Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Este é o meu corpo

  • 333

Na Cybathlon, há corridas de exosqueletos, computadores comandados pela mente e tarefas domésticas executadas com próteses eletrónicas. A primeira edição do evento dedicado a tecnologias de reabilitação é hoje e já garantiu honras de TV

Quem vai de Bédoin para o cume do monte Ventoux tem pela frente uma rampa de 21 quilómetros, com inclinações que chegam a 8,9%. Entre os entusiastas da Volta a França o percurso é conhecido por Monstro da Provença. Até a Wikipédia confirma que o epíteto não foi escolhido por má vontade: em 1970, Eddy Merckx arrebatou a vitória numa etapa do Tour, escapando por pouco ao colapso físico; nas imediações, há um memorial que recorda a morte por exaustão do ciclista Tom Sympson nos anos 60. Um profissional demora pouco mais de uma hora a fazer o percurso. E um amador poderá demorar mais de duas. Vance Bergeron pode ser amador, mas não está disposto a deixar de ser ciclista — mesmo depois de uma colisão com um automóvel o ter deixado tetraplégico enquanto pedalava rumo à Escola Nacional Superior de Lyon (ENSL). O acidente impediu-o de fazer a mítica subida nos últimos três anos, mas Bergeron, de 53 anos, não pretende esperar muito mais: “O meu objetivo é voltar a subir o monte Ventoux no próximo ano.” Antes dessa ousadia, Bergeron terá uma primeira prova de fogo: tirar um bom resultado na Cybathlon, que arranca este sábado, perto de Zurique, Suíça.

“Na Cybathlon, vou competir com um triciclo de fibra de carbono, que é muito leve e pode ser comparado a um Fórmula 1. Para o monte Ventoux teremos de desenvolver outro tipo de triciclo”, explica o investigador da ENSL.

Bergeron é o único tetraplégico a disputar a modalidade de velocípedes que se movem através da estimulação elétrica dos músculos das pernas. Mas esta não é a única diferença que apresenta face à concorrência: “Sou provavelmente o único líder de equipa que também vai competir na Cybathlon.” Na larga maioria dos casos, as equipas da Cybathlon são compostas por pessoas sem deficiências físicas nas funções de engenharia e investigação e os concorrentes, que têm as limitações motoras, são apresentados como “pilotos”, num intuito claro de colocar a tecnologia no primeiro plano — e de se distinguir face a outras competições.

Tecnologias para o dia a dia

Apesar da vertente competitiva, qualquer tentativa de comparação com as Paralimpíadas dificilmente escapará a uma emenda dos organizadores. Nas Paralimpíadas, os concorrentes têm como principal objetivo serem mais rápidos ou ágeis em modalidades, em grande parte, decalcadas dos Jogos Olímpicos. Na Cybathlon, os pilotos ganham ou perdem consoante o desempenho na realização de tarefas do quotidiano.

“O nosso objetivo não é ter concorrentes mais rápidos, mas antes contribuir para o desenvolvimento das tecnologias que podem ser úteis para pessoas com deficiências. Criámos este evento com o propósito de levar pessoas da engenharia a juntarem-se com as pessoas que têm limitações, para criarem coisas novas”, explica Robert Reiner, investigador do Instituto de Tecnologia de Zurique (ETHZ) e principal mentor da Cybathlon.

Mais do que um escaparate comercial, a Cybathlon pretende servir de mostra das diferentes tendências e abordagens nas tecnologias de reabilitação. Quantas das inovações apresentadas pelas mais de 70 equipas de engenheiros e cientistas que estão presentes no certame chegarão ao mercado? A questão não é de resposta fácil: a maioria dos participantes trabalha em laboratórios e universidades, que até poderão não dispor dos recursos necessários para criar um produto capaz de dar resposta aos requisitos técnicos do sector da saúde. E mesmo nas empresas participantes, há startups que estão longe de terem garantido um lugar consolidado no mercado. Resultado: mesmo dentro de cada uma das disciplinas, há diferenças notórias na forma de usar as tecnologias ou de superar os diferentes desafios.

“Não fomos os primeiros a criar um exosqueleto, mas estamos, seguramente, no grupo dos 20 primeiros que o fizeram. Neste momento, não faz sentido criar standards, porque ninguém está em posição de dizer qual deverá ser o standard a seguir. A configuração de um exosqueleto depende muito da pessoa que o usa. Um exemplo: há pessoas que usam a função de autotrigger para que as pernas do exosqueleto se movam sem parar, mas há outras que preferem carregar no botão para dar cada um dos passos”, refere Patrick Pfreundschuh, investigador do ETHZ, que faz parte da equipa Varileg.

