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Quando a gatuna é de boas famílias, não rouba mas dá descaminho

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RETRATO-ROBÔ Maria Carlota Cardoso Moniz Castelo Branco Bacelar

Desta vez, quem foi presa era “uma senhora”. E o caso foi segredo durante mais de um mês. Mesmo quando se soube que o espólio de alguém importante, um conselheiro que morrera, tinha sido “desviado”, os nomes da vítima e da suposta criminosa demoraram a ser divulgados. Este é o quinto capítulo da segunda temporada da série Crime à Segunda

Anabela Natário

Anabela Natário

texto

Jornalista

João Roberto

João Roberto

ilustração

Motion designer

“Roubo importante - Prisão de uma senhora”, titularam os jornais quando a polícia deteve a governanta, talvez amante ou só dama de companhia de um conselheiro. “Senhora” não indicava alcunha nem ironia, como se verificava quando noticiavam a prisão de "uma criada modelo", por exemplo. Desta vez, a gatuna era anónima e, à partida, insuspeita... pertencia a boas famílias, tinha 64 anos e "não fez mais do que ficar com aquilo que era seu por direito, por ter aturado tantos anos o general".

A “sra. D.” Maria Carlota — logo pelo nome próprio se nota que a origem desta mulher difere da das criminosas que vão polvilhando os jornais entre o século XIX e o início do XX —, vivia no terceiro andar do n.º 354, da rua de São Bento, em Lisboa, há seis ou sete anos com o general de divisão Francisco António Álvares Pereira, diretor e docente do Instituto de Agronomia e Veterinária e presidente do conselho fiscal da Companhia Geral de Crédito Predial Português, homem com fortuna e ainda influente nestes últimos anos do reinado de dom Carlos.

Maria Carlota cuidava do quotidiano, geria o pagamento das contas de mercearia, do alfaiate e outras, supervisionada pelo general que, ela própria o dirá, “possuía o hábito de escriturar minuciosamente toda a sua receita e despesa”, registo que guardava no cofre e que irá desaparecer. Viviam, portanto, desde o final dos anos de 1890, sem quaisquer problemas, a não ser, como se fará notar, um certo descontentamento dos familiares do general.

ilustração joão roberto

O início da reviravolta deu-se a 1 de agosto de 1904, sem ninguém ainda suspeitar. Neste dia, Álvares Pereira, que teria cerca de 70 anos de idade e ostentava o título de conselheiro, atendendo aos relevantes serviços prestados ao reino, sentindo-se indisposto, resolveu mudar de ares e ir para a sua casa de Aveiras de Baixo, na companhia de Maria Carlota e de Ana da Assunção Linhares Pereira, a quem “dava casa de graça" no seu prédio, provavelmente desde que esta enviuvara, "estimando-o [ela] muito por isso”.

Todos rumaram de comboio à Quinta do Pilar, que em 1987 se tornou a coudelaria de Henrique Abecassis, onde se criam cavalos de puro sangue lusitano e se oferece turismo equestre. Mas a indisposição do general agravou-se, morrendo pelas 15h30, do dia 6 de agosto, cinco dias depois de ter chegado àquela terra do concelho da Azambuja, situada a cerca de sessenta quilómetros de Lisboa. Ninguém estaria à espera deste desfecho, mas nunca chegou a ser colocada a hipótese de envenenamento.

"Aconselhada" por alguns dos convidados que se encontravam na quinta, Maria Carlota deslocou-se a Lisboa, acompanhada por um amigo vizinho, Francisco Vitorino, e por Ana da Assunção, para ir buscar a farda do militar e o dinheiro necessário às despesas do funeral, já que esvaziara a carteira do conselheiro para pagar a féria ao feitor da quinta. Assim, explicará a razão da ida e volta, quando interrogada a primeira vez, a 11 de agosto, um dia depois de ser surpreendia com a entrada em casa do juiz de paz do distrito de Santa Isabel para selar o quarto do falecido.

No dia 8, estava a fazer de novo a viagem de duas horas e meia de comboio (hoje, demoraria menos uma hora), de Aveiras de Baixo à estação do Rossio, para acompanhar o corpo do conselheiro “encerrado numa rica urna de pau santo com incrustações douradas”. Pelas 17h, o cortejo saiu da "gare da Avenida". À frente, seguiam cerca de três dezenas de trens com os convidados, depois o carro funerário, preto de colunas, puxado por dois cavalos, e um esquadrão de lanceiros 2, sinais da importância do morto.

