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Um museu para Schindler?

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A fábrica que foi cenário central do salvamento de 1200 judeus na Segunda Guerra Mundial pode vir a ser um museu. Pelo menos, é essa a vontade de um escritor checo que quer perpetuar a memória de Oskar Schindler

Na fábrica que foi em tempos de Oskar Schindler, em Brnenec, na República Checa, as ervas e o lixo tomaram conta do edifício. Desde que a empresa fechou portas, em 2009 – quando ainda produzia têxteis para os assentos da Skoda e para a Ikea -, este local histórico encontra-se abandonado à sua sorte. Ninguém diria que ali se abrigaram meio milhar de judeus em 1944, trazidos das fábricas do industrial alemão na Polónia sob o pretexto de serem especialistas em munições.

Foram estes judeus que viriam a integrar a célebre "Lista de Schindler", onde figuram 1200 nomes de judeus "especializados" salvos da morte no campo de concentração de Plaszów. Para manter os seus trabalhadores vivos, Schindler gastou a sua fortuna a subornar oficiais nazis e a comprar produtos de outras empresas, não tendo, em sete meses, produzido um cartucho de artilharia funcional.

Em 2004, era este o aspeto da fábrica de Schindler, em Bnrnenec - ao abandono

Em 2004, era este o aspeto da fábrica de Schindler, em Bnrnenec - ao abandono

Miaow Miaow

Em Brnenec, a mais de 200 km da capital, Praga, não há muita preocupação sobre o fim dado àquele edifício histórico. Mas o escritor Jaroslav Novak tem lutado contra tudo, conseguindo criar uma fundação. Agora, procura financiamento europeu para ali instalar um museu e assim impedir a morte da Memória. "Não podemos simplesmente permitir que a história de Schindler desapareça", afirmou ao jornal britânico "The Guardian". Esta fábrica "é o unico campo de concentração nazi que ainda existe intacto, com o edifício original", defende Novak. Nesta sua luta que já dura há 20 anos, o escritor checo afirma estar finalmente próximo de convencer o Ministério da Cultura da importância de classificar o local como zona protegida. Mas a verdade é que são várias as pedras que querem correr nesta engrenagem...

A mala de Oskar Schindler, com a lista original dos 1200 judeus que salvou durante a Segunda Guerra Mundial

A mala de Oskar Schindler, com a lista original dos 1200 judeus que salvou durante a Segunda Guerra Mundial

© Michael Dalder / Reuters

As razões da discórdia

O primeiro motivo é, como vai sendo habitual, uma questão de números. A estimativa do custo de transformar a antiga fábrica num museu ronda os 5 milhões de euros. Mas o principal problema é outro. É que apesar de Oskar Schindler ser visto como um herói por muitos - incluíndo pelo povo judeu, que lhe atribuiu a honra de ser enterrado no Monte Zion, em Jerusalém, quando morreu em 1974 - , na República Checa o alemão não goza de muita popularidade. Poucos lhe perdoam o facto de ter sido membro do Partido Nazi, de ter espiado para os serviços de inteligência de Hitler, antes da anexação do território, e de ter sido um criminoso de guerra, na opinião de muitos. Por isso, também a casa onde Schindler nasceu (em 1908, em Zwittau, na antiga Áustria-Hungria, atual República Checa) não tem qualquer placa ou memória a marcar o seu nascimento – porque o dono do prédio não o permite. Existe apenas uma pequena placa do outro lado da rua, que foi vandalizada com uma cruz suástica após ter sido inaugurada.

Apesar de ter salvo milhares de vidas de judeus, Schindler não é uma personalidade isenta de polémica. Enquanto membro do Partido Nazi e empresário que beneficiou da guerra, foi obrigado a fugir do Exército Vermelho aquando da libertação. Mas depois da guerra, quando regressou à Alemanha Ocidental, foi ajudado financeiramente por várias organizações judaicas. Depois de parcialmente reembolsado pelas suas despesas de guerra, mudou-se com a mulher, Emilie, para a Argentina, onde se dedicou à agricultura.

A viúva de Oskar Schindler, Emilie Schindler. Após o fim da guerra, o casal foi para a Argentina, onde se dedicou à agricultura

A viúva de Oskar Schindler, Emilie Schindler. Após o fim da guerra, o casal foi para a Argentina, onde se dedicou à agricultura

DANIEL GARCIA

Contudo, esse negócio não correu bem e Schindler foi à falência. Nessa altura, voltou à Alemanha, onde tentou vários negócios - nenhum com sucesso. Valeu-lhe o apoio financeiro dos "seus" judeus" - os "SchindlerJuden" (Judeus de Schindler) - que ele ajudara a salvar. Faleceu em 1974. Hoje, quatro décadas volvidas, continuará a memória histórica de Schindler a ser preservada?