustrado”.

Entre a sala de audiência e o largo fronteiro à porta do tribunal das Caldas da Rainha, estariam cerca de seis mil pessoas, quase metade da população do concelho, muitos mais dos que os cerca de 1500 habitantes da freguesia de Salir de Matos, que fora concelho até ao início do século XIX, e dos escassos habitantes do lugar de Casal da Areia, onde o crime se dera no último dia de junho de 1881. O registo do óbito de José Joaquim de Almeida Marreiros, de 69 anos, tem a data de 1 de julho e neste se refere as duas horas da manhã, mas trata-se de uma imprecisão como a de o localizar no lugar vizinho da Torre, esta última emendada no final do texto pelo mesmo redator.

O prior Manuel Martins Nunes terá confundido as madrugadas, já que efetuara o registo no dia do funeral para o cemitério da vila de Salir, mas teve o cuidado de assentar que Almeida Marreiros, de 69 anos, proprietário, nascido em Loulé, bispado do Algarve, "faleceu sem receber os sacramentos”, facto que indica doença súbita ou caso para desconfiar, já que, normalmente, entre os católicos, quando se sentia a morte aproximar-se, o padre era uma das primeiras pessoas a ser chamada.

Maria da Purificação, nascida na terra a 29 de junho de 1835, de uma família de fidalgos da casa real, pelo lado paterno, ainda viveu dois meses na ilusão de que a morte do marido fora tida como natural. E de que a voz da criada interna não chegaria longe, que o medo que lhe incutira lhe travaria a vontade de espalhar aos quatro ventos aquilo que ouvira, na noite de 29 para 30 de junho de 1881, quando ela, farta de um casamento de 27 anos e de um marido que ganhara muito mau feitio, pedira ajuda para o estrangular.

Mas a criada Joaquina não parou de bichanar desconfianças. Não podia esquecer-se, já que tudo se passara depois de regressar da festa de São Pedro, a que fora no lugar do Pego, a cerca de uma dúzia de quilómetros de Casal da Areia. É que, a si, “conhecendo a maneira de viver dos patrões, o pouco afeto que entre eles existia e desconfiando da infidelidade conjugal da ama, fácil foi conjeturar que Marreiros fora assassinado”, isto nas palavras do correspondente do “Diário Ilustrado”, que assistiu ao julgamento que seria retoma a 25 de outubro e concluído pelas seis horas da manhã seguinte, depois de chegarem os 46 militares solicitados a Peniche.

Joaquina chegou a casa de Maria da Purificação e de José Joaquim, por volta das nove da noite, e deitou-se. Em principio, só lá estariam os senhores. Almeida Marreiros recolhera-se cedo também e mulher ficara “a pé a pretexto de proceder a alguns arranjos na casa”. Passadas duas horas sentiu “um motim e sussurro de vozes abafadas”. Deviam ser umas 11 da noite, ficou sobressaltada. O seu quarto ficava no piso de baixo, na direção do quarto dos amos, percebia perfeitamente que algo se passava, algo mais do que as discussões que se tornaram frequentes com o andar dos anos.

Decidida a saber o que se passava, levantou-se, dirigindo-se ao piso superior, mas “apareceu-lhe a ama que a quietou, dizendo ser uma pequena pendência entre ambos”. Joaquina regressou à cama e à inquietação, logo que voltou a ouvir novo “motim” e gemidos abafados. “Tornando a ir saber a causa, e novamente a ama a mandou deitar, prometendo-lhe contar-lhe tudo no dia seguinte”. E qual não foi a surpresa de Joaquina quando, pela manhã, a patroa, “muito senhora de si, lhe declarou que o seu amo tinha morrido”, conforme contou ao tribunal.

