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Noiva do Daesh recrutada em Espanha

Em dezembro de 2015, um líder jiadista foi capturado em Barcelona

JOSEP LAGO/ AFP

‘Secreta’ espanhola alertou SIS sobre conversão de jovem madeirense por célula jiadista de Barcelona

Foi no final de 2015 que o CNI, o serviço de informações espanhol, identificou uma nova recruta do autodenominado Estado Islâmico. Joana, nome fictício, tinha na altura 17 anos. Através da rede social Askbook, uma mulher de Barcelona que estava a ser vigiada pela ‘secreta’ local convenceu-a a converter-se ao islão e apresentou-lhe um jiadista, de quem acabou por se tornar noiva. Apesar de usar um nickname no Askbook, os serviços rapidamente localizaram a origem da jovem. Vivia na ilha da Madeira.

A identificação desta nova noiva do Daesh levou o CNI a contactar o SIS (Serviço de Informações de Segurança), partilhando com os colegas portugueses todos os pormenores recolhidos sobre a madeirense. Desde essa altura que o departamento de terrorismo do SIS tem estado a monitorizar os seus movimentos. De acordo com o que o Expresso soube, os serviços portugueses passaram a informação ao Ministério Público e o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) abriu um inquérito-crime ao caso, tendo como alvo a jovem da Madeira por suspeitas de adesão ao Daesh.

O noivo de Joana é um homem com cerca de 20 anos oriundo do Sri Lanka e que está neste momento a combater pelo Estado Islâmico na Síria. “Trata-se de um jiadista que está num nível médio da hierarquia daquela organização terrorista”, explica uma fonte que tem acompanhado o caso de perto.

A mulher espanhola que aliciou a jovem madeirense a aderir ao radicalismo islâmico tinha planos para ela. Esses planos foram partilhados com o futuro marido. Conversaram sobre isso várias vezes na relação que foram mantendo online. Assim que completasse 18 anos — o que aconteceu em fevereiro —, deveria obter um passaporte e viajar para Barcelona, onde devia passar algum tempo antes de partir para o seu destino final, a Síria, de forma a poder casar-se com o noivo e juntar-se assim ao pequeno exército de esposas que os mujahidins têm vindo a recrutar na Europa.

Além da espanhola, Joana ganhou novas amigas radicais. Uma delas, G., referida na última edição do Expresso, é uma mulher que vive na Turquia e que facilmente poderia ajudá-la a completar a parte mais difícil da viagem — a travessia da fronteira com a Síria.

Este é o primeiro caso conhecido de tentativa de recrutamento de mulheres para o Daesh em território português. Houve pelo menos quatro mulheres de origem portuguesa que foram recrutadas para a Síria mas todas elas viviam noutros países da Europa como emigrantes.

Como estratégia para evitar que Joana viajasse para a Síria, o SIS colocou uma operacional no terreno com o objetivo de a convencer a desistir da ideia. O plano assentava no facto de a suspeita ter um contexto familiar desestruturado e de morar num meio pequeno, sem perspetivas de futuro, sendo que essas circunstâncias poderiam abrir uma hipótese de ser desrradicalizada se lhe fossem oferecidas condições de ter uma alternativa viável para a sua vida. A operacional do SIS abordou-a e ganhou a sua confiança. A par disso, no decurso do inquérito-crime aberto pelo DCIAP, Joana foi interrogada por inspetores da Unidade Nacional de Combate ao Terrorismo da Polícia Judiciária, que quiseram reconstruir os contactos feitos por ela e também tentaram demovê-la das suas intenções.

Joana não fala do caso

Em setembro, a jovem madeirense mudou-se para Lisboa, onde começou a estudar numa instituição de ensino superior. Aparentemente desistiu de ir para a Síria, mas não deixou de ser muçulmana nem cortou a ligação com as amigas radicais. Ainda esta semana, partilhou com elas no Askbook o estado de espírito em que se encontra: “A minha tristeza tem a ver com o meu complexo de inferioridade e a minha baixa autoestima. Sinto-me assim há muitos anos e não acho que seja fácil mudar isso.”

A doutrinação de Joana não parou. Para ajudá-la a contornar a falta de autoestima, uma das amigas ligadas ao Daesh tem estado a recomendar-lhe alguns livros. Um autor sugerido nos últimos dias é Ibn Taymyyah, teólogo islâmico do início do século XVI que inspirou o salafismo, a corrente ultraconservadora do islão.

Um dos conteúdos mais relevantes que G., a amiga da Turquia, tem passado à jovem madeirense é a coleção de vídeos disponível no YouTube com sessões gravadas por Anwar al-Awlaki, imã e teólogo rotulado pela imprensa saudita como “o Bin Laden da internet”, devido ao papel como doutrinador de jiadistas. Morto em 2011 por um ataque de drone planeado pela CIA, Al-Awlaki era um comandante regional da Al-Qaeda e terá estado envolvido na motivação de três dos autores dos atentados do 11 de setembro nos EUA. G. disse a Joana que o seu canal favorito no YouTube é a coleção de vídeos de Al-Awlaki.

Contactada pessoalmente pelo Expresso, Joana recusou-se a falar.