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Nova Iorque, Londres, Milão e Paris. A volta ao mundo da moda portuguesa em quatro paragens

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MONTRA. Miguel Vieira foi um dos dois designers portugueses a apresentar-se na semana de moda de Nova Iorque

MIKE SERGEANT

Pela primeira vez, criadores nacionais desfilaram as suas propostas nas quatro mais importantes capitais da moda. O Expresso acompanhou o roteiro internacional do Portugal Fashion e foi tentar perceber se os mais de 3 milhões de euros de investimento estão a dar frutos. Volta ao mundo das fashion weeks em quatro etapas e 10 mil quilómetros

Nelson Marques

Nelson Marques

em Nova Iorque, Londres, Milão e Paris

Jornalista

Advertência: Ceci n'est pas un reportage sur la mode. Esta não é uma reportagem sobre moda. Ou melhor: este não é um texto sobre roupa. Aqui não se fala de tecidos, cores ou padrões. De coordenados, plissados ou coleções. De tendências para a próxima estação. A roupa é o que menos interessa, porque esta é uma reportagem sobre quem cose as linhas da moda portuguesa e sobre um projeto, o Portugal Fashion, que veste a camisola das criações nacionais para as ajudar a saltar fronteiras. Aperte o cinto, vamos entrar numa zona de alguma turbulência.

No tempo do Concorde, uma viagem entre Nova Iorque e Paris ou Londres fazia-se em menos de 3h30. Foi num desses aviões que, há 21 anos, a alemã Claudia Schiffer, arquétipo da mulher perfeita dos anos 90, viajou para a Cidade Luz e depois apanhou uma ligação para o Porto, para ser a grande protagonista da primeira edição do Portugal Fashion. Chegou depressa e desapareceu dos olhares públicos quase como num número de magia de David Copperfield, seu namorado da época. Desfilou seis vezes e partiu de bolsos cheios: 100 mil dólares, o equivalente agora a cerca de 140 mil euros, considerando a inflação.

Hoje, o jato supersónico é peça de museu e Schiffer, o avião germânico, goza uma reforma dourada, com algumas aparições esporádicas. O dinheiro do Portugal Fashion já não vai para trazer a Portugal supermodelos como Helena Christensen, Carla Bruni ou Elle Macpherson, que também marcaram presença na primeira edição do evento, mas antes para levar a moda portuguesa até ao mundo. Vai-se mais devagar, mas tenta-se chegar mais longe. Como a Nova Iorque, por exemplo.

ETAPA 1: NOVA IORQUE, 12 e 13 DE SETEMBRO

No tempo do Titanic, a viagem inaugural do grande navio transatlântico entre Southampton e a Big Apple devia demorar uma semana. Se não tivesse naufragado, teria ancorado no Pier 59, na margem do rio Hudson, zona oeste de Manhattan. Agora, o cais é um estúdio de fotografia com mais de 9000 m2 onde são realizadas várias campanhas de moda e onde, em cada estação, desfilam as coleções de alguns designers. Desta vez, o espaço enche-se com quase meio milhar de pessoas bonitas e bem vestidas, sem vestígios de alguns cromos alienígenas que se exibem nos corredores da Moda Lisboa. Estão aqui para ver as propostas da luso-venezuelana Katty Xiomara e do sanjoanense Miguel Vieira para a primavera-verão do próximo ano.

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É um regresso dos criadores nacionais à New York Fashion Week, quinze anos depois da última presença num dos mercados mais importantes da indústria. O momento assinala um marco no roteiro internacional do Portugal Fashion: é a primeira vez que o projeto está presente, na mesma temporada, nas quatro capitais da moda – Nova Iorque, Londres, Milão e Paris. "Este é o local onde tudo é possível, basta haver trabalho e determinação em vencer. Fatores que, de resto, o Portugal Fashion e os criadores e marcas que apoiamos têm em doses generosas", refere João Rafael Koehler, presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE), que promove o projeto em parceria com a ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, com o apoio de fundos comunitários.

