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Atravessámos Portugal de lés a lés num carro elétrico: é possível, mas não é (nada) fácil

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Ligámos Valença, junto ao Rio Minho, a Albufeira, no Algarve. Um percurso de 700 km ao volante de um Nissan Leaf que provou que já é possível fazer viagens (muito) longas num veículo elétrico. Mas (ainda) é preciso planeamento, sorte e paciência para usar um carro totalmente elétrico - que no entanto será usual num futuro próximo. Ainda esta semana, o Conselho Federal alemão aprovou uma resolução para banir a venda de carros com motores de combustão a partir de 2030

O objetivo: ligar a fronteira norte, junto ao Rio Minho, com a fronteira sul, junto ao Atlântico, num carro elétrico com um preço típico de um familiar para a classe média. O escolhido natural foi o Nissan Leaf, o elétrico mais popular do mercado nacional… se não contarmos com as máquinas operadas pela Carris.

Quando discutimos a ideia internamente, surgiram as dúvidas e comentários habituais quando se fala de veículos elétricos: “mas isso não faz menos 100 km?”; “os carregamentos não duram muitas horas?”; “vamos ter de andar a 50 km/h”; “o melhor é levarmos o contacto do reboque…”. Ideias preconcebidas e ultrapassadas. Depois de termos ensaiado vários veículos elétricos, sabemos que estes carros são rápidos – na verdade, aceleram bem mais depressa que os automóveis tradicionais equivalentes –, já apresentam autonomias consideráveis e as baterias modernas podem ser carregadas em minutos… Isto é, quando há rede para o efeito.

Postos de carga rápida: ainda raros, mas essenciais

Mas algumas das ideias associadas aos elétricos continuam válidas. Numa tomada elétrica doméstica comum e nos postos da MOBI.E, normalmente em mau estado, que vemos nas ruas das cidades e vilas de Portugal, o tempo de carga é medido em várias horas. A autonomia, apesar de ter vindo a aumentar, é ainda limitativa (entre 150 e 250 km nos automóveis elétricos mais populares). Fatores incompatíveis com uma viagem de 700 km. Pelo menos se não quisermos demorar dias a atravessar o país. O que significa que a viagem só se torna prática se recorremos aos postos de carga rápida (PCR). Aliás, foram estes postos que em Maio nos permitiram fazer a viagem Lisboa-Porto-Lisboa num único dia, como pode ver AQUI.

Os seis PCR recentemente abertos na A2, a autoestrada que liga Lisboa ao Algarve, e na A22 (Algarve) foram decisivos para avançarmos com esta experiência. Nestes postos é possível carregar 80% da bateria do Nissan Leaf em 30 minutos. Na prática, como raramente chegamos às bombas com o “depósito” vazio, isto significa que em 15/20 minutos podemos conseguir carga suficiente para continuar viagem graças à potência de carga que atinge os 50 kW (quilowatts).

Mas havia um problema à partida. O PCR público mais a norte está na área de serviço de Pombal, na A1, a autoestrada que liga Porto a Lisboa. Ora, de Valença a Pombal por autoestrada são cerca de 250 km. Claramente mais do que a autonomia real da maioria dos veículos elétricos. No caso do Leaf que usámos, a bateria com capacidade de 30 kWh (quilowatts hora) anuncia, precisamente, uma autonomia máxima de 250 km. Mas para atingir este valor é preciso circular a velocidades muito reduzidas, incompatíveis com as autoestradas. Em condução real, mesmo que cuidada, a autonomia expectável é de 200 Km, ou mesmo menos.

Sabíamos de experiências anteriores que os clientes da Nissan podem recorrer a um PCR existente num concessionário da marca no Porto mas, aquando do planeamento, fomos informados que este posto está em más condições, consequência da utilização frequente e da falta de manutenção. Não quisemos arriscar e procurámos uma alternativa. Foi o Centro para a Excelência e a Inovação na Indústria Automóvel (CEiiA), em Matosinhos, que nos abriu a porta para podermos fazer a ligação entre Valença e Pombal sem risco de ficarmos sem bateria.

