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Açores são os melhores e os piores a reciclar

PATRICIA DE MELO MOREIRA/ AFP/ Getty Images

Laje das Flores é o município que mais recicla no país. Calheta é o que tem piores resultados. Lisboa e Porto estão no fundo de uma tabela que valeu o Prémio Pordata a duas investigadoras da Universidade Nova

Ana Pires e Graça Martinho, da Universidade Nova de Lisboa, criaram um indicador — vencedor do prémio Pordata Inovação na categoria de originais — que permite perceber quais os municípios que reciclam de uma forma mais adequada ao ambiente. Portugal ainda apresenta valores negativos em termos de reciclagem devido aos aterros e â incineração. No entanto, há no país municípios que enviam a maioria dos resíduos para reciclagem. O exemplo não vem das grandes cidades, mas sim de pequenos municípios que têm investido muito em tecnologia.

O caso dos Açores é particular. Em Laje das Flores todos os resíduos são enviados para reciclagem. Já em Velas e na Calheta enviam tudo para aterro. Estes dois municípios ainda “estão a dar passos para mudar a tecnologia” que permite a reciclagem de produtos, explica Ana Pires. Lisboa e Porto apresentam dados negativos: apostam mais em aterros e incineração, do que em reutilização e reciclagem. Até 2020, Portugal tem de reutilizar e reciclar pelo menos 50% dos resíduos que se produzem, o que significa um grande aumento face aos 29% de 2014 (últimos dados disponíveis). A investigadora explica que a prioridade deverá ser sempre a redução do número de resíduos gerados, depois compete a cada câmara optar primeiro, e sempre que possível, pela reutilização, reciclagem e só em último caso pelo aterro e incineração. Até à data, todos estes dados eram analisados de forma independente.

Ana Pires salienta a novidade e a potencialidade do estudo, não só por poder ser aplicado a nível nacional, como também a outros países. “Muito facilmente este indicador será exportado para outros países da União Europeia, como uma meta.”

Portalegre tem investido muito na reciclagem, e dos dez melhores municípios seis pertencem a este distrito alentejano. Nuno Santana, vereador do Ambiente, diz que é o resultado das parcerias com a Valmor (empresa privada que trata dos resíduos). Da parte da câmara, a aposta tem sido em ações de sensibilização dos munícipes, de forma a diminuir o desperdício e a aumentar a separação do lixo.

Lisboa condicionada

A hierarquia de resíduos, definida pela União Europeia, advoga a mesma teoria. Primeiro, a sensibilização e, depois, a reutilização. Isto é, voltar a inserir o produto no dia a dia com a mesma função. Por exemplo, lavar um copo de plástico e voltar a usá-lo. A reciclagem é uma das opções mais viáveis para dar aos produtos uma nova vida como um novo produto: garrafas de plástico são transformadas em material urbano. A incineração ou o aterro, além de serem mais poluentes, fazem com que os produtos se percam e não sejam devolvidos à economia. A reciclagem permite que os resíduos sejam reinseridos na economia, fortalecendo a economia circular.

A investigadora da Nova reconhece que “Portugal teve uma grande evolução”. Se em 2002 quase tudo ia para aterro, “depois de uma estratégia estatal e de uma grande evolução, quer em tecnologias quer em investimento, o país deu um salto qualitativo”.

Tanto Lisboa como o Porto ainda apresentam dados negativos. “Embora Lisboa seja o município que maior quantidade de resíduos envia para reciclagem, só aparece em 163º lugar do ranking, devido à quantidade de resíduos urbanos que são enviados para incineração.” O Porto, por outro lado, “está no 156º lugar, com um resultado de -62,9%. Devido à grande quantidade de resíduos urbanos que são enviados para incineração (valorização energética). As quantidades que são enviadas para reciclagem e valorização orgânica (transformação de resíduos em composto orgânico) são apenas 18,5% do total de resíduos urbanos gerados”, concretiza Ana Pires.

O vereador Duarte Cordeiro, da Câmara Municipal de Lisboa, fala em condicionamentos. Condicionamento por estar integrado na ValorSul, que faz com 90% do lixo vá para uma central termoelétrica para produção de energia, e nos parâmetros deste índice. É que, embora reconheça que a valorização energética (incineração dos resíduos para os transformar em energia) seja mais negativa do que a reciclagem, não pode ter, como é o caso deste índice, o mesmo valor que o lixo enviado para aterro. Duarte Cordeiro salienta o trabalho que a Câmara tem feito na reciclagem e nas melhorias do sistema de recolha. O vereador do Ambiente da Câmara do Porto não respondeu às questões do Expresso.

A investigadora salienta o exemplo de Coimbra, pois é “o município que maior quantidade de resíduos envia para reciclagem orgânica (transformação de resíduos em composto)”, mas que ainda assim só aparece em 52º lugar, dado que uma grande quantidade de resíduos em 2013 ia para aterro. No entanto, elogia a gestão de resíduos “muito importante” que é feita no município, havendo duas unidades de tratamento em funcionamento. Se em 2013, em Faro “o destino principal dos resíduos urbanos foi o aterro sanitário, prevê-se que o indicador melhore para 2016, com o envio dos resíduos urbanos para a central de valorização orgânica (transformação de resíduos em composto orgânico) de São Brás de Alportel, que em 2013 não se encontrava ainda em funcionamento”.

Ana Pires explica que os resultados só não são melhores porque as tecnologias para reciclagem de resíduos ainda são muito caras. Acrescenta ainda que criar estratégias de reutilização e de reciclagem de materiais é um passo importante para a independência nacional. “A Europa está com escassez de recursos de matéria-prima, mas pode ir aos resíduos busca-los. É preciso inseri-los de novo na economia.”

O plano de ação que define a hierarquia de resíduos foi estipulado pela União Europeia por considerar que a reutilização e a reciclagem promovem a economia circular. Isto é, a União Europeia quer que os Estados-membros aumentem o tempo de vida útil dos materiais, reinserindo-os na economia, de forma a diminuir a geração de resíduos e os impactes ambientais. Ana Pires escuda-se nas metas europeias porque reconhece que nos últimos anos a gestão de resíduos tem sido “o patinho feio das questões ambientais”.