Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Voar... e cair no mar azul da Arrábida

joão paulo galacho

Primeiro impressiona, chega mesmo a meter medo, mas quando finalmente damos o passo no vazio, não nos arrependemos

João Paulo Galacho (texto e imagens)

Nos anos 70, entre os putos do meu bairro, tínhamos a época do pião e do berlinde mas, para mim e para o Pedro Mendes, havia ainda a época dos mergulhos: em setembro, por altura das marés vivas, metíamo-nos no comboio e rumávamos a Cascais, onde escolhíamos as melhores rochas para saltar para o mar.

Recentemente descobri que esse divertimento já tem um nome: coasteering. E resolvi matar saudades da adrenalina vivida no mar de Cascais.

Inscrevi-me no site de uma empresa que organiza a atividade, e com o peso e a altura previamente detalhados na ficha de inscrição, não fosse o fato de neopreno que me estava destinado não me servir, rumei à serra da Arrábida. Além do fato, que me servia na perfeição, deram-me também um capacete e um colete salva-vidas — de casa levei uns ténis velhos, calções de banho, toalha e uma muda de roupa.

Uma palestra, onde fizeram um interessante enquadramento geológico daquela zona e explicaram as regras de segurança, marcou o início deste regresso ao passado. Logo depois, ensanduichado, que é como me sinto dentro daqueles fatos — que diferença para o simples calção de banho de antigamente —, segui os monitores e o resto do grupo, vereda abaixo, até às rochas de onde íamos mergulhar.

SALTAR, BOIAR E REMAR

Fizemos uma linha de costa de cerca de 500 metros, onde existe uma dúzia de sítios nas rochas de onde podemos saltar. Saímos do mar para subir aos sítios de onde mergulhamos, mas a progressão é feita na maior parte do tempo por água... a boiar! — o colete mantém-nos à tona e, mais do que nadar, o que fazemos é remar com os braços.

Graças ao colete salva-vidas, quando estamos dentro de água chegamos a ter a sensação de estarmos sentados num cadeirão

Graças ao colete salva-vidas, quando estamos dentro de água chegamos a ter a sensação de estarmos sentados num cadeirão

joão paulo galacho

Ao longo do percurso existem duas saídas de emergência, e o tempo da atividade ronda as três horas. A altura dos saltos varia entre os dois e os dez metros, podem-se repetir e, obviamente, são facultativos. Não se pode mergulhar de cabeça, nem de locais não referenciados pelos monitores — está sempre um na rocha de onde saltamos e outro dentro de água, junto ao sítio onde vamos cair. Assinamos um termo de responsabilidade e estamos cobertos por um seguro. O início da atividade está sujeito ao horário das marés, para aproveitar as correntes mais favoráveis à progressão.

“CURTIR” A SÉRIO, MAS EM SEGURANÇA

Mas mesmo com a sofisticação dos dias de hoje, com este planeamento ao pormenor, com esta parafernália de equipamentos, a adrenalina voltou logo no primeiro salto.

E neste sítio — a umas centenas de metros do Portinho da Arrábida — há ainda um encanto suplementar: estamos em pleno Parque Natural da Arrábida. Quando mergulhamos, o mar azul à nossa frente, a foz do Sado e a península de Tróia preenchem o horizonte; quando estamos na água, a ver os outros saltar, vemo-los enquadrados pelo intenso verde da Mata do Solitário.
Mas bom mesmo é o momento de saltar no vazio, sabendo de antemão que o mar nos vai amparar a queda.

Nas dezenas de saltos que fizemos ninguém se magoou. A mergulhar dos dois metros, dos dez, com maior ou menor hesitação, todos nos divertimos como eu me divertia com o Pedro Mendes nos anos setenta, quando já havia atividades radicais: lembram-se de uma revolução em abril?

No maciço calcário da serra da Arrábida existem muitas grutas à beira-mar
1 / 3

No maciço calcário da serra da Arrábida existem muitas grutas à beira-mar

João Paulo Galacho

2 / 3

João Paulo Galacho

A Lapa de Santa Margarida, alberga uma capela do século XVIII 
3 / 3

A Lapa de Santa Margarida, alberga uma capela do século XVIII 

João Paulo Galacho

O QUE É O COASTEERING? QUEM PODE FAZER E ONDE

É uma modalidade recente, que se pratica oficialmente — com empresas certificadas a organizá-la — desde os anos 90. Começou no Reino Unido e chegou a Portugal há cerca de seis anos.

A maneira mais simples de a descrever é dizer que são saltos para o mar, a partir de escarpas rochosas. As pedras submersas, a subida para o sítio de onde se mergulha e as correntes são alguns dos perigos reais desta atividade. Daí a importância de se praticar coasteering com monitores que conheçam bem os percursos.

A progressão é feita essencialmente dentro de água, a nadar ou a boiar, mas é importante ter alguma destreza para subir às rochas. Há saltos de várias altitudes e cada praticante decide os que quer fazer.

No grupo onde fiz esta experiência havia um rapaz de 12 anos — a idade mínima para participar — e o Sérgio, um dos monitores, disse-me que já tinha tido uma participante — corajosa, digo eu — que nem sabia nadar.

É uma atividade que nos permite conhecer linhas de costa dificilmente acessíveis de outra maneira. Na Arrábida, as grutas que explorámos são uma mais-valia.

Em Portugal existem empresas que organizam esta atividade no Algarve, nos Açores e na Arrábida — antes de se inscrever é aconselhável aferir as qualificações dos monitores que o vão acompanhar. Alguns percursos contemplam secções de rappel e slide.

A empresa que organizou este percurso, a Wind — Centro de Atividades de Montanha, possui monitores certificados e o equipamento que nos forneceu estava em ótimas condições. Cobram €30 por pessoa, mas grupos organizados conseguem melhores preços.