A nossa viagem não teve qualquer custo energético. Saímos de Valença depois das 9h com a bateria carregada a 100%, carga feita durante a noite no parque do hotel onde pernoitámos. Por recomendação de um condutor de veículos elétricos, optámos pela A28, porque esta autoestrada tem menos desnível acumulado do que a A3, o que garante consumos menores. A segunda paragem foi, como indicado, no CEiiA, em Matosinhos, onde chegámos ainda com quase metade da bateria. Bastou menos de 15 minutos para a bateria ficar totalmente carregada e podermos partir para a A1 e para o carregamento seguinte, na área de serviço de Pombal.

Em autoestada, recorremos ao cruise control para manter a velocidade nos 90 km/h, de modo a conseguir o melhor equilíbrio entre consumo e velocidade. Mas em muitas partes do percurso sentimos necessidade de aumentar o ritmo para 100 km/h, para evitar atrapalhar o trânsito – a 90 km/h, até os camiões e autocarros nos ultrapassavam, o que podia criar algum perigo nos troços com apenas duas faixas de rodagem, já que obrigava os carros, muitos em excesso de velocidade, a abrandar bruscamente.

A chegar à área de serviço de Pombal fomos surpreendidos por um género de comissão de boas-vindas composta por dois associados da UVE, Pedro Isidoro e João Soares, que, trajados a rigor com t-shirts da associação, nos esperavam para contar todas as virtudes de se conduzir um veículo elétrico no dia a dia. Para estes dois fãs da mobilidade elétrica, que tomaram conhecimento da nossa aventura através das redes sociais, “depois de se experimentar as vantagens de um veículo elétrico dificilmente se volta para os motores de combustão”.

Planear, planear…

Depois de Pombal, carregámos a bateria nas estações de serviço de Aveiras (A1) e Aljustrel (A2). Os tempos de carregamento foram maiores porque os percursos entre as paragens aumentou, o que fez com que chegássemos às áreas de serviço com menos bateria e também porque o aquecimento da bateria do Leaf leva à diminuição da potência aplicada durante o carregamento (automatismo para proteção das células onde fica armazenada a energia). Aliás, em Aljustrel chegámos na “reserva”, com uma autonomia restante de pouco mais de 20 km, e esperámos quase uma hora para “encher” a bateria.

Chegámos ao destino, Albufeira no Algarve, pelas 21h30. Doze horas e meia depois da partida. Mas, para sermos justos, temos de retirar deste total cerca de 45 minutos em que estivemos a recolher imagens em Vila Nova de Cerveira (para o Exame Informática TV), junto ao Rio Minho, e a 1h45 a mais que estivemos no CEiiA, depois de a bateria já ter carregado, para conhecer alguns dos projetos deste centro de desenvolvimento.

O que significa que o tempo total efetivo da viagem (tempo a circular mais tempo de carregamento) foi de cerca de 10h30 horas. Umas 4h00 a mais do que se tivéssemos feito a mesma viagem num carro tradicional utilizando as velocidades máximas permitidas por lei.

Vale a pena?

Há várias formas de analisar estes tempos. Por exemplo, considerando que esta é uma viagem cansativa (quase 700 km), é provável que, mesmo num veículo convencional, se optasse por parar para descansar e/ou tomar uma refeição, o que diminuiria significativamente a diferença de tempo nos dois tipos de carro. Mas não há como fugir deste facto: fazer viagens longas num veículo elétrico em Portugal ainda exige muito planeamento, de modo a garantir que não ficámos sem bateria pelo caminho, e a utilização de velocidades médias abaixo daquelas a que estamos habituados a usar na autoestrada. Na realidade, a viagem só foi possível graças a um posto de carregamento rápido que nem está disponível ao público.

Uma coisa é certa: durante a viagem, o Nissan Leaf não emitiu um única grama de gases tóxicos para a atmosfera e não gastámos um cêntimo em combustível. Dois fatores que fazem toda a diferença.

No global, depois desta experiência não podemos dizer que os automóveis elétricos atuais, pelo menos deste segmento, sejam uma boa solução para viagens tão longas como a que fizemos. A penalização do tempo é ainda muito grande e nem sequer tivemos o “azar” de encontrar carros à carga nos postos usados, o que já acontece com alguma frequência e aumentaria muito o tempo de espera.