No cemitério dos Prazeres, esperava-os uma brigada composta por regimento de infantaria 5, batalhão de caçadores 2, um grupo de baterias de artilharia 1 e um esquadrão de cavalaria 4. “O grupo de baterias de artilharia, apesar de chegar cedo não alinhou! Cada peça estava a sua direção. Caçadores 2 deu bem a primeira descarga; infantaria 5 foi figurar de regimento levando 94 praças!”, contaria o jornal republicano "A Vanguarda".

A primeira notícia, discreta, sobre o "descaminho" do espólio do conselheiro Álvares Pereira, no jornal "O Século"

A primeira notícia, discreta, sobre o "descaminho" do espólio do conselheiro Álvares Pereira, no jornal "O Século"

d.r.

Terminadas as exéquias, no dia seguinte já os sobrinhos se interrogavam sobre os bens a herdar. Faltavam muitos mil réis, faltavam roupas, que à época valiam dinheiro, tendo em conta a quantidade de ladrões que as roubavam para empenhar. Faltavam joias, objetos de prata, de ouro… A criada lá de casa, Maria Luísa Martins, terá sido a fonte de informação, assim como a antiga governanta do general que morava ali perto, na praça de São Bento, e apesar de há dez anos o deixar de o ser, ajudara a fazer as malas. Ambas, dirão o mesmo à polícia, daí que Maria Carlota seja chamada no dia 11 de agosto para explicar que quando foi a casa, vinda de Aveiras, tinha encontrado apenas 20 mil réis, facto que não seria de estranhar, uma vez que o conselheiro depositava "todos os seus rendimentos no Montepio Geral, como podia provar com a respetiva caderneta".

“E como supunha que o sr. Álvares Pereira tivesse deixado testamento, visto ter-lhe ouvido falar nisso tantas vezes, também o procurou, não o encontrando, aparecendo-lhe apenas algumas ações de diversas companhias”, acrescentou. Se ocultara da família a escrituração do general, “fora porque supunha pertencer-lhe tudo quanto ali se encontrava por o extinto assim lho haver dito”, quando em 1900 pusera a casa no nome dela, explicou ainda, antes de voltar a São Bento, livre de qualquer acusação formal.

E onde estaria o baú recheado?

Adelaide Dardalhont dirá à sobrinha, mais tarde à polícia, que o tio possuía, além de uma avultada quantia em dinheiro, objetos de ouro e prata, "muitos", um par de botões com brilhantes, anéis, corrente, uma salva e colheres de prata, tudo guardado num cofre, onde se encontravam também alguns papéis de crédito, com inscrições de assentamento e cupões — numa caixa de folha, dentro de uma gaveta de um toucador e nos escaninhos da secretária, além de roupa nova de linho e de algodão. Quando ela era a governanta, viu algumas vezes o conselheiro receber elevadas quantias, das mãos do sr. Bandeira de Melo, e guardá-las “numa gaveta de segredo que tinha na secretária. Ultimamente, porém, costumava pô-lo num grande baú que tinha cheio de roupa”.

A sobrinha insiste na culpa de Maria Carlota, vê cúmplices nas amizades desta e nas moradoras de outros andares do prédio do general. A filha da irmã de Álvares Pereira interroga-se sobre o que será feito do soldo de general de divisão, pago no início de agosto, entre dia 1 e 6, no valor de 200 mil réis, e os vencimentos de diretor do Instituto de Agronomia e Veterinária, e da Companhia do Crédito Predial Português. E os sessenta mil réis em notas, na carteira, e os quatro mil em prata numa bolsa? Seu filho que com ela falara, recebera a carteira vazia, só com o bilhete de identidade. Deu mesmo 64 mil réis ao feitor para pagar salários atrasados? E onde estaria o baú recheado?

Um mês depois, no dia 24 de setembro, "O Século" noticiava: "No juízo de instrução criminal encontra-se detida e incomunicável uma senhora de certa posição social, por causa de um roubo importante”. E logo se soube que o encarregado da investigação era o chefe Albino Sarmento, o mesmo que, no início desse mês de 1904, andava atrás da Pencuda, de seu nome Amélia Marques e tolerada de profissão, envolvida numa cena de facada por querer dar uma lição ao ex-namorado, suspeita de "saber mais do que dizia" de três assassínios, pelo menos.

