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CALVÁRIO. Pedro João Dias continua a fintar as autoridades, na sequência de vários crimes que lhe são imputados

LUCILIA MONTEIRO

Pedro João Dias, o homem mais procurado em Portugal, continua a contornar o cerco montado pelas forças policiais. Está em fuga há 11 dias

As buscas prosseguem nas aldeias do distrito de Vila Real, onde o presumível duplo homicida de Aguiar da Beira, Pedro João Dias, foi visto pela última vez. “Piloto”, como é conhecido, continua a monte e a despistar as forças policiais, numa operação conjunta entre a Polícia Judiciária e a GNR. As diligências para localizar o foragido mantiveram-se, esta sexta-feira, bastante discretas, numa tentativa de minimizar o impacto mediático do caso.

O Expresso esteve no local durante toda a manhã e início de tarde, tempo insuficiente para avistar qualquer viatura de patrulha nas redondezas. “Estamos a apostar num patrulhamento de proximidade, sobretudo nas aldeias mais isoladas, no sentido de prevenir e de garantir que a segurança das pessoas não é posta em causa”, adianta o porta-voz da GNR, Marco Cruz. Relativamente às operações de busca, o responsável não prestou qualquer informação, seguindo a estratégia adotada nos últimos dias.

A população vive dividida entre o medo e a convicção de que o suspeito já não estará nas imediações. Tenta-se recuperar, paulatinamente, a normalidade possível. Logo pela manhã, ao entrarmos no restaurante e café “O Mocho”, em Ludares, Ana Borges – já habituada à presença de jornalistas no seu estabelecimento durante os últimos dias – diz acreditar que Pedro Dias está a ser ajudado. “Oh, ele já deve estar na China”, brinca a proprietária.

Rir é o melhor remédio, diz o ditado, e o clima é de relativa boa disposição. Isildo Augusto é o padeiro ambulante da zona. Conta que até o negócio tem andado mais escondido. “Vai-se vendendo menos, o pessoal está assustado”, explica. Se encontrasse “Piloto” durante o percurso que faz de carrinha para distribuir o pão diariamente pela população, confessa, entre risos, que “até lhe dava um bocado, afinal de contas o homem deve estar esfomeado”.

Para tantas brincadeiras não está António Vieira, um senhor de ideias firmes apoiado em muletas que vagueia por uma das ruas íngremes de Ludares. “Não tenho medo dele nem de muito como eles”, enquanto deixa uma sugestão para maximizar a eficácia das operações. “Porque é que não metem aqui dois ou três batalhões do exército?”, interroga, indignado, o habitante da pequena localidade.

Se o “Piloto” aparecer, a Pantera dá conta

LUCILIA MONTEIRO

Numa outra aldeia, em Vale de Nogueira, fomos encontrar Dolores Pereira, 59 anos, e Adélia Correia, de 67. Ambas afirmam que não têm medo e que fazem a sua vida normalmente. Ninguém sabe do paradeiro de Pedro Dias, mas de uma coisa Dolores tem a certeza: o fugitivo não passou por ali. “A minha Pantera, se pressentisse alguém, fazia logo uma ladrada”, assegura, apontando para a cadela.

No Centro Social e Paroquial de Vale de Nogueiras preparam-se as refeições que depois serão entregues ao domícilio de algumas pessoas mais idosas. A cozinheira Assunção Relvas, de 48 anos, fez uma pausa no trabalho para garantir que tenta não viver apavorada, “mas nem sempre é possível”. “Se o apanhasse a dormir em minha casa, dava-lhe 50 euritos, o carro, tudo… Só queria que me deixasse viva.”

Em Galegos, outra das freguesias, José Gonçalves e Clementina Martins, um casal de idosos, só rezam para que o suspeito de duplo homicídio não fuja para França. “Temos os nossos filhos emigrados em Toulouse”, contam. “Que nunca o diabo o traga”, roga Clementina, enquanto José é mais sereno. “É natural que até lhe desse um copito de vinho. Não é que merecesse, mas eu dava e falava com ele respeitosamente”, conta ao Expresso, enquanto faz questão de oferecer um salpicão. Apesar de todo o aparato, a presença de tantos jornalistas que abordam esta população maioritariamente envelhecida proporciona momentos de conversa. E muitos deles, isolados naquelas aldeias, só querem ser ouvidos.

