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Estudo da Nova: chumbos prejudicam alunos

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Nuno Fox

Estudo olhou para o percurso de alunos do 4º ano com resultados baixos e comparou a evolução dos que ficaram retidos nesse ano e dos que seguiram

Será a repetição de ano benéfica para os alunos? “O que concluímos é que na escola pública portuguesa, o típico aluno do 4º ano com baixo desempenho que foi obrigado a repetir esse nível de ensino não beneficiou de tal decisão e foi, de facto, prejudicado em termos da sua progressão escolar”, escrevem os três autores do estudo que procurou medir o impacto da retenção em Portugal, um dos países da OCDE onde as taxas de reprovação são mais elevadas e em que, até aos 15 anos, um em cada três jovens já conta com um chumbo no currículo.

O estudo, da autoria dos professores da Nova School of Business and Economics Luís Catela Nunes, Ana Balcão Reis e Carmo Seabra será apresentado dia 26, no âmbito do Mês da Educação promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. A pergunta inicial era esta: o que aconteceria a um aluno que chumbou no 4º ano se não tivesse sido retido?

Parece um exercício de adivinhação impossível de desvendar. E se de facto é impossível saber o que aconteceria a um aluno em particular, se tudo se tivesse passado de outra forma, rescrevendo a história, é possível, no entanto, comparar os percursos de alunos com desempenhos semelhantes, mas com a diferença de uns terem sido retidos e outros não.

Para isso os autores pegaram numa amostra de seis mil alunos do 4º ano que em 2006/07 tiveram negativa nas duas provas nacionais de aferição: Matemática e Português. Estes testes eram meramente informativos e não tinham peso na nota final dos estudantes, cabendo aos professores decidir se passavam ou não. Mas para todos os efeitos estes eram alunos com “baixos desempenhos”. Uns chumbaram (29%), a maioria passou (71%).

A questão que os autores colocaram foi saber o que aconteceu a uns e outros, sendo certo que ambos os grupos apresentavam características semelhantes, desde a formação académica da mãe ao nível socioeconómico da família, duas variáveis que comprovadamente têm impacto na probabilidade de se vir a chumbar ou abandonar os estudos mais cedo. Tentou-se isolar as variáveis “retenção” e progressão” e ver que impacto tiveram em chumbos subsequentes e nas notas do 6º ano, também nas provas de aferição.

No caso dos resultados obtidos dois ou três anos mais tarde (consoante tenham chumbado ou não no 4º) verificou-se que o primeiro grupo teve notas ligeiramente mais altas: 0,1 valores numa escala de 1 a 5. Mas que essa diferença não só é muito ligeira, como não se confirmou quando foram introduzidas outras variáveis nessa análise.

Já no que respeito aos chumbos ocorridos nos anos seguintes (até 2009/10), os autores verificaram que para os alunos com “baixo desempenho” que transitaram do 4º para o 5º ano, o número médio de retenções futuras foi de cerca de 0,77 anos, enquanto para os alunos que foram retidos o número médio de 0,43. Ou seja, “os alunos que são retidos conseguem progredir mais rapidamente nos anos seguintes”. O problema é que essa diferença “não é suficiente para compensar o ano inicial perdido”, sublinham os autores.

Tudo somado, se o grupo dos retidos no 4º ano apresenta, em média, 1,43 anos de atraso, o grupo dos que não chumbaram, apesar de também terem tido maus desempenhos no 4º, atrasaram em média apenas 0,43 anos.

Retenção varia consoante os concelhos

Outra análise feita no estudo “Será a retenção benéfica para os alunos?” prende-se com as variações regionais nas percentagens de chumbos. E aqui fica evidente que não há uma regra que se aplique ao país, mas antes uma variação enorme entre as práticas das escolas de cada município.

Olhando exatamente para a mesma amostra – a dos alunos que tiveram abaixo de três valores nas provas de aferição tanto de Matemática como de Português em 2006/07 – há concelhos onde as taxas de reprovação deste grupo de estudantes se situam entre os 80% e os 100%, como são os casos de Alvito, Crato, Borba ou Sabugal.

Mas em muitos outros, os valores ficam abaixo dos 20%, não se vislumbrando qualquer tendência norte/sul, interior ou litoral. “É como se houve diferentes culturas de retenção, consoante a região em que as escolas se encontram”, sublinha Luís Catela Nunes.

Em jeito de conclusão, os autores deixam claro que os resultados da sua investigação “não podem ser usados para decidir se um dado aluno do 4º ano deve ser retido ou não”. “Alguns alunos podem beneficiar duma retenção, enquanto outros podem ser afetados negativamente”. No entanto, em termos globais, a análise mostra que, em termos médios, há prejuízo em termos de um atraso eventualmente não justificado na sua progressão escolar.

Luís Catela Nunes garante ainda que os investigadores partiram para o estudo sem ideias pré-concebidas. Mas que a conclusão só pode ser esta: “Dado o elevado nível de retenções em Portugal e dado que uma retenção acarreta custos financeiros adicionais para suportar o tempo extra gasto no sistema de ensino, a principal implicação desse resultado é que estes recursos financeiros poderiam ser usados em políticas educacionais alternativas mais eficazes no apoio a alunos cm baixo desempenho”.

O debate entre os que têm a convicção de que reter um aluno lhe permitirá aprender melhor o que não conseguiu, antes de avançar para matérias mais complexas, e os que acreditam que reprovar aumenta o distanciamento do aluno da escola e provoca perda de autoconfiança, estigmatização e eventualmente uma saída precoce do sistema prosseguirá, pelo menos no dia 26 de outubro, na Torre do Tombo, em Lisboa.