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250 embriões vão ensinar-nos os segredos do cordão umbilical

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PESQUISA. Os casais que doaram os embriões excedentários assinaram declarações autorizando a investigação científica mas recusando a utilização em projetos parentais

ANA BAIÃO

Pela primeira vez em Portugal, embriões serão utilizados numa investigação para entender melhor como um óvulo fecundado se aloja no útero materno. A investigação foi considerada “relevantíssima” pelo Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida

Não se sabe quem são e nem mesmo se sabe quantos foram exatamente os casais que aceitaram doar os seus embriões, mas sabe-se que são mais de 80. Cerca de 80 homens e 80 mulheres que perceberam que é dando que se recebe. E foi com base nesta dádiva que se tornou possível avançar com aquele que será o primeiro projeto de investigação com recurso à utilização de embriões humanos em Portugal.

Anunciado há uma semana pelo Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA) — o organismo a quem cabe autorizar procedimentos desta natureza no país—, o comunicado que tornou público o estudo que já havia sido aprovado há um mês, invocava o “potencial benefício para a humanidade” desta investigação.

Questionado pelo Expresso, o presidente do CNPMA, Eurico Reis, explicou que “o estudo reporta-se a um momento relevantíssimo no processo de gestação que é aquele em que o óvulo já fecundado, o embrião, portanto - tenha sido criado naturalmente ou por via da utilização das técnicas de procriação medicamente assistida (PMA) - se aloja na parede do útero da mulher para permitir a ligação — o futuro cordão umbilical — entre esses dois corpos, através do qual o futuro feto será alimentado pelo corpo da grávida”.

A questão, explica ainda, é que, “tratando-se o embrião de um corpo estranho, existem no corpo da grávida mecanismos naturais de rejeição que têm de ser contrariados para que a gestação se possa desenvolver”. E é aí exatamente que a investigação se torna-se: é que nem sempre essa ligação essencial acontece. “É uma situação que ocorre mais vezes do que o comum dos cidadãos poderá pensar”, sublinha o presidente do CNPMA.

E foi por isso que, depois de outros dois centros de tratamento de infertilidade em Portugal já terem apresentado propostas no mesmo campo, acabou por ser o Centro IVI a conseguir ver aprovado o seu projeto de investigação. Porque aceitou aprofundar a proposta, detalhando-a do ponto de vista lógico e científico e dos métodos a utilizar e, principalmente, porque conseguiu demonstrar “a relevância ética e científica e as potencialidades que, sob o ponto de vista social, se perspetivam com esta aquisição de conhecimento, que são, crê-se, indesmentíveis”, conclui Eurico Reis.

ana baião

Ligação in vitro

Embora o Conselho não tenha imposto qualquer prazo para a apresentação de conclusões, Sérgio Soares, o médico que estará à frente da investigação, disse ao Expresso que espera ter resultados dentro de um ano. O também diretor do Centro IVI, em Lisboa, realça que tudo será feito em circuito laboratorial, de forma a que os mecanismos moleculares de interação endométrio-embrião possam ser estudados, permitindo avanços na capacidade diagnóstica e terapêutica dos especialistas em PMA. Sobretudo, avança, “quanto mais for conhecido o processo de implantação embrionária, mais capacidade haverá para caracterizar os problemas específicos de um casal e implementar soluções”.

Sérgio Soares explicou ainda que neste projeto serão utilizados cerca de 250 embriões. Cada casal que aceitou participar terá doado uma média de três embriões. Todos eram acompanhados na IVI em tratamentos de infertilidade. A clínica privada, de origem espanhola, tem, segundo o médico, experiência nesta área de investigação. “É uma linha já consolidada dentro do grupo, com trabalhos publicados em revistas científicas”, garante Soares.

Todos os casais envolvidos através da doação de embriões tiveram de assinar declarações escritas, autorizando a utilização científica dos mesmos. Ficou explícito ainda que nenhum dos embriões poderá ser utilizado em projetos parentais, ou seja, ser implantados noutras mulheres de forma a poderem desenvolver uma gravidez e eventualmente gerar uma criança.
De acordo com a legislação portuguesa, os embriões que não forem transferidos para um útero devem ser criopreservados e, no prazo de três anos, podem ser utilizados em novo processo de transferência embrionária. A pedido do casal, este prazo pode ser prorrogado por mais um triénio, ao fim do qual a lei prevê que possam ser doados para outras pessoas ou utilizados em estudos científicos.

Existiam em Portugal no final de 2015 quase 21 mil embriões criopreservados, segundo o CNPMA, citado pela Agência Lusa. No ano passado, 44 embriões terão sido doados a outros casais e 331 foram descongelados e eliminados.

Um livro de 1925 já estudava as relações sociais estabelecidas com base na doação feita pelos seus integrantes. Marcel Mauss, no “Ensaio sobre a dádiva”, debruçava-se sobre os métodos de troca nas sociedades consideradas primitivas e explicava que as doações recíprocas estabelecem relações de fortes alianças, hospitalidade, proteção e assistência mútua. Passados quase cem anos, a dádiva volta a surpreender. E a permitir avançar. Desta vez, em Portugal e pela mão de 80 homens e 80 mulheres.