Mas sobre "a senhora" não há pormenores: "Por enquanto a polícia guarda o máximo de segredo sobre o assunto", informava o diário. "O Século" tem fontes privilegiadas neste caso, é o único a dar a notícia. Os nomes são omitidos, mas há de saber-se que a sobrinha do general Eugénia Casassa Álvares Pereira da Cunha Belém reforçou a queixa, também em nome do irmão Eduardo, herdeiros do conselheiro por este não ter filhos, todavia nada consta do livro de registos desse ano, depositado na Torre do Tombo. E que, entretanto, Maria Carlota Cardoso Moniz Castelo Branco Bacelar, solteira, descendente de uma família de magistrados, parente próxima do juiz que sessenta anos atrás prendera os assassinos Diogo Alves e Matos Lobo, voltava a ser interrogada, desta feita já constituída arguida.

A primeira notícia, discreta, sobre o "descaminho" do espólio do conselheiro Álvares Pereira, no jornal "O Século"

A primeira notícia, discreta, sobre o "descaminho" do espólio do conselheiro Álvares Pereira, no jornal "O Século"

d.r.

No dia seguinte, 25 de setembro, o jornal adianta pormenores continuando sem revelar a identidade da suspeita ou da vítima. Se fosse outra detida qualquer, daquelas que fugiam com o roubo debaixo do sovaco, como as "artistas" Maria Alves, a Canastra, e Maria Amélia, a Caixeira, ou enganavam incautos em suas próprias casas, como a célebre Maria Rosa, a Giraldinha, ou mesmo a criada inocente acusada pelos patrões, casos bastante frequentes, já o nome, alcunha e morada estavam repetidos sem pejo pelas páginas de todos periódicos.

Não está em causa apenas a proteção da acusada, há que ter em conta o envolvimento do nome de um cidadão agraciado pelo rei com um título e o da família deste, gente da alta sociedade, presença assídua na coluna “High-Life” do “Diário Ilustrado”, em especial Eugénia que ganhou outro apelido ao casar com César Alberto, filho do muito badalado coronel médico, político, escritor e polemista António Manuel da Cunha Belém.

Desta vez trata-se de "uma senhora viúva, que ultimamente vivia em companhia de um titular", portanto, todo cuidado é pouco, nada de nomear quem ainda é só suspeito o que, convenhamos, deve ter levantado ainda mais curiosidade, levando a sociedade lisboeta ao rubro, na prática do seu desporto preferido, a maledicência, isto acreditando no juízo do escritor coevo Alberto Pimentel que, nascido no Porto, viveu a maior parte da vida em Lisboa, e era professor de português, na Escola Normal Masculina, quando César da Cunha Belém ali ministrava a disciplina de Aritmética, Geometria e Escrituração e a de Moral e doutrina cristã, direitos e deveres.

"Continua presa e incomunicável no juízo de instrução criminal a senhora a quem temos aludido e que é acusada de ter dado descaminho a objetos de valor pertencentes ao espólio de um indivíduo que vivera em sua companhia", prosseguia "O Século" no dia 26, adiantando que durante os vários interrogatórios a que fora sujeita, a arguida se mantivera sempre "na mais absoluta negativa".

ilustração joão roberto

Conforme os agentes formavam a sua convicção quanto à culpa, os pormenores vão saindo para a rua, ou seja, para o diário "O Século", já que as diligências da polícia continuavam "envoltas no maior mistério, dando esse facto ensejo a que sobre o caso surjam as mais desencontradas versões". Só no dia 27, se ficará a saber que a vítima era o general Álvares Pereira, cuja fortuna "valia 300 contos" e que "tinha em sua companhia, há já bastantes anos, uma senhora viúva", a qual continuava a negar ter tirado o que quer que fosse do espólio do falecido.

E no dia 28, a seguir à habitual frase "continua presa e incomunicável...", é dada nota de que irá ser feita uma busca a casa da senhora e que esta, tendo em conta insistir na inocência, será acareada com os dois herdeiros e com as testemunhas para apurar se "efetivamente lhe cabem quaisquer responsabilidades no desaparecimento das joias". As acareações não se puderam realizar conforme o previsto, mas a busca sim.

