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Pílula, 
a revolução continua

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O comprimido que permitiu às mulheres controlar a reprodução tem enfrentado críticas nos últimos anos. Evoluiu, multiplicou-se e continua a ser um dos mais eficazes remédios para não engravidar

Carolina Reis

Carolina Reis

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Jornalista

Carlos Esteves

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Andreia Gonçalves, 29 anos, amamenta o terceiro filho que nasceu há pouco tempo. A família está agora completa e, por isso, pondera um método de contraceção que não a obrigue a ter de se lembrar todos os dias de tomar um comprimido. Em cima da mesa está a laqueação das trompas, algo muito definitivo, mesmo que neste momento não lhe passe pela cabeça ter mais filhos, e um implante hormonal de longa duração. Até tomar a decisão, vai continuar a tomar a pílula. E porque acabou de ser mãe e está a amamentar, uma sem estrogénio e com progestagénio, mais fraca e que não a fará menstruar. “Foi a que me recomendaram quando saí da maternidade. Toda a minha vida tomei a pílula.” Inicialmente, por alta recreação, na sequência de uma conversa com as amigas, e só depois de ter engravidado, acidentalmente, do primeiro filho, se sentou com o médico no centro de saúde para perceber qual era a melhor pílula para ela. E continuou a fazê-lo porque a melhor amiga, que quando começou a ser menstruada foi com a mãe ao ginecologista para lhe receitar a pílula, insistiu. “Para mim tanto me dava qual pílula tomava, desde que funcionasse...”

Apesar de parecerem iguais — e terem, de facto, a mesma eficácia — nem todas as pílulas são adequadas para todas as mulheres. “A pílula é um medicamento efetivo para mulheres saudáveis. Não deve haver um medicamento tão estudado no mundo. Mas é um medicamento e, como tal, tem de ser receitado pelo médico. A mesma pílula não funciona de igual modo em todas as pessoas”, explica Teresa Bombas, ginecologista e presidente da direção da Sociedade Portuguesa de Contraceção.

Testada nos anos 50, em comunidades de mulheres no Haiti e em Porto Rico, a primeira versão continha doses de estrogénio e progesterona (hormonas sintéticas idênticas às que são produzidas pelos ovários) muito maiores do que as que hoje contêm. As queixas das mulheres e a investigação científica levaram a que hoje exista uma pílula composta só por progestagénios, adequada para mulheres que não podem ou não devem tomar estrogénios, como é o caso de Sandra que está a amamentar. E, hoje, as pílulas existem em diferentes dosagens: a monofásica, a bifásica e a trifásica (comprimidos com três dosagens que visam imitar o ciclo menstrual). O objetivo é adequarem-se a cada mulher, o que obriga a ter em conta o estado de saúde, a idade e ser ou não fumadora. Aliás, está mesmo contraindicada para as fumadoras com mais de 35 anos. “Existem riscos, sim, como a tromboflebite [obstrução das veias devido a coágulos], mas se compararmos com a gravidez, por exemplo, esse risco é 20 vezes maior”, defende Teresa Bombas.

A pensar nas contraindicações, como doença hepática, arterial-cerebral ou coronária, médicos e utentes começam a procurar novas formas de prevenir uma gravidez indesejada. Mas as soluções alternativas, como o dispositivo intrauterino (DIU) ou o implante, também incluem hormonas sintéticas. “Não é um medicamento perfeito. Não o receito por defeito a todas as mulheres, gosto de olhar para a utente e tentar arranjar alternativas, mas não difere muito de outros métodos não definitivos”, diz Cristina Fonseca, ginecologista.

Quando surgiu, a pílula apresentou-se como uma revolução na vida das mulheres, que através de um simples comprimido iam passar, de forma muito segura, a escolher quando iriam ser mães, permitindo-lhes conciliar a esfera profissional com a pessoal. O sexo deixou de ser visto como um fator de reprodução e os casais passaram a poder fazê-lo pelo prazer e sem correrem riscos de gravidezes indesejadas.

Apesar de ser de fácil acesso, de não ser irreversível e de não provocar dor, esta revolução centrou-se no mundo ocidental. Globalmente, a esterilização feminina é o método de contraceção mais usado no mundo. Dados das Nações Unidas de 2015 mostram que a prevalência da pílula é na Europa e na América do Norte e que é tomada por, no mínimo, 20% das mulheres casadas ou numa relação em 31 países. Mesmo com as diferenças culturais, que ditam a escolha do método para evitar a gravidez, nenhum outro método está presente em tantos países.

As mulheres portuguesas conhecem-na bem. O relatório das Práticas Contracetivas, realizado o ano passado pela Sociedade Portuguesa de Contraceção e pela Sociedade Portuguesa da Ginecologia, revela que não existe quem não saiba o que é a pílula. É um método contracetivo conhecido por 96,6% dos inquiridos, em segundo lugar surge o preservativo masculino com 82%. Nenhum dos outros métodos (implante hormonal; dispositivo intrauterino; laqueação de trompas, também conhecido como esterilização feminina; e vasectomia ou esterilização masculina) foi referido por mais de metade dos entrevistados.

