Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Como funciona a cabeça de um fugitivo: “Preferem um fim trágico”

  • 333

MISTÉRIO GNR montou uma caça ao homem nos últimos dias para tentar capturar Pedro João Dias, suspeito de duplo homicídio. Neste momento, as pistas apontam para Vila Real

Lusa

Psicólogos forenses ajudam a explicar o que pensa, como reage ou onde se prefere esconder um foragido à Justiça como Pedro João Dias, o alegado homicida de Aguiar da Beira. “É um indivíduo que, mesmo encurralado, não se irá entregar”

Pedro João Dias é um homem perigoso e pode tornar-se ainda mais a cada dia que passa escondido das autoridades. Dois psicólogos forenses ouvidos pelo Expresso, Paulo Sargento Santos e Mauro Paulino, sabem do que falam. Ambos os especialistas estão há muito rotinados na análise psicológica a homicidas, violadores ou sequestradores e já viram este filme várias vezes.

Paulo Sargento Santos, neuropsicólogo clínico e forense, defende que não há apenas um padrão de fuga, mas padrões dependentes do perfil do evadido. No caso de Pedro João Dias — o fugitivo de Aguiar da Beira (Guarda) que terá assassinado um militar da GNR e um civil na última terça-feira de madrugada —, o diagnóstico aponta para “uma psicopatia violenta”. Para este especialista, o modelo de fuga do suspeito de duplo homicídio indicia que ele entrou em desespero quando se apercebeu que não tinha consigo a carta de condução, após abater e ferir gravemente os dois militares da GNR.

“O seu comportamento revela que ele não queria de forma alguma ser identificado, razão que o terá levado a atirar a matar o casal de civis vítimas de carjacking.” A pressão de recuperar o documento identificativo, que julga poder ter ficado no carro, é explicada por ser muito conhecido na terra, temendo a censura social, “a sua e a da família, muito conhecida e reputada na região”. Esta preocupação com a visibilidade pessoal é comum aos psicopatas bem aceites na comunidade, “tão dissimulados que em muitos casos nem as próprias mulheres desconfiam da grau de violência dos homens com quem dormem”.

PROCURADOS Tal como o Pedro João Dias, também Manuel Baltazar (‘Palito’) nunca deixou de rondar a região onde residia, em São João da Pesqueira (Viseu). Foi apanhado em casa, em Valongo de Azeites, após ter estado 34 dias a monte

PROCURADOS Tal como o Pedro João Dias, também Manuel Baltazar (‘Palito’) nunca deixou de rondar a região onde residia, em São João da Pesqueira (Viseu). Foi apanhado em casa, em Valongo de Azeites, após ter estado 34 dias a monte

O facto de Pedro João Dias, conhecido como ‘Piloto’, ter estado escondido numa casa desabitada a pouco mais de um quilómetro da moradia dos pais em Arouca, depois de ter sido dado como fugido em Salamanca, também não é estranho para os dois psicólogos forenses. Para Mauro Paulino, coordenador da Mind, Instituto de Psicologia Clínica e Forense, “estes indivíduos decidem, sobretudo, em função da ponderação: quais os riscos inerentes à sua tentativa de fuga para um local desconhecido e quais as opções que têm num meio que melhor conhecem e, portanto, com maior controlo”. O autor do livro “Violência Doméstica: Identificar, Avaliar, Intervir” — que será lançado para a semana — acrescenta que “os meios mais conhecidos pelo agressor conferem-lhe um maior sentimento de controlo sobre situação, ainda que possa ser um sentimento aparente”.

Segundo Paulo Sargento dos Santos, a justificação para Pedro João Dias se manter em redor da terra natal “não é por sentir que alguém o pode ajudar”, mas “por conhecer bem o terreno que pisa e os recursos locais”. Ainda assim, se o suspeito tivesse dinheiro e documentos “já teria saído do país”, ressalva.

‘Piloto’ vai preferir um fim trágico

Este psicólogo está convencido que Pedro João Dias é um homem “muitíssimo violento”, que só não foi exposto mais cedo por se tratar uma pessoa que foi protegida pelos familiares ao longo dos anos, mas que tem como antecedentes, além de delitos menores, a condenação por crime de violência doméstica da ex-namorada. “É um indivíduo que, mesmo encurralado, não se irá entregar e que, sem capacidade para ter um filtro, não vai parar de fugir ou mesmo de cometer novos crimes se preciso for para escapar. Nesta fase, pensa que perdido por um, perdido por mil.” Mauro Paulino corrobora: “A variável tempo associada à condição fugitivo pode contribuir para a continuação de comportamentos letais com vista a manter o objetivo da fuga”.

É também um homem que vai cometendo cada vez mais erros a cada dia que passa na clandestinidade? “Não necessariamente. Ainda que o melhor preditor do comportamento futuro seja o comportamento passado”, analisa Mauro Paulino. “Outro aspeto importante é o nível de exaustão física, caso esteja na iminência de ser localizado (por exemplo, não dormir há várias noites por estar sempre em alerta porque a polícia anda nas imediações), ou a existência de eventuais ferimentos que podem afetar a capacidade de discernimento e de avaliação dos riscos.”

Paulo Sargento dos Santos descarta a hipótese de o suspeito optar pelo suicídio caso se sinta encurralado pelas autoridades que o procuram: “Não me parece que siga a estratégia do escorpião. Este tipo de indivíduos prefere um fim trágico. E não sente remorsos. Mais depressa prefere ser baleado pela polícia”.

Os outros casos: ‘Palito’ e o pastor de Carrazeda de Ansiães

Tal como o Pedro João Dias, também Manuel Baltazar (‘Palito’) nunca deixou de rondar a região onde residia, em São João da Pesqueira (Viseu). Foi apanhado em casa, em Valongo de Azeites, após ter estado 34 dias a monte. A investigação suspeitou que por mais de uma vez Manuel Baltazar teria regressado ao local do crime, tendo as autoridades colocado sob vigilância a casa do homem que matou a sogra e a tia e feriu a ex-mulher e a filha, num quadro de violência doméstica.

No início de agosto de 2014, em Carrazeda de Ansiães, o pastor Ismael Vicente esfaqueou uma antiga amante e a cunhada desta, que não resistiu aos ferimentos na garganta. Esteve fugido à polícia durante 15 dias nas redondezas de Carrazeda, tendo acabado por se entregar à GNR local acompanhado de um irmão, após a mãe ter feito um apelo para que o filho se entregasse às autoridades.