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Taxistas desmobilizam por uma semana. “Na segunda é para o Palácio de Belém”

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Luis Barra

Perante a ameaça policial, os taxistas desmobilizaram da rotunda que bloquearam junto ao aeroporto de Lisboa. Marcelo que se prepare

Hugo Franco

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Luís Barra

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A decisão resultou de muita hesitação e foi tomada pelas 2h20 desta terça-feira: os taxistas decidiram desmontar o protesto que os voltou a colocar nas manchetes dos sites, nas aberturas dos telejornais e nas capas dos jornais. Num dia marcado por confrontos com a polícia, vandalização de carros da Uber, reuniões inconclusivas com a PSP e negociações difíceis com o Governo, o protesto que na verdade foi mais um bloqueio da Rotunda do Relógio, junto ao aeroporto de Lisboa, acabou cancelado de madrugada depois de se ter iniciado formalmente pelas 8h30 – na verdade iniciou-se bem antes para muitos dos taxistas, porque aos que trabalham em Lisboa juntaram-se-lhes outros do país inteiro para contestar na capital a Uber, a Cabify e a estratégia governamental para o sector.

A decisão de abandonar foi tão espinhosa quanto o dia e seguiu os mesmos caminhos imprevisíveis. Se o bloqueio era para ter sido uma marcha lenta até ao Parlamento – que na verdade se tornou uma marcha parada porque taxistas e polícia envolveram-se em confrontos, acontecimento que cancelou a marcha e acelerou as tensões –, a decisão de manter ou desmontar o protesto foi tomada já de madrugada após uma longa ponderação com os líderes do movimento – Carlos Ramos e Florêncio Almeida – sentados em cima de uma carrinha de caixa aberta e lá em baixo os demais ora a contestarem ora a aprovarem o que era dito e argumentado. “Bora para os nossos carros, que a polícia bata nos nossos carros”, proclamava um dos taxistas ao microfone utilizado pelos líderes. “Se nos rendermos agora, ficamos a perder”, acrescentava o mesmo motorista, que tinha um desenlace ideológico para o raciocínio: “Não queremos uma república soviética”.

Carlos Ramos ouvia e posicionava-se: “Os dirigentes têm de alertar os associados para os riscos que correm”. Os “riscos” era a polícia atuar e autuar – as autoridades alertaram ao longo do dia para a situação irregular do bloqueio, que afetou a circulação rodoviária, e a paciência policial tem limites como as paciências todas. “Mas se vocês ficarem, nós também ficamos”, anunciava - apesar de tudo - Carlos Ramos. “Há mais dias além de hoje”, contestava-se algures.

O discurso vindo da carrinha não foi consensual. E a polícia continuava vigilante, a alguns metros. Era a vez de Florêncio Almeida se pronunciar: alerta que a comunicação que lhe foi dada pela polícia é que se não saírem dali haverá carros bloqueados e apreendidos da rotunda para cima e rebocados da rotunda para baixo – e ainda a obrigatoriedade de apresentação em tribunal. “Cada um decide por si, mas estas são as informações que tive há momentos.” E ainda mais direto: “A polícia vai atuar. Vão fazer o que acabo de vos transmitir”.

Florêncio tinha mais a dizer – ele que acabaria aplaudido. “Segunda é para o Palácio de Belém. Para mim, não vale a pena ficar aqui hoje.” Há aplausos, a desmobilização inicia-se. Florêncio despede-se: “Têm a palavra que vamos continuar. Obrigado a todos. Façam boa viagem”.