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Sociedade

Professor português: salário acima da média, muito trabalho, pouco reconhecimento

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Tiago Miranda

Sentir que fazem a diferença e ter um bom relacionamento com os alunos são os fatores que mais pesam no grau de satisfação dos docentes

Num conjunto de 10 países analisados, apenas em dois os professores são, em média, mais bem pagos que os restantes trabalhadores da função pública com ensino superior. Portugal é um deles, com os docentes a ganharem mais 23% em média, segundo dados de 2012 para quem dava aulas no 3.º ciclo e no secundário.

No lote de países analisados pela equipa de investigadores do aQueduto, um projeto desenvolvido com o apoio do Conselho Nacional de Educação e a Fundação Francisco Manuel dos Santos, apenas em Espanha os salários dos professores são mais elevados, comparando com os restantes funcionários públicos licenciados nesse país.

Nesta que é a décima análise publicada no âmbito do aQueduto, as investigadoras partiram dos já conhecidos dados do PISA e de um outro inquérito internacional a professores realizado em países da OCDE (o TALIS – Teacher and Learning International Survey) para constatar estas e outras diferenças remuneratórias. Mas que parecem ter pouca ou nenhuma relação com os resultados obtidos pelos alunos de 15 anos nos famosos testes de literacia do PISA.

Portugal pode pagar aos seus professores mais do que à generalidade dos outros funcionários do Estado, mas nem por isso os resultados dos alunos são os melhores. Em 2012 ficaram na média da OCDE ou abaixo, consoante o tipo de literacia avaliada (leitura, matemática, científica).

Já a Polónia, um dos casos de sucesso recente no PISA, os professores recebem menos, quer comparando com outros grupos profissionais no mesmo país, quer comparando com os docentes de outros Estados da OCDE participantes. Também na Finlândia, onde os resultados são tradicionalmente altos, os salários dos docentes não são dos mais altos.

As aulas e a burocracia

Além da questão das remunerações, as investigadoras recuperaram outros dados (no caso do Talis 2012) que mostram, por exemplo, que os professores portugueses são do que mais acusam excesso de trabalho.

Aqui a análise restringe-se a cinco países e mostra que em Portugal os docentes dizem trabalhar mais de 40 horas por semana. Não acontece em mais nenhum. O que os separa mais de Dinamarca, Irlanda, Polónia e Espanha não é o tempo dedicado a aulas (18 horas por semana), mas aquele que é despendido a “preparar” essas mesmas aulas e a “dar feedback aos alunos”: 14 horas por semana contra uma média de 10.

A estas juntam-se cinco horas de “burocracia e tarefas administrativas”, um valor que praticamente se repete nos outros países, e mais quatro de “outras” tarefas.

O problema é que, apesar das horas dedicadas à profissão, quase metade dizem ser “pouco respeitados pela sociedade”, percentagem que se agrava em Espanha para uns muito elevados 62%. Um em cada quatro docentes portugueses garante ainda nunca ter sido “reconhecido de forma alguma pelo seu trabalho”.

Depois há a questão da disciplina na sala de aula, uma das grandes preocupaç manifestada pelos professores portugueses, sobretudo pelos mais velhos. Entre os cinco países analisados, o “índice de disciplina” - avaliado a partir de perguntas sobre o tempo que esperam até começar a aula, quantidade de interrupções e nível de barulho durante as aulas – é dos mais baixos em Portugal e o mais baixo quando se olha apenas para o que dizem os professores com mais de 50 anos.

“Esta questão deve ser encarada com muita atenção, dado o envelhecimento do corpo docente. Em 2012, 34% dos professores portugueses tinham mais de 50 anos, sendo que, em 2015, essa percentagem aumentou para 39%. Entre os 25 e os 29 anos, a percentagem é inferior a 1% no ensino público.

Portugal tem ainda, dentro deste grupo, a maior percentagem de professores “insatisfeitos”: 13% contra seis por cento na Polónia, por exemplo.

Estes dados reveladores de níveis de insatisfação preocupantes entre a classe foram recentemente confirmados por um grande inquérito a professores conduzido por Joaquim Azevedo, ex-secretário de Estado e investigador na Universidade Católica do Porto.

O que satisfaz um professor

O estudo do aQeduto foi ainda ver quais os factores que levam a professores mais satisfeitos e respeitados e identificou três variáveis chave: “sentir que os alunos aprendem e que fazem a diferença; ter um bom relacionamento com os alunos; conseguir controlar o comportamento em sala de aula”. Por outro lado, concluíram, variáveis como “anos de serviço, idade, reconhecimento formal ou número de horas de trabalho mostraram-se irrelevantes”.

Estes dados são debatidos esta segunda-feira, ao final do dia, no Conselho Nacional de Educação, em Lisboa.