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Não, a Apple já não vai construir um automóvel

UNIÃO FELIZ. Os rumores chegaram a dar como certa a compra da McLaren por parte da Apple. Era juntar dois mundos de inovação que têm tudo a ver. Mas eram, mesmo, só rumores. A McLaren desmentiu as negociações.

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Durante alguns anos, o mundo esperou pelo carro que vinha fazer pelos automóveis o que o iPhone fez pelos smartphones. Mas esse é um futuro que, afinal, não vai concretizar-se. A Apple foca-se agora no desenvolvimento de uma plataforma de software, deixando de lado o fabrico de um veículo. Daqui a um ano, tudo pode voltar a mudar

Durante anos, milhares de devotos ao “culto de Maçã” esperaram que o engenho dos futuristas de Cupertino produzisse um televisor. A possibilidade de existir uma “televisão da Apple” alimentava as expectativas da imprensa especializada que previa uma revolução nos televisores semelhante aquela que a empresa norte-americana tinha produzido nos telefones inteligentes com o advento do iPhone.

Esta miragem só acabou há uns três anos quando os analistas e os fãs perceberam, finalmente, que o único dispositivo “televisivo” da Apple já existia desde 2006, altura em Steve Jobs revelou a Apple TV – à qual chamou iTV, nome que não pode usar porque já estava registado pelo operador de televisão britânico, Independent Television (ITV).

Pode ver AQUI (avance até ao minuto 49) o momento em que malogrado fundador da Apple revela a pequena caixa que permitia (e permite) ver no televisor conteúdos multimédia. Esta foi a ligação mais próxima que a empresa estabeleceu com o dispositivo que é rei e senhor de milhões de lares espalhados pelo planeta.

Rumor morto, rumor deposto. Passámos do televisor para o automóvel. Já sem Steve Jobs (que, alegadamente, terá mostrado interesse em desenvolver um carro elétrico em 2008, altura em que a Tesla revelou o seu primeiro automóvel elétrico, o Roadster Sprot 2.5) ao leme, foi por iniciativa de Tim Cook (o atual CEO da empresa) que a Apple começou a contratar profissionais à Ford e à Tesla. Pessoas com valências na área do fabrico de veículos. Estas movimentações que pode ficar a conhecer ao pormenor AQUI eram gotas de gasolina que atiçavam a fogueira que ardia em lume brando desde 2013, a altura em que se começou a falar que Apple ia construir um carro elétrico de marca própria. Não foi preciso mostrar um único parafuso: milhões começaram a sonhar com o “iCar”. Isto numa altura em que a Google já andava a experimentar com os fabricantes de automóveis a colocação de sistemas inteligentes que ajudassem à condução autónoma e um momento onde o elétrico Toyota Prius era um sucesso de vendas nos EUA.

O Project Titan

A Apple nunca comentou oficialmente que estaria a desenvolver um automóvel, no entanto, em 2014, Tim Cook aprovou a criação da uma equipa que ficou responsável pelo desenvolvimento do carro elétrico e das respetivas plataformas digitais necessárias ao ecossistema da mobilidade elétrica. O projeto mais ambicioso alguma vez tentado pela Apple foi batizado “Titan”. Sim, seria necessário um esforço titânico para colocar na estrada um carro elétrico que estivesse à altura das expectativas de todos. Dos clientes e dos mercados.
A partir daí foi todo um carrossel de emoções sempre que se antecipava um grande evento da Apple. E não só. Rumores recentes indicavam que a empresa do iPhone poderia estar perto de comprar a luxuosa e futurista MCLAREN. Seria desta que íamos ver Tim Cook entrar numa conferência de imprensa ao volante de um automóvel elétrico? Nunca aconteceu e, agora, revela a Bloomberg AQUI, nunca vai acontecer

À FRENTE. A Tesla é a referência nos carros elétricos autónomos. A empresa liderou, no terceiro trimestre, as vendas de carros de segmento de luxo nos Estados Unidos. Algo que já tinha conseguido no início do ano

À FRENTE. A Tesla é a referência nos carros elétricos autónomos. A empresa liderou, no terceiro trimestre, as vendas de carros de segmento de luxo nos Estados Unidos. Algo que já tinha conseguido no início do ano

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A Apple terá moderado a sua abordagem ao futuro da mobilidade elétrica. Esquece, pelo menos por agora, o fabrico. Em vez disso, posiciona-se para ser um fornecedor de tecnologia a carros elétricos e autónomos. A existente plataforma CarPlay (que permite utilizar o iPhone integrado com os ecrãs que estão dentro do automóvel) já está disponível em centenas de veículos que rodam em estradas de todo o mundo (pode consultar AQUI a lista dos automóveis que suportam o sistema da Apple). Mas a Apple quer ir mais longe.

O futuro imediato do projeto “Titan” passa pela aposta no software e continua a ser ambicioso: desenvolver uma plataforma para carros autónomos que, se não encontrar espaço nos fabricantes de automóveis existentes, poderá, sempre, ser aproveitada para um futuro carro de marca própria. Afinal, em tempos, uma Google irritada pelo tratamento de silêncio a que foi sujeita pelos principais fabricantes mundiais de automóveis, ameaçou que seria sempre muito fácil mandar fazer na China ou na Índia um carro de marca própria. Hoje, os carros autónomos de teste da Google já fizeram milhões de quilómetros com muito poucos acidentes – pode ver os relatórios mensais dos carros autónomos da Google AQUI.

Quanto à Apple, há notícia que a equipa do projeto “Titan” já conta com centenas de baixas e que terá até ao final do próximo ano para provar que é capaz de desenvolver a tal plataforma para carros autónomos. Só depois, e ainda segundo a Bloomberg, será decidido qual o rumo a seguir.

A empresa percebeu, talvez a tempo, que o segmento automóvel tem ainda várias particularidades que tornam o modelo de negócio muito dependente de tempos elevados de desenvolvimento e de produção… e margens bem mais baixas do que aquelas que a Apple está habituada a obter em dispositivos e software.

Mesmo tendo em conta os muitos milhões de milhões que a Apple tem disponíveis em caixa para gastar, Tim Cook terá percebido, também, que os fabricantes de automóveis já terão feito várias curvas neste circuito sinuoso e a Apple ainda nem saiu das boxes. O que até poderia ser uma vantagem (por permitir evitar alguns erros), mas que se revela contraproducente porque os rivais estão mesmo muito avançados. Hoje, conduzir em Portugal um Tesla Model S ou um Mercedes E220d é estar dentro de veículos que já têm tantas ajudas à condução que são praticamente autónomos. Sou cauteloso a usar o termo “autónomos” só pelos constrangimentos legais ainda existentes. A tecnologia, como sempre, andou mais depressa que a Lei. A verdade é que estes automóveis já nos levam do ponto de destino sem termos quase de interagir com a condução.

Neste momento, além do dinheiro que tem disponível, a Apple tem de valer-se daquilo que sempre a distinguiu: a capacidade de pensar diferente. Só uma abordagem tecnologicamente mais capaz poderá fazer a diferença para aquilo que já existe nas estradas. A empresa tem um ano e o cronómetro desta prova automobilística não vai parar por razão nenhuma.