A idade, o período vivido com deficiência física e o tipo de lesão de cada utilizador dificultam o desenvolvimento de soluções universais, que servem para todos os utilizadores, mas também podem ter influência no desfecho das competições: “Seria uma honra a Rewalk ganhar a corrida de exosqueletos, mas não podemos esquecer que vamos participar com uma solução desenhada para corresponder aos requisitos definidos por médicos e autoridades de saúde, enquanto a maioria das equipas pode fazer uma solução à medida de cada piloto”, explica Andreas Reinauer, um dos pioneiros do desenvolvimento de exosqueletos, que trabalha para a empresa alemã Rewalk.

À espera das audiências

Na organização, há a intenção de fazer da heterogeneidade tecnológica um atrativo para as audiências. Para o dia da competição são esperadas oito mil pessoas na Swiss Arena de Klote, arredores de Zurique. Robert Riener acredita que as transmissões em direto no site do evento e em dois canais de TV (um na Áustria e outro na Suíça), juntamente com a presença de “centenas de jornalistas”, vão acabar por dar a visibilidade a um evento que, além de estar na primeira edição, ainda tem de superar a estranheza ou o preconceito do público. Até agora, não há razão para não continuar a alimentar o otimismo: “Foi muito mais fácil encontrar apoios do que pensávamos inicialmente”, refere o organizador da Cybathlon.

E conseguirão as tecnologias cativar a larga maioria que não padece de nenhuma limitação física? Patrick Mayrhofer, piloto que a empresa austríaca Ottobock designou para as próteses de braços e mãos que interpretam os impulsos elétricos dos músculos, responde com base na experiência pessoal: “Se andar na rua de T-shirt, a maioria das pessoas limita-se a olhar. Há algumas que ficam a olhar fixamente e há ainda outras que perguntam mesmo como é que a prótese funciona.”

Ao contrário das corridas de exosqueletos ou do controlo de videojogos através de ondas cerebrais, as próteses elétricas para pessoas com braços amputados não são propriamente uma novidade. Nos últimos 40 anos, diferentes marcas têm criado soluções que permitem recuperar parte das funções hoje executadas por braços ou mãos. A miniaturização dos componentes informáticos promete manter a evolução em ritmo acelerado: “A grande mudança chegou com os microcontroladores. Tornou-se possível abrir e fechar os dedos com maior ou menor velocidade, ou com maior ou menor força, de uma forma parecida à das mãos humanas”, explica.

Patrick Mayrhofer sabe que pertence a uma minoria dentro da própria minoria que vive com membros amputados: “A prótese que eu uso tem o mesmo custo de um bom carro.” Nos exosqueletos, o custo pode superar os 100 mil euros, já incluindo três meses de treino. Não haverá muita gente no mundo que consiga comprar estas soluções mais evoluídas. O que poderá significar que é chegada a hora de o mercado se adaptar: “Alguns seguros já contemplam os custos destas soluções e já há tribunais a darem razão aos consumidores que exigiram a comparticipação dos seguros”, refere Andreas Reinauer, numa breve descrição da forma como o sistema de saúde alemão tem vindo a encarar a chegada dos exosqueletos.

Robert Riener recorre às estimativas oficiais para dar uma ideia do que as tecnologias de apoio a deficientes podem vir a valer: “No mundo há 65 milhões de pessoas que andam de cadeiras de rodas. Nos EUA, há mais de dois milhões de pessoas com membros amputados.”

Como é típico nas tecnologias, grande parte do negócio gerado por este filão reside na capacidade de apresentar uma inovação que torna as antecessoras obsoletas. “O objetivo é criar exosqueletos que permitam substituir as cadeiras de rodas. Talvez se consiga alcançar esse objetivo no futuro, com novos materiais ou eletricidade sem fios. Já todos fomos surpreendidos com coisas nos filmes de ficção científica que considerávamos muito futuristas e que depois aparecem no mercado pouco depois”, sublinha Andreas Reinauer.