O Portugal Fashion investiu quase meio milhão de euros do seu orçamento anual (cerca de 4,3 milhões) para levar os dois designers até à Big Apple , uma escolha que procura seguir uma estratégia "fit to market": eleger os criadores que melhor encaixam em cada mercado. Para Katty Xiomara é um regresso à cidade, depois da presença em quatro estações consecutivas, entre setembro de 2013 e fevereiro de 2015. A primeira oportunidade, há três anos, surgiu através de um contacto estabelecido numa feira em Las Vegas, a Project. "Há algum tempo que procurávamos apresentar as coleções a nível internacional e surgiu a possibilidade de o fazer utilizando uma plataforma independente criada para designers emergentes".

Entrar num mercado como o americano, concorrendo com marcas de prestígio mundial, não é fácil, mas a aposta começa lentamente a dar frutos: a marca já está presente em cerca de 50 pequenas boutiques espalhadas pelo país. "Os resultados dificilmente são refletidos a curto prazo, é necessário persistência e paciência. O mais difícil é dar continuidade. Temos de estar sempre presentes em feiras, apresentações, desfiles, e investir em publicidade, para não falar do acesso a determinados patamares da indústria só possível através de um constante trabalho de relações públicas".

A designer, que também já se apresentou em Paris e Madrid, tinha estado em fevereiro em Nova Iorque a apresentar a sua coleção para o outono-inverno deste ano, mas em formato showroom. A ação decorreu na feira Edit e contou com o apoio do Next Step, o braço comercial do Portugal Fashion, lançado no final do ano passado. A aposta, que visa dar valor económico à presença nas principais passerelles internacionais, é reforçada por um programa intensivo de preparação e acompanhamento de criadores e marcas, com especial enfoque nos mais jovens.

Miguel Vieira está habituado a acumular milhas para apresentar as suas coleções – esteve na primeira internacionalização do Portugal Fashion, na São Paulo Fashion Week, em 1999, e já se apresentou em Paris, Milão, Madrid, Barcelona, Istambul, Montevideu, Lodz e Maputo. Esta é, porém, a sua estreia na semana de moda de Nova Iorque, apesar do mercado ser familiar para o criador de São João da Madeira: há dois anos, a sua coleção para criança chegou aos EUA, depois de ter sido contactado por agentes locais durante uma feira em Milão, a Pitti Bambino. Hoje tem cinco agentes no país e recebeu até o empurrão do clã Kardashian, quando uma das t-shirts da sua coleção foi usado por Mason, filho de Khloe Kardashian e sobrinho de Kim.

Já voltaremos às Kardashians. Antes um regresso ao passado. Na primeira vez que os criadores nacionais se apresentaram em Nova Iorque as Torres Gémeas ainda estavam de pé. Foi em setembro de 2000 que o Portugal Fashion levou 55 pessoas às tendas improvisadas no Bryant Park para ver os desfiles de oito designers portugueses (incluindo Ana Salazar, a dupla Alves/Gonçalves, Luís Buchinho e Anabela Baldaque) na então designada 7th on Sixth (trocadilho que evocava os 7 dias da semana de moda, mas também a Sétima Avenida, a Fashion Avenue, que naqueles dias de mudava para a vizinha Sexta). Eram os tempos das vacas gordas, dava para tudo, até para instalar a comitiva toda no Paramount, um dos hotéis mais icónicos da cidade.

O então ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama, fez questão de assistir aos desfiles acompanhado pela mulher e pelos embaixadores António Monteiro e João Salgueiro, bem como a própria presidente da semana de moda, Fern Mallis. A jornalista Elsa Klensch, da CNN, também se sentou na primeira fila e mostrou as imagens das criações portuguesas no seu "Style With Elsa Klensch". Ana Salazar foi até falada no canal de celebridades E! Television.

A PRIMEIRA VEZ. Desfile da dupla Alves/Gonçalves na semana de moda de Nova Iorque, em 2000

A PRIMEIRA VEZ. Desfile da dupla Alves/Gonçalves na semana de moda de Nova Iorque, em 2000

FOTO PORTUGAL FASHION

No final dos desfiles, entre taças de champanhe, os designers portugueses eram procurados por compradores dos reputados armazéns Bloomingdales, Neiman Marcus ou Bergdorf Goodman. "Na altura ainda não estava preparado para dar resposta a compradores internacionais", recorda Luís Buchinho. "Foi excelente para o mercado americano tomar consciência da moda portuguesa, mas para ter efeitos a nível comercial teríamos de ter continuado a apresentar e a nível individual. Optámos na altura por fazê-lo em Paris".

