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“Se nada fizermos, o futuro que nos espera não é uma opção”

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Luis barra

Entrevista a Ko Barrett, vice-presidente do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas

Carla Tomás

Carla Tomás

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Luís Barra

Luís Barra

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Ko Barrett esteve em Lisboa para falar sobre o “desafio da descarbonização” no contexto dos cenários projetados pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC). Na conferência, organizada pela Get2C, ontem, em Lisboa, a cientista ambiental falou sobre a possibilidade efetiva de o mundo conseguir travar o aumento médio global da temperatura a não mais de 1,5°C. Em entrevista ao Expresso mostrou-se uma “otimista”.

O Acordo de Paris entra em vigor em novembro. É suficiente para travar as alterações climáticas?
O Acordo de Paris foi um feito histórico enorme. É maravilhoso que entre em vigor mais cedo do que o esperado. Significa que os países o levam muito a sério. Mas este acordo admite que as medidas propostas não são suficientes e são necessários novos passos.

Estão os países comprometidos a dá-los?
Acredito que o processo está no bom caminho. Os objetivos foram definidos e a cada cinco anos vamos avaliar se as medidas são suficientes para manter a subida das temperaturas médias globais abaixo dos 2°C ou mesmo dos 1,5°C. Acreditamos que haverá incentivos para medidas adicionais mais fortes.

Está otimista quanto à descarbonização das economias?
Tenho de ser otimista. Se nada fizermos, o futuro que nos espera não é uma opção.

O que diz o último relatório do IPCC?
Diz-nos que para restringirmos as temperaturas a um aumento não superior a 2°C teremos de reforçar rapidamente as medidas de mitigação. Mesmo assim será necessário reduzir as emissões de gases de feito de estufa (GEE) cerca de 3% ao ano. Mas as emissões continuam a crescer e se esperarmos até 2030 para introduzir medidas mais fortes, teremos de duplicar o corte anual de emissões. Também nos diz que metade dos GEE enviados para a atmosfera desde 1750 foram emitidos só nos últimos quatro anos! É um desafio tremendo reduzir as emissões.

Podemos armazená-las?
Há tecnologia a ser testada que permite capturar ou remover emissões. Alguma é controversa. Também se está a estudar fazer refletir a radiação solar para evitar que incida sobre a Terra. Caberá aos políticos decidir que caminho seguir.

O que espera da conferência de Marraquexe em novembro?
O Acordo de Paris entra em vigor uma semana antes desse encontro, o que o torna mais excitante. Vamos lembrar aos governos que têm de nos fornecer informação científica para podermos concluir o próximo relatório até 2018.

Trabalhou em projetos de adaptação às alterações climáticas. Que retrato nos faz?
As pessoas tendem a adaptar-se aos acontecimentos presentes, perante um fenómeno extremo que vivem, mas é bem diferente pensar na adaptação face às mudanças climáticas futuras. Podemos melhorar a nossa resiliência costeira face a fenómenos como a subida do nível do mar. Mas perante tempestades brutais como as que vivemos recentemente no Haiti é mais difícil adaptarmo-nos, sobretudo nos países em desenvolvimento onde nem sequer têm informação local para perceber como intervir.

Nova Iorque é uma das cidades que nos cenários mais extremos será submersa pela subida do nível do mar. O que está a fazer para se adaptar?
NY é um caso interessante. Há uns anos, o furacão Sandy inundou várias zonas da cidade e em muitos dos edifícios os sistemas de aquecimento, ou de eletricidade estavam localizados nas caves. Foi criada uma comissão para trabalhar na adaptação da cidade às alterações climáticas e uma das medidas foi mudar esses depósitos para andares superiores.

2015 foi o ano mais quente em décadas e os primeiros nove meses de 2016 vão no mesmo sentido. Mas não devemos confundir fenómenos meteorológicos com aquecimento global, certo?
Nos EUA e noutras partes do mundo, 2015 e 2016 foram muito mais quentes, sobretudo devido ao fenómeno El Niño ou a oscilações na atmosfera e nos oceanos. Mas as pessoas não devem confundir alterações climáticas de longo prazo com a variabilidade climática de curto prazo.