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A vida dele deu mesmo um livro: o Presidente que se dedicou à literatura depois de se demitir

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Biografia de Manuel Teixeira Gomes é apresentada hoje

Boémio, estudante de medicina, diplomata, negociante de produtos agrícolas, escritor. Ser Presidente da República foi, para Manuel Teixeira Gomes, mais uma passagem na sua vida, uma passagem curta, por sinal, já que tendo assumido o cargo em 1923 viria a demitir-se dois anos depois, em pleno período de convulsões políticas e sociais. Deixou o país e dedicou-se então à literatura.

A sua vida teve todas as componentes para o efeito e deu mesmo um livro. Por iniciativa do Museu da Presidência da República e da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, “Manuel Teixeira Gomes - Biografia”, de José Alberto Quaresma, é apresentado esta terça-feira, às 18h30, no Antigo Picadeiro Real (Museu Nacional dos Coches), em Lisboa.

“A narrativa é escrita a duas vozes – a minha e a dele –, ao longo de cerca de 500 páginas. É um ensaio com o aparato científico que é exigido mas com um tom romanesco. A minha escrita foi intencional para o grande público e não para os teóricos”, explicou ao Expresso José Alberto Quaresma.

Após a apresentação da obra, realiza-se uma sessão de homenagem ao antigo chefe de Estado.

Nascido a 27 de maio de 1860, em Vila Nova de Portimão, a vida de Teixeira Gomes foi marcada pelas viagens. Também a atração pelas artes influenciou a personalidade e o seu percurso pessoal, nem sempre pacífico, inclusivamente no seio familiar.

Educado pelos pais até entrar no Colégio de São Luís Gonzaga, em Portimão, passou pelo seminário de Coimbra e chegou a iniciar a formação em medicina. Desistiu, para desgosto do pai, que, também contrariado, viu o filho partir para Lisboa.

Amigo de várias figuras proeminentes no meio artístico da época, do seu círculo faziam parte Marcelino Mesquita, João de Deus, António Nobre e Columbano Bordalo Pinheiro.

A reconciliação com o pai, já em 1891, trouxe-lhe a oportunidade de viajar pela Europa, Norte de África e Próximo Oriente, como negociante de frutos secos, ao serviço de uma sociedade agrícola da família.

Na política, Manuel Teixeira Gomes torna-se ativo depois da implantação da República, tendo ocupado vários cargos diplomáticos, nomedamente em Inglaterra e Madrid.

Eleito Presidente em agosto de 1923, deixando para trás Bernardino Machado, foi curto o seu mandato, marcado pelas convulsões políticas e pela constatação de que as forças republicanas estavam cada vez mais isoladas. Demitiu-se em dezembro de 1925 e pouco depois partiu para a Argélia, instalando-se na cidade de Bougie, onde morreu a 18 de outubro de 1941.

“Era um bom vivant, negociante, melómano, colecionador de arte, escritor, diplomata com uma cultura enciclopédica, que em parte herdou do pai. Em termos ideológicos não era conservador. Pelo contrário, possuía uma visão estratégica sobre o futuro muito pouco habitual para a época. Era defensor por exemplo da emancipação da mulher”, recorda José Alberto Quaresma.

Da sua obra literária fazem parte, entre outros títulos, “Cartas sem Moral Nenhuma”, “Gente Singular”, “Novelas Eróticas”, “Regressos” e “Carnaval Literário”.