Acelerar o futuro

Se dependesse de Patrick Mayrhofer, o desenvolvimento das próteses de mãos já teria há muito duas prioridades estabelecidas: “Estas próteses ainda não são à prova de água. Seria bom que fossem, para se poder usá-las no duche. Além disso, o funcionamento das próteses tem de deixar de estar restringido a uma lógica sequencial. Se eu quiser agarrar um coisa e rodar a mão ao mesmo tempo, não consigo. Tenho de pensar de forma a que a prótese agarre o objeto e só depois posso pensar em levar a mão a rodar”, acrescenta o jovem austríaco, que hoje trabalha como formador de outras pessoas que pretendem usar próteses eletrónicas.

Enquanto não chegam as inovações mais auspiciosas, engenheiros, médicos e utilizadores aprendem a lidar com os benefícios que as tecnologias introduzem. Através da amostra de mais de 100 clientes, a Rewalk apurou como alguns minutos de uso diário de exosqueleto podem ser suficientes para reduzir a incidência de escaras na pele que está em permanente contacto com as cadeiras de rodas. Também há relatórios médicos que dão conta da melhoria da circulação sanguínea e da redução da taxa de incidência de dores e infeções urinárias. “E há também um efeito social importante. As pessoas, quando estão no exosqueleto, podem estar ao mesmo nível das outras e passam a poder vê-las cara a cara”, acrescenta Andreas Reinauer.

Na Rewalk, também há projetos que pretendem desenvolver versões de exosqueletos mais leves para idosos, ou pessoas com força ou resistência diminutas, ou que se encontram em fase de reabilitação. Andreas Reinauer admite que os fabricantes de exosqueletos também poderão vir a apostar no desenvolvimento de soluções para militares ou operários, que executam tarefas repetitivas ou lidam com pesos diariamente. “Para já, estamos focados em equipamentos médicos, mas sabemos que há outros mercados e sabemos como aplicar as tecnologias se o negócio tiver potencial”, refere.

Super-homens ou trans-humanos?

Em 1989, Fereidoun M. Esfandiary alcança o auge da corrente filosófica que defende o uso das tecnologias para superar os limites do corpo humano com a publicação do livro “Are You a Transhuman?: Monitoring and Stimulating Your Personal Rate of Growth in a Rapidly Changing World”. Por essa altura, os propósitos do trans-humanismo já estavam bem demarcados, mas a tecnologia tardava em satisfazer as previsões mais arrojadas. E nem o otimismo do filósofo de origem iraniana, que mudara de nome para FM-2030 com a convicção de que a evolução tecnológica haveria de lhe proporcionar 100 anos de vida, impediu um desfecho fatal: no ano 2000, FM-2030 sucumbiu a um cancro no pâncreas. A morte não lhe traiu os intentos na totalidade. FM-2030 está atualmente conservado numa câmara de criogenia, na esperança de que a tecnologia encontre forma de lhe devolver a vida no futuro.

Na Cybathlon, as tecnologias estão no centro destas duas possibilidades: reabilitar quem precisa ou dar maior capacidade a quem já é capacitado? A resposta está longe de ser encontrada. Robert Riener acredita que a evolução antevista pelos trans-humanistas dos meados do século 20 possa concretizar-se dentro de 20 ou 50 anos. “Penso que as pessoas têm direito a escolher as tecnologias que querem usar, desde que sejam seguras”, defende o mentor do Cybathlon.

Tal como Riener, Patrick Pfreundschuh também é investigador do ETHZ, mas tem uma opinião diferente sobre o trans-humanismo: “Sim, esta tecnologia também pode ser útil para determinadas profissões, mas não é esse o objetivo do nosso projeto. Trabalhamos num laboratório de reabilitação. É mais interessante pôr alguém a andar do que tornar alguém mais forte.”

Enquanto a corrida às tecnologias segue o caminho com maiores ou menores desvios filosóficos, Vance Bergeron mantém os treinos de uma hora em cinco dias da semana. A Cybathlon ainda não fez soar nenhum tiro de partida, mas o piloto e chefe de equipa da ENSL já pode reclamar as primeiras vitórias. Recentemente, recuperou a transpiração nas costas devido aos treinos. “Quando treino não sinto nenhuma dor, mas fico cansado e volto a sentir os músculos das pernas como sentia antes (de ficar tetraplégico).” Na pista da Swiss Arena assim como no monte Ventoux, sabe que o corpo, mesmo inerte, também lhe reserva surpresas.