Para a rua de São Bento, seguiu o agente Murtinheira mais três guardas, acompanhados por Maria Carlota, João da Cunha Belém, a ex-governanta Adelaide Dardalhont, a criada Luísa Martins e por Ana da Assunção. Revolveram o terceiro andar e apreenderam, em "território" da dona da casa, entre outros bens que suspeitaram pertencer ao extinto, um par de botões com pedras preciosas, 39 mil réis em dinheiro, três toalhas com as iniciais A.P., umas calças à militar, duas chaves… De seguida, foram ao terceiro piso, e aí encontraram o baú desaparecido. Aparecem testemunhas de que Maria Carlota lhe dera descaminho.

O valor começa a diminuir conforme se vai sabendo de quem se trata

A 29 de setembro, começa a “constar” que os objetos desaparecidos não atingem a importância que se dizia, e que "toda a fortuna do extinto militar era constituída por propriedades cuja avaliação não excede os 65 contos de réis". No dia seguinte, dá-se nota de que o chefe Sarmento não consegue progredir com os interrogatórios. Os métodos não deverão ser os mesmos utilizados para com suspeitos sem títulos… “as investigações prosseguem e o processo já está bastante volumoso por causa das testemunhas”.

Mas Maria Carlota Cardoso Moniz Castelo Branco Bacelar acabará por assumir a culpa. Acusada de "dar descaminho a uma parte do espólio do general" no valor de 500 mil réis, responderá em tribunal no dia 5 de outubro de 1904. Nesta data, "O Século" (assim como "A Vanguarda") conta tudo com um argumento que não era utilizado para casos de cidadãos comuns: "Hoje, que as diligências policiais terminaram, nada nos impede de narrarmos os factos, tal como se passaram".

Maria Carlota foi interrogada pelo juiz Vicente Dias Ferreira - irmão do conselheiro de Estado José Dias Ferreira, antigo primeiro-ministro e bisavô da ex-ministra social-democrata Manuela Ferreira Leite. Disse que a casa estava em seu nome e que o general manifestara muitas vezes, diante dos seus amigos, que "tudo quanto havia portas a dentro ficasse pertencendo a quem o aturara durante tantos anos e que, se ocultara algumas pratas e outros objetos de valor, o fizera com receio de que os herdeiros quisessem tirar-lhos", negando haver subtraído mais coisas.

O general António Pimentel Maldonado, pagante da fiança de Maria Carlota, aqui numa fotografia de quando foi comandante da Escola Prática de Artilharia, entre 1889 e 1890

O general António Pimentel Maldonado, pagante da fiança de Maria Carlota, aqui numa fotografia de quando foi comandante da Escola Prática de Artilharia, entre 1889 e 1890

foto site do Exército

Dias Ferreira considerou-a culpada e foi um outro general quem a salvou de ir passar uma temporada ao Aljube, onde se encontravam presas oitenta mulheres pelos mais diversos crimes, na sua maioria furtos. António Pimentel Maldonado, ex-comandante da escola prática de artilharia, pagou a fiança de três contos de réis. E não se consegue saber mais nada. O processo, por azar, não se encontra acessível na Torre do Tombo, nem este nem qualquer um outro deste ano e de 1903. Os jornais não voltaram a falar no assunto, mas o "Século", a 6 de outubro, quando noticia que "a sra. D. Maria Carlota Bacellar" já prestara fiança no tribunal, rematará dizendo: “Devemos dizer que Laura Cartuxeira, em cuja casa se afirma estar uma parte dos obesos subtraídos do espólio do falecido general, mora na Rua Nova da Piedade, 35, à praça das Flores”.

No ano seguinte, o mesmo juiz tratará de outro caso sensível que envolveu um criado de um “titular muito conhecido em Lisboa”. Em audiência secreta, responderá Joaquim Filipe dos Reis, por ter enganado, “com falsos protestos”, um rapariga de 16 anos e recusar-se a casar com ela”, por isso, será condenado a três anos de prisão maior celular, com alternativa de cinco anos de degredo. Mas só quem nessa altura habitava em Lisboa terá sabido de quem se tratava.