O projeto de promoção da imagem de Portugal como país produtor de moda previa o investimento de 900 mil contos (4,5 milhões de euros, não considerando a inflação) para realizar cinco desfiles, em Paris (dois), São Paulo, Nova Iorque e Londres. A segunda fase passava pela aposta em dois mercados – Paris e Nova Iorque – com desfiles nas duas temporada e abertura de lojas Portugal Fashion, mas o projeto só voltaria mais uma vez aos EUA, em fevereiro de 2001. "Tentámos regressar várias vezes, mas o mercado não era elegível para financiamento comunitário e era um investimento elevado para se materializar apenas com investimento privado", justifica o presidente da ANJE.

Quinze anos mudam muita coisa. A semana de moda deixou o Bryant Park e mudou de nome: chama-se agora New York Fashion Week. A Maconde, que marcou presença em Nova Iorque e que vendia dois milhões de contos [10 milhões de euros não considerando a inflação] de fatos por ano para os EUA fechou portas uma década depois. Ana Salazar foi obrigada a abandonar a marca com o seu nome e tenta agora reerguer-se, aos 75 anos. Só o hotel Paramount se manteve o mesmo, mas desta vez recebeu apenas 20 portugueses, incluindo 11 jornalistas. "O mundo mudou e o universo da moda acompanhou essa mudança", explica Koehler. "Vejam-se, por exemplo, as topmodels, que marcaram a génese do Portugal Fashion. Esse conceito desapareceu por completo. Há 15 anos seria impensável a moda portuguesa estar nas principais semanas de moda mundiais".

ETAPA 2: LONDRES, 18 DE SETEMBRO

Quatro dias depois de aterrar em Lisboa, quase sem tempo de recuperar do "jet lag", a comitiva do Portugal Fashion está de novo em trânsito, agora rumo a Londres. O ponto de encontro é o luxuoso hotel The London Edition, inaugurado há três anos precisamente durante a semana de moda. É no piso subterrâneo, num club ao estilo do Studio 54 (um dos fundadores do hotel, Ian Schrager, também criou a famosa discoteca na Broadway) que decorre a apresentação de Alexandra Moura, uma designer que fechou este ano a sua loja no Príncipe Real, em Lisboa, (onde mantém o atelier) para se focar na internacionalização da marca.

Passa pouco das oito da noite e o ambiente é o de uma discoteca, com gente a dançar de copo na mão. Se não parece um desfile, é porque não é. Na sua segunda apresentação consecutiva na London Fashion Week, a designer optou por prescindir da tradicional passerelle e substituiu-a por uma festa com curadoria da conceituada revista "Wonderland Magazine". A decisão, explica Moura, segue a nova tendência do sector da moda de criar formas mais interativas e intimistas de apresentar as coleções. "É algo que os designers e as marcas estão a fazer muito agora. É também uma forma de associarmos a nossa marca a algo contemporâneo".

Na sala, ouve-se Rihanna, Drake, Beyoncé e Prince, mas o disco muda quando oito manequins sobem a um pequeno estrado e ficam ali paradas, feitas estátuas, durante alguns minutos. "Adoro os sapatos", comenta uma das convidadas. No intervalo da perfomance, o palco, que mais parece uma estufa tal o número de plantas que tem, é tomado de assalto por Maad, uma ex-modelo nova-iorquina que se lança agora numa carreira a solo como cantora e que faz questão de soletrar o nome várias vezes, para que ninguém o esqueça. Não era necessário porque a atuação da artista, vestida com um bustier de cabedal e uma saia da criadora portuguesa, será o momento mais memorável da noite, se mais não fosse pelas constantes insinuações sexuais. Rihanna que se cuide!

Considerada a mais inovadora semana de moda europeia, a London Fashion Week é um laboratório de novas tendências e uma plataforma de lançamento para jovens designers. "Aqui tenta-se criar hype [promoção] para depois ter resultado onde realmente se vende, que é em Paris", explica Moura, que se confessa radiante com o resultado do evento. "Estou banzada com a quantidade de gente que esteve aqui a mexer com a coleção".