Não se trata de uma questão de saber o que é e para que serve, mas de saber usar. E é desta popularidade que nasceram muitos dos seus mitos, como o de que engorda ou que provoca varizes. “É segura para todas as mulheres desde que tomada com acompanhamento médico. Os médicos adaptam a pílula consoante o tipo de pessoa. Se tiver tendência para derrames pode haver um agravamento, mas aí jogamos com a dose”, sublinha Teresa Bombas.

De tempos a tempos surgem notícias de efeitos secundários. Casos de mortes com coágulos no sangue, embolias pulmonares ou depressões foram alguns dos mais recentes. O ano passado, o Infarmed notificou no seu sistema de vigilância 35 casos de problemas de saúde, dois deles acabaram em morte, relacionados com uma marca de pílula. No Canadá houve também 23 casos suspeitos de morte e a agência americana do medicamento considerou que aquela mesma marca aumenta o risco de coágulos. “A relação causal entre o medicamento suspeito e a reação adversa ao medicamento foi classificada pelo perito clínico como possível, por se tratar de uma reação adversa descrita no resumo das características do medicamento e por ter uma relação temporal bem estabelecida”, escreveu um perito do Infarmed num documento sobre a investigação da morte de uma jovem. A autoridade do medicamento, no entanto, nunca relacionou o caso com o comprimido.

O sucesso da contraceção em Portugal — o número de mães adolescentes está a descer — também se deve a ela e aos 99% de eficácia que apresenta. “É algo que está cada vez mais enraizado no quotidiano dos adolescentes, deles e delas. Cada vez mais fazem perguntas sobre outros métodos”, diz Eugénia Lemos, professora de Biologia e membro da Associação para o Planeamento da Família (APF).

E é importante que comecem a discutir o assunto cedo, para que tomem desde o início a melhor opção. Do ponto de vista prático, não há motivo para que as jovens saudáveis não possam escolher a pílula. E mesmo as que são menos saudáveis têm outras alternativas a nível de contraceção oral, como a pílula sem estrogénio ou com progesterona natural. Depende sempre do médico, a quem caberá a palavra final no que diz respeito à saúde da mulher. E esta relação com o clínico também tem vindo a mudar, está mais próxima. O mesmo relatório sobre as práticas contracetivas revela que a pílula foi sobretudo aconselhada pelo médico de família (67%). A injeção, o anel vaginal, o implante e a laqueação das trompas costumam ser prescritas pelo ginecologista (88%, 82%, 67% e 60% respetivamente). “Hoje, o médico senta-se, faz a história familiar das pessoas e vê o que mais se adequa às mulheres, não só a nível da saúde, mas também de qualidade e estilo de vida. Deixámos de ser só prescritores e fomos à procura de outros benefícios que garantam a qualidade de vida. Esse também foi um trabalho que fomos fazendo e que vai continuar”, continua Teresa Bombas.

Apesar da simplicidade, não deixa de ser um medicamento que obriga a um compromisso diário. E à mínima falha coloca os 99% de eficácia em risco. “Muitas mulheres que recorrem à IVG fazem contraceção. Não se trata de incompetência”, frisa a ginecologista. A vida complica-se e as mulheres esquecem. Ou deixam de ter tempo para ir ao médico com frequência e continuam a tomar a mesma pílula durante 20 anos, mesmo depois de mudarem alguns hábitos de vida e a fisionomia.

O tabu masculino

Outros contracetivos começam a ganhar popularidade e a ser equacionados pelas famílias. E se até aqui a palavra final estava, maioritariamente, na mão das mulheres, o paradigma começa a mudar. A tão aguardada pílula masculina poderá tornar-se uma realidade daqui a dez anos, tirando do corpo das mulheres os efeitos secundários de uma contraceção diária e não permanente.

“Ainda estão a ser estudados os riscos e os benefícios. O que já existe ainda não é altamente seguro para estar à disposição”, frisa Teresa Bombas. Será o controlo do que acontece no corpo da mulher através de medicamentos tomados pelo homem. Esta alteração significativa não parece assustar nem a comunidade científica nem as gerações mais novas. “A pílula masculina é uma questão que se deve pôr. A escolha é individual. Fazemo-la pelo que nos dá mais liberdade, que nos torna mais autónomos”, diz Eugénia Lemos.

Os alunos ainda não lhe fizeram perguntas sobre uma pílula masculina. Nem sobre os seus efeitos secundários. Mas se as dúvidas surgirem, ela acredita que eles não terão tabus e vão perguntar. “Quando há espaço específico para falar, eles falam.”