Parte da certidão de nascimento de Maria Purificação Vasa, filha de Joaquim da Vasa César Faro e Vasconcelos

Parte da certidão de nascimento de Maria Purificação Vasa, filha de Joaquim da Vasa César Faro e Vasconcelos

“Havia grande diferença de idades entre ambos, o que não impedia que nos primeiros anos de casados vivessem na mais completa tranquilidade, desfrutando de excelentes meios de fortuna”, já escrevera o “Diário Ilustrado”. Maria da Purificação Vasa, nome que usava em solteira, casara-se com José Joaquim, oficial da fazenda da armada, também filho de proprietários, e de uma mãe com o título de dona, tinha ela 19 anos e ele 42. O pai, Joaquim da Vasa César de Faro e Vasconcelos, já morrera e os recém-casados ficaram a morar com a viúva sua mãe, ainda viva, na casa situada numa das quintas do Casal da Areia.

A mesma quinta pertencera, até ao ano anterior ao nascimento de Purificação, a dona Genoveva Maria da Piedade, primeira mulher de Joaquim da Vasa, rica proprietária, cuja última vontade foi ser sepultada com a “assistência de oito padres”, cada um obrigado a dizer 20 missas, dentro da capela de Nossa Senhora das Necessidades, à qual deixou a elevada quantia de nove mil e seiscentos réis “anualmente aplicada para a ajuda do capelão que disser a missa aos domingos e dias santos”. O seu funeral deverá ter sido concorrido, já que cada participante ganhou 20 réis e cada homem que transportou o caixão 120. Genoveva "faleceu da vida presente, com todos os sacramentos", em janeiro de 1834, no mês de julho seguinte, o viúvo casava com Maria do Carmo, que catrapiscara num povoado vizinho.

“A morte, segundo se conta, foi exercida por meio de estrangulação”

Mas se de início o matrimónio corria "na melhor harmonia", apesar da diferença de 23 anos entre a jovem de Casal da Areia e o oficial da armada que se tornará lavrador, “desde certo tempo, porém, este homem, a quem a idade e os trabalhos faziam jus a uma vida ilesa de contrariedades e desgostos, começou a sentir-se agastado e a revelar génio irascível e, por vezes, estranhamento severo, apartando de si, com profundo pesar, seu filho a quem mandou educar para um colégio de Lisboa”, atesta o “Diário Ilustrado”, antes e depois do julgamento.

“As pessoas que consigo privavam notavam tão singular mudança a que atribuíam causas diferentes. Ultimamente, Almeida Marreiros vivia bastante concentrado, não saindo quase que da povoação em que morava”, escreveu ainda o correspondente do “Diário Ilustrado”. Uma das "causas", referida pela criada Joaquina, seria a existência de um ou mais amantes, todavia, não aparecerá a público qualquer confirmação, apesar de serem envolvidos no processo dois homens, um dos quais, Fernando dos Santos, será absolvido.

Muito embora o povo diga que “quem conta um conto, acrescenta um ponto”, o administrador do concelho das Caldas optou pelo outro provérbio que diz “não há fumo sem fogo”. Pôs-se a investigar. E no dia 25 de setembro, fazendo-se acompanhar pelos escrivão e oficiais de diligências, deslocou-se ao casal da Areia para interrogar a viúva. Nessa noite, Maria da Purificação, mostrando “invulgar sangue-frio”, foi levada para a cadeia das Caldas da Rainha e I.M., o correspondente do “Diário Ilustrado”, o primeiro a dar a notícia, envia, pelas 12h, um telegrama para o jornal de Lisboa: “Entrou na cadeia ontem à noite uma mulher do Casal da Areia acusada de cumplicidade no assassínio do próprio marido, há perto de três meses. Toda a vila está consternada. Darei pormenores”.

E deu, além de adiantar o que um ano depois será repetido em julgamento, no dia 28 de setembro de 1881. “A morte, segundo se conta, foi exercida por meio de estrangulação, devendo ter sido violenta a luta por isso que a vizinhança, apesar da sua idade, dispunha ainda assim de força o que em parte não quer dizer nada, sendo, como naturalmente o foi tomada de surpresa quando a dormir”. Acrescentando: "Diz-se que para tal fim foram chamados dois homens que a justiça procura também prender".