A criadora conversa com jornalistas na manhã seguinte, horas depois da apresentação. O encontro, que conta com a presença do novo responsável da AICEP no Reino Unido, Rui Boavista Marques, é no showroom da London Fashion Week, instalado no Brewer Street Car Park, quartel-general da semana de moda londrina. É lá que, durante cinco dias, Alexandra e três outras jovens designers – Daniela Barros, Carla Pontes e Susana Bettencourt – apresentam as suas coleções com o apoio do projeto Next Step da ANJE. Ao mesmo tempo, do outro lado do Atlântico, os criadores Katy Xiomara, Luís Buchinho e a dupla Storytailors, e ainda as marcas Pé de Chumbo e TM Collection, participam na conceituada Edit, em Nova Iorque. Porque de nada serve uma boa montra se depois ninguém entra para comprar.

ETAPA 3: MILÃO, 25 DE SETEMBRO

Não é fácil a tarefa de um jornalista à procura de números sobre os negócios dos criadores portugueses. Mesmo que as perguntas sejam enviadas com muitos dias de antecedência, há quem se escude "nas viagens e muito trabalho" ou até no feriado lá da terra para não responder. Quem levanta um pouquinho o véu (não muito, para não perder o decoro) é Carlos Gil, designer oficial da antiga primeira-dama, Maria Cavaco Silva, tornado comendador pelo anterior Presidente da República, marido desta. Gil apresenta-se pela terceira vez consecutiva em Milão, desta vez com Pedro Pedro (assim mesmo, duas vezes), que faz a sua estreia internacional em nome próprio, depois de em 2006 e 2007 ter participado na Semana de Moda em Paris quando integrava a dupla Pedro Waterland.

Nascido em Nampula, Moçambique, Carlos Gil tem os olhos postos no mundo, mas não abandona o Fundão, que considera o seu porto de abrigo. "É onde consigo trabalhar com a paz de que preciso". O criador está apostado em conquistar novos públicos e novos mercados, e a presença na Milano Moda Donna permitiu-lhe já fechar encomendas para a China, Estados Unidos e Dubai. "Os principais mercados para os quais exportamos são o Extremo e o Médio Oriente", revela, confessando a ambição de se apresentar em Nova Iorque e em Tóquio. "A internacionalização nada tem a ver com exportação. A internacionalização é um longo caminho que temos de desenvolver para que a marca fique bem implementada e seja bem aceite do mercado, para depois sim começarmos a exportar".

ETAPA 4: PARIS, 3 DE OUTUBRO

Quando a comitiva do Portugal Fashion aterra em Paris para a última escala internacional da temporada o assunto que domina todas as atenções é o violento assalto a Kim Kardashian. Horas antes da apresentação de Luís Buchinho, a socialite americana, habituada a exibir as exuberantes curvas em vídeos na internet com bolinha vermelha, capas de revista e redes sociais, foi amarrada por dois homens disfarçados de polícias no luxuoso apartamento onde estava hospedada e depois despida de joias que se estima custarem cerca de 9 milhões de euros. O assalto ocorreu de madrugada, pouco depois da esposa de Kanye West ter deixado um evento da Semana de Moda de Paris, onde ocorreu na companhia da mãe e das irmãs Kourtney Kardashian e Kendal Jenner. Esta última, a terceira manequim mais bem paga do mundo, ganhou no último ano tanto quanto a sua irmã perdeu nesta noite.

Nos bastidores do desfile de Buchinho, na discoteca Yoyo (Palais de Tokyo), que ocupa as antigas salas da cinamateca francesa, é uma portuguesa que que domina as atenções. Depois de em Nova Iorque, Londres e Milão ter desfilado para marcas como Gucci, Lacoste e Dolce & Gabbana, Maria Clara, uma das manequins do momento, não esconde o orgulho por em Paris ter sido escolhida para a apresentação da maison Dior. Minutos antes do desfile, a jovem de 19 anos está à conversa com Frederico Martins, o fotógrafo que acaba de realizar a campanha da joalharia portuguesa com a atriz Milla Jovovich. "Tens tido uns dias calminhos, não?!", brinca ele, referindo-se aos mais de 30 desfiles que ela realizou no espaço de três semanas em quatro cidades de dois continentes. Ela sorri e com razão: está no top-20 das modelos mais requisitadas nesta temporada.

"A Maria Clara faz parte, há dois anos, do meu 'núcleo duro' de manequins com quem adoro trabalha", diz Buchinho, justificando a escolha. "Fez a minha campanha do inverno passado, abriu o desfile da estação anterior no Porto e é uma modelo com quem gosto muito de trabalhar. Admiro-a também enquanto pessoa e é extremamente gratificante ver o seu sucesso internacional".