LUCILIA MONTEIRO

Cronologia dos acontecimentos

Terça-feira, 11 de outubro, foi o dia em que tudo mudou nas vidas do caçador Pedro Dias e de todos aqueles que com ele se cruzaram numa fuga desenfreada às autoridades. As primeiras vítimas do homem mais procurado em Portugal neste momento foram dois elementos da GNR de Aguiar da Beira, que se encontravam a patrulhar uma zona na qual está a ser edificado um hotel. Quando se cruzou de automóvel com dois militares da guarda, Carlos Caetano e António Ferreira, disparou sobre eles, tendo causado a morte imediata do primeiro.

Em seguida, forçou o segundo elemento da autoridade a conduzir o carro-patrulha até um local a cinco quilómetros de distância, tendo-o deixado amarrado a uma árvore. No local atacou um casal para roubar um outro automóvel, de forma a colocar-se novamente em fuga. Matou o homem e deixou a mulher em estado bastante grave.

A 16 de outubro, domingo, volta a ser visto em Arouca, na localidade de Moldes. Ocupa uma casa onde faz reféns dois idosos durante aproximadamente duas horas. Em seguida, coloca-se novamente em fuga numa viatura comercial. Apesar do cerco montado em várias estradas da região, Pedro Dias, conhecedor da zona, consegue novamente ludibriar as autoridades.

No dia seguinte, segunda-feira, a viatura é encontrada na freguesia de Carro Queimado, em Vila Real, e, desde então, as investigações têm estado centradas em várias aldeias do distrito. Na terça-feira, na freguesia de Assento, um habitante afirma ter avistado o homem que continua a monte e de quem todo o país fala. Há quem o compare a Manuel “Palito, enquanto outros, nas redes sociais, já o apelidam de “Rambo português”.

Nos últimos dias, e face ao grande aparato mediático montado em sete aldeias de Vila Real, numa zona de caça associativa, as autoridades têm optado por liberar menos informação relativa às operações. As buscas mantêm-se, dia e noite, mas agora bem mais discretas. No terreno, raras são as vezes em que se vislumbra uma viatura de patrulha.

A tentativa passa por vencer o presumível duplo homicida pelo cansaço ou aguardar por “uma investida mais arriscada da parte dele”, contou ao Expresso fonte da PJ de Vila Real. A investigação está a cargo da Polícia Judiciária, apoiada no terreno por diversas valências da GNR que tentam assegurar a segurança das populações.

Esta quinta-feira, o anterior secretário-geral do Sistema de Segurança Interna Mário Mendes falou em descoordenação na forma como o caso está a ser conduzido pela PJ e pela GNR, algo que foi refutado pela ministra da Justiça, Francisca van Dunem. “Não há nenhum problema de coordenação no que diz respeito a essa operação”, asseverou a ministra quando questionada pelos jornalistas. “O caso está a ser tratado com delicadeza”, porque, frisou Francisca van Dunem, “isto não é um reality show e não pode ser tratado como tal”.

Quem é este “Piloto” que tem contornado as autoridades?

Nasceu em Angola no seio de uma família que os mais próximos dizem ser abastada e cresceu em Arouca. Mas que homem é este? Muitos dos que o conhecem há mais tempo descrevem-no como “boa pessoa”, “simpático” e “bem-disposto”, mas reconhecem o caráter vingativo do Pedro Dias. Alguns amigos apelidam-no de “D. Juan” e “bon vivant”.

Contactados pelo Expresso, dois psicólogos forenses, Paulo Sargento Santos e Mauro Paulino, encontram naquilo que é possível aferir da personalidade de Pedro João Dias uma “psicopatia violenta”, alguém que “não sente remorsos” e “prefere um fim trágico”.

As forças policiais, por sua vez, traçam o retrato de um homem “frio” e “calculista”. Foi condenado, em 2011, a 23 meses – com pena suspensa – por crimes de violência doméstica contra a ex-companheira e também contra a filha de 14 anos, que o tribunal recentemente deliberou que ficaria à guarda do pai.