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Kentaro, o lince viajante morreu às portas da Maia

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José Caria

Kentaro deambulou mais de 3000 quilómetros entre Espanha e Portugal nos últimos dois anos. Acabou atropelado, este fim de semana, numa autoestrada na zona da Maia, a norte do Porto

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

As aventuras de Kentaro, conhecido como “o lince viajante”, chegaram ao fim. O macho de lince-ibérico, nascido há três anos no centro português de reprodução em cativeiro de Silves (CNRLI), morreu atropelado numa auto-estrada na zona da Maia, no Norte de Portugal, depois de ter percorrido mais de três mil quilómetros de estradas e caminhos em solo português e espanhol.

Kentaro e o irmão Khan estavam inseridos no projecto ibérico de conservação desta espécie em perigo de extinção. Nasceram em Silves em 2013, e um ano depois foram soltos em meio natural na zona de Montes de Toledo, na região espanhola de Castilla La Mancha. Mas não se fixaram, tendo pouco depois retornado a território português. Normalmente, os exemplares desta espécie deslocam-se num raio de 40 quilómetros, mas os dois irmãos (cada um seguindo o seu percurso) foram muito mais longe, demonstrando o seu carácter dispersante.

Khan deslocou-se mais para sul, mas desapareceu do radar há já largos meses depois de a pilha da coleira transmissora ter deixado de funcionar. Kentaro deambulou pela Galiza e pela Serra de Montesinho, e uma equipa de técnicos espanhóis e portugueses ainda tentou apanhá-lo para o levar para um local mais seguro, onde se pudesse reproduzir. Mas a operação não teve sucesso.

As estradas são dos piores inimigos destes felinos integrados no projeto ibérico de conservação da espécie. Há cerca de um ano, um outro exemplar de lince ibérico também perdeu a vida em estradas portuguesas. Chamava-se Hongo, nascera em Doñana e deambulara por Portugal, durante três anos, até ser colhido por um carro na A23, próximo de Vila Nova da Barquinha. As estradas espanholas tiraram a vida a 15 linces em 2015 e a pelo menos dois no início de 2016.

Para atenuar o risco de atropelamento rodoviário destes animais, o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), em parceria com a empresa pública Infraestruturas de Portugal, reforçou, há cerca de dois anos, uma campanha de prevenção e sensibilização “para uma condução responsável e segura” e fez o levantamento dos “pontos negros dos eixos rodoviários com maior risco” de atropelamento de animais, no concelho de Mértola. Porém, a sinalização de trânsito a alertar os condutores para o perigo de se cruzarem com um lince-ibérico ficou restringida a estradas nacionais no Alentejo.

O projeto de recuperação da distribuição histórica do Lince Ibérico (Lynx pardinus) permitiu a libertação de 19 exemplares desta espécie, no Vale do Guadiana. Duas fêmeas acabaram por morrer (uma envenenada e outra com uma doença infecciosa). Entretanto nasceram duas ninhadas com um total de cinco crias que já deambulam pelos montes alentejanos.