SUCESSO. Maria Clara, uma das modelos mais requisitadas nas passerelles internacionais, no desfile de Luís Buchinho, em Paris

SUCESSO. Maria Clara, uma das modelos mais requisitadas nas passerelles internacionais, no desfile de Luís Buchinho, em Paris

FOTO UGO CÂMERA/PORTUGAL FASHION

A manequim abriu e fechou o desfile ao som de uma versão remisturada de 'Smells Like Teen Spirit', clássico dos Nirvana a comemorar 25 anos de vida, aqui apresentado num ritmo mais pausado que quase poderia simbolizar as dificuldades do criador em entrar neste mercado, onde já fez desfilar as suas propostas 23 vezes desde 2004. Já a letra parece escolhida na perfeição para este momento protagonizada pela teenager Maria Clara numa cave escura repleta de grafitti:

"With the lights out, it's less dangerous
Here we are now, entertain us
I feel stupid and contagious
Here we are now, entertain us
a mulatto, an Albino
A mosquito, my libido, yeah

Os corpos que percorrem a passerelle acenderão pouco a líbido de quem aprecia umas curvas acidentadas como as de Kim Kardashian, mas Maria Clara e as 15 outras manequins escolhidas por Isabel Branco, a produtora de moda do Portugal Fashion, lá se esforçam por entreter a multidão de agentes de compras, jornalistas, bloggers, stylists, entendidos e simples curiosos, vindo de paragens tão distantes como a Rússia e a China. Convidados especiais foram o realizador Ruben Alves e a atriz Maria João Bastos, que, em maio, entregou a criador o Globo de Ouro de Melhor Estilista.

No final do desfile, as palmas da assistência mal se fizeram ouvir, não porque a sala estivesse vazia (bem pelo contrário), ou porque poucos tivessem gostado do que viram, mas porque a esmagadora maioria estava de telemóvel na mão a registar as imagens e os vídeos que depois colocarão nas redes sociais, a passerelle do século XXI. As mesmas redes onde celebridades e figuras públicas revelam tanto da sua vida privada que abrem a porta para gatunos e stalkers lhes armarem uma emboscada.

Buchinho tem na capital francesa a principal montra internacional do seu trabalho, em especial para mercados como o asiático. A aposta só se iniciou verdadeiramente em 2011, mas os resultados já se fazem sentir: a marca está presente numa dúzia de mercados, as exportações crescem de ano para ano e representam já entre "35 a 50%" das vendas. No início deste ano, porém, houve uma quebra nessa tendência, motivada pelos atentados em Paris. "Como as nossas vendas são feitas maioritariamente a partir desta cidade, notou-se uma recusa dos clientes e potenciais compradores em visitá-la, o que foi prejudicial", explica o designer.

Durante muitos anos, Buchinho apresentou-se no calendário da semana de moda para mulher na companhia de Fátima Lopes. Em 2015, a designer madeirense deixou de contar com o apoio do Portugal Fashion, apostando o projeto numa estratégia de rotatividade. Nas três edições anteriores a vaga foi ocupada por Diogo Miranda, jovem criador de Felgueiras que, na última participação na fashion week, vendeu toda a coleção – 80% do que sai do seu ateliê já tem como destino o estrangeiro, em especial o Médio Oriente.

Desta vez ficou de fora da passerelle parisiense – marcou apenas presença na Tranoi France, feira incontornável no mercado global da moda feminina – porque o Portugal Fashion decidiu promover a estreia de um criador nacional (Hugo Costa) na semana de moda para homem. "Gostávamos de apoiar mais criadores a nível internacional, mas não sendo financeiramente viável, temos de tomar decisões numa lógica de rotatividade e alternância", justifica Rafael Koehler.

O Portugal Fashion investe cerca de meio milhão de euros, por temporada, em cada uma das semanas de moda. O desafio passa agora por consolidar estas presenças e preparar "a expansão a novos países do Médio Oriente e do continente asiático", que já são mercados prioritários de muitos designers portugueses.

A 39ª edição do Portugal Fashion teve início esta quarta-feira em Lisboa e decorre até sábado no Porto, com 36 desfiles de criadores, jovens designers e marcas nacionais.

O Expresso viajou a convite do Portugal Fashion