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quem vem tocar

foto pedro gomes de almeida

A música anda solta pela cidade e a qualquer momento pode ir parar à sala do vizinho do lado ou até à nossa casa

Como criar um momento de partilha e intimidade entre músicos e gente que gosta de ouvir música, sem o burburinho de um bar ou a solenidade de uma sala de concertos? Só mesmo dentro de casa. Em Lisboa, isto acontece no último domingo de cada mês pela mão dos Lisbon Living Room Sessions.

Joanna Hecker, americana, historiadora de arte, e Ricardo Lopes, publicitário, ambos com 37 anos, são os mentores deste projeto que desde janeiro de 2015 organiza concertos e põe música a tocar em casas particulares. É um projeto simples e generoso que vive do entusiasmo dos músicos e do prazer de receber gente em casa e já criou uma vasta rede de adeptos incondicionais. Qualquer pessoa pode participar.

A história dos Lisbon Living Room Sessions começa na véspera de Natal de 2014. Joanna e Ricardo estavam sentados num bar do Cais do Sodré para assistir a um concerto de flamengo dos Diego El Gavi Band. Os músicos eram amigos de ambos, tocavam maravilhosamente, mas de repente o momento que tinha tudo para ser especial tornara-se insuportável. O bar estava apinhado de grupos em festa e foi invadido pelo ruído de copos a tilintar em brindes e de gargalhadas. Toda a gente parecia distraída, ninguém ouvia nada. Saíram frustrados.

Joanna lembrou-se de uma noite mágica, no tempo em que vivera em Brooklyn, Nova Iorque, onde fora convidada para uma festa de aniversário surpresa, cujo presente tinha sido um concerto de uma banda de jazz em casa da festejada. “Na realidade, sempre se fizeram encontros de poesia e sessões de música em casas de pessoas, é uma ideia muito antiga que não tem nada de original”, concluiu Joanna. Inspirados por essa ideia de tertúlias musicais resolveram pôr o movimento em marcha. O acesso à comunidade de músicos de jazz não era difícil. Ricardo tinha muitos contactos nesse mundo e alguma experiência em organização. Ele mesmo fizera parte de um coletivo musical, o CoolTrain Crew, que organizava concertos no bar a Bicaense e no Lux.

Concerto de JP Simões em casa de Joanna e Ricardo

Concerto de JP Simões em casa de Joanna e Ricardo

foto José fernandes

O primeiro concerto aconteceu na casa deles, um T2 na Lapa, com sala ampla e mezanino, precisamente com a banda flamenca que não tinham conseguido ouvir no bar do Cais do Sodré. Tocaram para um grupo de 30 pessoas convocadas via Facebook, uma pequena rede entre amigos dos amigos, ainda à experiência, só para ver como corria. Foi um entusiasmo. Funcionou. Fizeram um blogue, criaram uma página no Facebook e um endereço de mail, para quem quisesse subscrever e participar.

Meses depois, a rede começava a alargar. Em cada concerto apareciam pessoas novas, algumas delas queriam repetir a experiência na sua casa. Outras portas foram-se abrindo. Joanna e Ricardo começaram a pensar como poderiam acrescentar valor àquele momento de intimidade e organizavam uma mesa de snakes para que no final músicos e público pudessem conversar. Foi assim que apareceu o patrocínio da Esporão, que oferece o vinho que se serve a seguir ao concerto. O modelo foi-se afinando e as Lisbon Living Room Sessions tornaram-se um momento de culto para quem os segue, no último domingo de cada mês, entre as seis da tarde e as oito da noite.

Desde então já fizeram 21 sessões, nunca falharam nenhuma e a rede começou a rodar entre o movimento das pessoas que aparecem e as que oferecem casa. “Neste momento já temos uma mailing list, não partilhada, de 600 pessoas que subscreveram para ter acesso ao programa e receber o nome e a morada do concerto de cada mês. Quem quiser assistir tem de enviar um mail para saber se tem lugar. “A lotação é determinada pelo dono da casa. Quem recebe tem de se sentir confortável e gostar de ser anfitrião, esta condição é essencial. Não pode ser uma pessoa que não se sinta à-vontade por receber estranhos, tem de ter o espírito de host, que são uma parte essencial do projeto e que tem direito à sua lista de convidados.”

Todas as casas são previamente visitadas pelo casal. Nessa visita e na conversa com o dono, conseguem perceber se a casa serve para receber os músicos e o público e qual o concerto que pode funcionar melhor. O anfitrião só tem de receber. Depois, eles tratam de tudo. Do lugar para instalar os músicos, da organização da sala para receber o público, da mesa das bebidas e dos snakes, da limpeza depois de o concerto acabar. Nunca correu mal.

Os concertos funcionam numa base de donativos que serve para pagar os músicos e no final há uma caixa que circula de mão em mão. “Sugerimos 10 euros, mas as pessoas são livres de dar mais ou até não darem se não tiverem, mas podem contribuir com uma coisa para a mesa, por exemplo”, diz Ricardo, acrescentando: “Não é muito dinheiro que os músicos recebem. A maioria adere pela experiência de poder tocar tão perto das pessoas. Também para eles isto é uma oportunidade rara, que torna o momento tão especial, tão único e tão vibrante.”

O guitarrista nigeriano Keziah Jones, num dos momentos altos das Lisbon Sessions

O guitarrista nigeriano Keziah Jones, num dos momentos altos das Lisbon Sessions

foto pedro gomes de almeida

Também a bolsa de músicos, que começou por se restringir ao núcleo do jazz, foi alargando a vários géneros e entre os muitos músicos que participaram, circularam em várias casas de Lisboa os Habana Way Trio, Djumbai Djazz, Carlos Barreto e Júlio Resende, uma roda de Chorinho ou o piano de João Esteves da Silva acompanhado pelo No Projecto Trio, e aconteceram momentos improváveis, como um concerto das Gospel Sisters, num andar no topo do Conde Redondo com as paredes em betão.

Para Ricardo, o momento alto das sessões foi há dois meses, numa casa da Avenida D. Carlos I, que abriu a porta a quase 150 pessoas para receber o guitarrista Keziah Jones, uma estrela do blues-funk que vive em Londres, anda em tournée há dois anos e parou em Lisboa. Ricardo cruzou-se com ele numa noite e desafiou-o a tocar dias depois. O nigeriano aceitou e proporcionou aos seus fãs um momento inesquecível de festa que excecionalmente nessa noite durou até de madrugada.

“Ter tido a possibilidade de concretizar um concerto de um músico da dimensão do Keziah Jones foi a confirmação de que projetos como estes, que envolvem a comunidade e geram um movimento não elitista, no sentido em que não fica circunscrito ao universo dos músicos, têm toda a razão de ser.” Joanna acrescenta: “É muito mais do que ir só ouvir música. É proporcionar encontros, conhecer, abrir, contagiar e formar uma rede. Somos nós que temos de criar as condições do mundo onde queremos viver e de fazer com que as coisas aconteçam.” Este é o espírito, e assim será provável que no último domingo deste mês uma cantora de ópera lhe apareça em casa.