Por outro lado, como já tínhamos concluído em experiências anteriores, os veículos elétricos mais recentes, com autonomias reais próximas dos 200 km, já podem ser uma solução completa para famílias que são fazem viagens longas ocasionalmente – e os dados provam que esse é o caso da grande maioria das famílias. Ou seja, os automóveis elétricos já não devem ser vistos apenas como "segundos carros". Sobretudo porque a rede PCR está a aumentar.

O renascimento da MOBI.E

As críticas à falta e ao estado dos postos de carregamento são muito comuns nos fóruns dedicados à mobilidade elétrica e nas redes sociais. O que, segundo José Mendes, Secretário de Estado Adjunto e do Ambiente, vai mudar. Em declarações ao Expresso, o governante confirmou que “está previsto, até ao final do ano, a instalação de pontos de carregamento no corredor Lisboa-Porto, (A1 e A8) e a instalação no corredor das beiras (A25 e A23 – Abrantes-Castelo Branco, Guarda-Viseu).” Ou seja, trata-se de apenas uma parte dos 44 PCR que ainda faltam instalar para o Governo dar por concluída a rede piloto de carga rápida, que “pretende cobrir, em termos de autonomia média dos veículos, todo o território nacional, garantindo que a presença de pelo menos um carregador rápido em locais estratégicos.”

José Mendes informa ainda que a rede já instalada vai ser submetida a reparações e melhorias: “Em agosto a MOBI.E apresentou duas candidaturas. Uma para modernizar a atual rede, que entre outras operações irá promover o upgrade de 100 postos normais para postos semirrápidos e a modernização através da alteração para fichas normalizadas pela EU de toda a rede atual. A segunda candidatura irá permitir a presença da rede de carregamento pública em todos os municípios do território nacional com a instalação de 404 pontos de carregamento semirrápido (22 kW) nos municípios que não dispõem de rede de carregamento pública. Trata-se, nesta fase, de um investimento de cinco milhões de euros”.

A MOBI.E está em grandes mudanças, como salienta Henrique Sánchez, presidente da Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos (UVE), que adianta que a entidade que gere a rede pública de postos de carga “está a preparar um novo site e um novo call center para conseguir responder eficientemente aos pedidos dos utilizadores de veículos elétricos”, relembrando que “atualmente não há qualquer capacidade de resposta”. Conhecido por todos os adeptos da mobilidade elétrica, Henrique Sánchez diz-se “otimista relativamente ao que está a ser feito”, embora acredite que “existem muitas pressões para que isto ande devagarinho, a começar pelo próprio Estado, que tem uma fonte importante nos impostos sobre o petróleo, e até os concessionários que vêm o sucesso dos veículos elétricos como uma ameaça ao lucro”. Ao fim, de contas, relembra o entusiasta da mobilidade elétrica, “os veículos elétricos exigem muito menos manutenção e têm menos problemas técnicos que os veículos com motor a combustão”.

Rede inteligente

Mas enquanto os PCR prometidos pelo Secretário de Estado não são instalados, a única hipótese, na zona norte, é recorrer a postos privados. É no centro de investigação e de engenharia do CEiiA que está a ser desenvolvida parte da tecnologia que vai permitir modernizar a rede. André Dias, líder da unidade do CEiiA dedicada à mobilidade e sistemas inteligentes, informou-nos que “vai ser possível usar os postos de carga sem cartão, recorrendo a uma app para smartphone, o que vai permitir, por exemplo, que um turista possa carregar o veículo elétrico facilmente”. A expectativa é que com o fim do projeto piloto surjam empresas privadas interessadas em assumir o investimento da instalação e exploração comercial dos postos num sistema que Henrique Sánchez compara à rede Multibanco: “no futuro, os diferentes operadores vão poder utilizar a mesma rede, oferecendo aos clientes as condições que entenderem, o que vai, espero eu, animar o mercado e criar competitividade”. “É fácil de imaginar que empresas como a EDP ou a Sonae possam criar condições apelativas para os seus clientes”, acrescentou.

Viagem grátis, exceto portagens

Os carregamentos são grátis desde que a rede MOBI.E foi instalada, o que se deverá manter até pelo menos ao final deste ano. Henrique Sánchez acredita que há vantagens importantes para a economia e para o ambiente que se mantenha ou até se reforce a discriminação positiva, relembrando o que acontece na Noruega “onde os veículos elétricos não pagam energia, estacionamento ou portagens, o que fez com que um terço dos carros vendidos neste país já sejam elétricos”.