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Transportes de Lisboa investe €300 mil para mudar sistema de bilhetes

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antónio bernardo

Rutura no stock de cartões das máquinas automáticas da Transportes de Lisboa (Metro, Carris, Transtejo e Soflusa) poderá só estar resolvida no final do ano. Contratos com o fornecedor atual, que atrasou a entrega das encomendas, preveem a possibilidade de solicitar indemnizações aos fabricantes

Desde 2012 que a OTLIS -— empresa que gere o sistema de bilhetes de transportes públicos de Lisboa — vinha a alertar formalmente os operadores para o risco de dependência de um único fornecedor. O problema acabou por estourar em Setembro ao assistir-se à rutura no stock de cartões em rolo nas máquinas automáticas de bilhetes, obrigando à procura de suportes alternativos com maior rapidez.

Uma solução estava a ser negociada desde “meados deste ano”, garante ao Expresso o Ministério do Ambiente, que tutela os Transportes. “As empresas (Metro e Carris) estavam, desde meados deste ano, a trabalhar na atualização dos sistemas informáticos para permitir que as máquinas de venda recebessem cartões com origem num maior leque de fornecedores, quando o fornecedor único falhou a entrega contratada”, esclarece ao Expresso o gabinete do ministro João Pedro Matos Fernandes.

A solução passa por um 'upgrade' dos sistemas informáticos (em curso pela Indra) que deverá estar concluído até final do ano e implica um investimento global de cerca de 300 mil euros. Este valor representa apenas 1% do orçamento da empresa que, “apesar de não estar previsto, foi possível acomodar no plano de intervenções”, avança ao Expresso a Transportes de Lisboa, que detém o Metro, a Carris, Transtejo e Soflusa.

Os operadores irão assim recorrer a esta nova tecnologia que conta com dois fornecedores de cartões no mercado, cujo nome a OTLIS não quer avançar. O prazo “apertado” para resolver o problema “não dá tempo de abrir um concurso público, que levaria mais de seis meses”, justifica a empresa. Os novos suportes já estão a ser distribuídos na CP - Comboios de Portugal e deverão chegar ao Metro, Carris, Transtejo e Soflusa até ao final do ano. A CP já disponibilizou, inclusivamente, uma app que permite planear e comprar viagens nos comboios Alfa Pendular e Intercidades, bem como os complementos destas nos serviços regionais.

Até agora, o único fornecedor de cartões em rolo para as máquinas era a ASK, uma empresa francesa com clientes à escala mundial que desenha e produz soluções para o sector dos transportes. Segundo a OTLIS, a ASK só a informou da impossibilidade de satisfazer a entrega prevista para setembro no início desse mês, o que a levou a só então, e “com poucos dias de antecedência”, poder informar os operadores.

O Ministério do Ambiente adianta que os contratos existentes “permitirão solicitar indemnizações ao fabricante”. Sem esclarecer se as vai pedir ou não, o ministério que tutela os transportes apenas garante que os operadores não deixarão de defender “os seus legítimos interesses e direitos”. Por seu lado, a OTLIS prefere não se pronunciar sobre esta questão. O Expresso tem tentando contactar a ASK, sem sucesso.

Encomendas eram feitas “ao longo do ano” e “em função das necessidades”

“A fragilidade de depender de um único fornecedor foi identificada em 2011, nada tendo sido feito durante anos para a debelar”, reforça ao Expresso o gabinete do ministro João Pedro Matos Fernandes, que na semana passada imputava responsabilidades por esta situação ao anterior Governo.

Segundo a OTLIS, o motivo para este atraso é da responsabilidade dos operadores que, em contexto de crise económica, não quiseram atualizar os seus sistemas informáticos. “Nós já andávamos a alertar formalmente para esta situação desde 2012 – e informalmente desde 2010/2011 –, mas é preciso recordar como estava o país: em crise. Os operadores não puderam tomar essa opção e não avançaram com as 'obras' necessárias”, garante uma fonte na OTLIS.

Já a Transportes de Lisboa justifica com o facto de só nessa altura este sistema de bilhética sem contacto (que permite agregar num cartão de papel um chip “suficientemente barato”) ter chegado aos últimos operadores de transportes, “pelo que não era fácil, naquela altura, convencer as empresas que demoraram oito anos a chegar até este patamar a investir em novas alterações”. Desde 2003 que este sistema de bilhética foi sendo introduzido na Carris, CP Lisboa, Transtejo, Soflusa, Fertagus, Metro Sul do Tejo, Transportes Coletivos do Barreiro e operadores rodoviários privados, como a Vimeca e Rodoviária de Lisboa.

Foi neste contexto que, em janeiro de 2016, o atual conselho de administração entrou em funções. Segundo a empresa presidida por Tiago Farias, a prioridade esteve centrada na questão da bilhética. Ainda nesse mês, foi alterada “a política de aquisições de cartões das empresas, que até aí se faziam ao longo do ano em função das necessidades, e colocou em fevereiro uma encomenda única de cartões Viva Viagem para todo o ano, solicitando entregas parcelares em função das necessidades”.

Esta encomenda anual para as quatro empresas totaliza um investimento superior a um milhão de euros e mais de sete milhões de cartões Viva Viagem, dos quais mais de 80% destinados ao Metro, com entregas em março, junho, setembro e dezembro.