Assim, acabam na prisão Fernando Santos e Manuel Alonso, este talvez se chame Manuel Afonso (os jornais enganam-se nos nomes, a precisão depende de um bom ouvido e de boas intenções, o “Diário de Notícias”, por exemplo, chama à ré Delcarias da Purificação Vasca), e seja o padrinho de casamento de Maria da Purificação seu amigo dedicado, muito provavelmente. O primeiro sairá em liberdade ao fim de um ano e um mês de cadeia, o segundo será condenado quatro anos de prisão celular ou, em alternativa, oito de degredo.

Recorte do "Diário Ilustrado" com a notícia que tornou público o crime de Casal da Areia

Recorte do "Diário Ilustrado" com a notícia que tornou público o crime de Casal da Areia

A pena para Maria da Purificação Vasa foi menor, foi de três anos de prisão celular ou seis de degredo, a mínima para um caso de cumplicidade em homicídio, quando tudo indicava ter sido ela a mandante das mãos que apertaram o pescoço de Almeida Marreiros até à morte. O advogado Oliveira Vale que veio de Lisboa soube fazer bem o seu trabalho, assim como Teles, de Alenquer, e Almeida da Silva, das Caldas, que defenderam os dois outros réus, e “as galerias que estavam apinhadíssimas, receberam de bom grado a decisão do júri”.

“Eram muito deficientes as provas apresentadas no tribunal, mas na opinião publica, e nos juízo das pessoas que conheciam o viver intimo daqueles casados não restava a menor dúvida de que a ré praticara aquele execrando crime com muitas circunstâncias agravantes”, resumirá o jornal “Diário de Notícias” que também dedicará algum espaço ao julgamento. Neste caso, talvez pela importância da ré, embora nunca seja ligada à influente família Vasa, até o jornal realista “A Nação” contará história para acentuar que este crime, “horror! mais bárbaro e atroz de que há conhecimento” era “filho da completa ausência de temor a Deus” e um “maldito fruto do liberalismo”.

O problema viria mais tarde, fruto de terem resolvido recorrer da sentença. A professora universitária brasileira Selma Pantoja encontrou a ficha de a viúva de Almeida Marreiros no livro de matriculas dos degredados, quando faziam investigações nos anos de 1990 final do século XX. “Entre as 358 degredadas para Angola, entre 1865 a 1898, só Maria da Purificação Vasa Marreiros está registada com o título de Dona, com nome do pai, 47 anos, condenada por cumplicidade em homicídio, degredada por 15 anos para Mossâmedes”, escreveu em “A diáspora feminina: degredadas para Angola no século XIX (1865-1898)”.

Documento que atesta o regresso ao nome Moçâmedes, deste município da provincia de Namibe. Publicado <a href="http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2011/11/mocamedes-namibe-angola-annos-1839-1849.html"target="_blank">AQUI</a>

Documento que atesta o regresso ao nome Moçâmedes, deste município da provincia de Namibe. Publicado AQUI

O apontamento 'despegado' da professora da Universidade de Brasília significa que os tribunais superiores elevaram para o dobro a pena dada a Maria da Purificação pelo tribunal das Caldas, presidido pelo juiz Trigueiros. Quinze anos de degredo, a seguir à pena perpétua, eram o máximo de tempo que um condenado teria de passar em África; e ser mandado para Moçâmedes (terra do sul de Angola que se chamou, depois da independência, Namibe e em junho deste ano voltou a ser Moçâmedes), significava crime grave, já que se tratava de uma possessão ultramarina de 2.ª classe, ou seja, fora dos centros urbanos, “no sertão angolano, onde, em geral, os condenados ficavam praticamente imersos no universo africano”, como explica Selma Pantoja.

Maria da Purificação, se fizesse como os seus primos, usaria os apelidos “de Vasa César de Faro e Vasconcelos", como o pai. Na sua certidão de nascimento, estão registados os avós paternos: José da Vasa César e Vasconcelos, e dona Maria Eulália da Rocha Castro e Meneses. São, contudo, nomes de uma família de fidalgos da casa real que não surgem no extenso trabalho do genealogista Manuel Arnao Metello, “Os Vasas em Portugal - Família do Oeste de origem talvez sueca”, publicado na revista “Raizes & Memórias”.