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Amélia Marques, de meretriz tolerada a desordeira e suspeita de arquitetar assassínios

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AMÉLIA MARQUES. Retrato-robô

De profissão “meretriz tolerada”, Amélia Marques, mais conhecida por “Pencuda”, foi protagonista de muitas notícias pelo trabalho que no início do século passado deu à polícia de Lisboa. Normalmente, metia-se em desordens que terminavam à facada, mas também esteve envolvida em alguns assassínios... Este é o quarto capítulo da segunda temporada da série “Crime à Segunda”

Anabela Natário

Anabela Natário

texto

Jornalista

João Roberto

João Roberto

ilustração

Motion designer

Amélia Marques constava, com a sua alcunha “Pencuda”, no livro especial guardado na repartição privativa da polícia. Era uma “tolerada”, da classe das que viviam “em comum debaixo da direção de uma dona de casa”, como estipulava o Regulamento Policial das Meretrizes da Cidade de Lisboa. E, além de escolher mal os amantes, tinha uma atração especial por sarilhos: cada vez que havia facada no bairro, o seu nome vinha à baila e quase sempre valia-lhe mais uma linha no “largo cadastro”.

O seu raio de ação restringia-se à área entre a calçada do Combro e a 24 de Julho, dantes rua, hoje avenida. O primeiro andar onde vivia e ganhava a vida teria as janelas de modo a que o interior “não fosse devassado”, guarnecidas de tabuinhas ou tapadas de outra maneira qualquer. Na certa, a dona, de seu nome Maria Ferreira, não quereria ir contra as normas e perder o alvará de licença tão ostensivamente, já que quanto às condições sanitárias... lá conseguia que os inspetores fossem fechando os olhos.

Situava-se a “casa tolerada” no n.º 92 da avenida D. Carlos, uma das artérias mais elegantes e movimentadas de Lisboa, no princípio do século passado, caminho obrigatório para o edifício das cortes, ou seja, o Parlamento. Destoavam na paisagem esse prédio e mais uns outros, velhos, deteriorados, mal disfarçados da rua por um muro, com cerca de um metro de altura, na zona quase no fim da avenida, a qual terminava pouco depois do largo da Esperança.

“É um meio infeto, onde a desgraça e a degradação se juntam, concorrendo assim para mais fazer avultar as paixões que em regra dominam os indivíduos que ali vivem, sem energias que os reabilitem da senda criminosa que vão trilhando”, explicava o jornal “O Século” em setembro de 1904, quando deu notícia da “sanguinolenta tragédia” motivada por Amélia Marques e que ultrapassou todas as anteriores desordens, “mais ou menos graves e violentas, com as quais, por vezes, os moradores das casas que lhe ficam nas imediações são despertados, ouvindo então toda a casta de impropérios e obscenidades”.

ilustração joão roberto

Não pertencendo à outra classe de meretrizes prevista no regulamento, a das que viviam “isoladamente em domicilio próprio”, sendo as suas residências classificadas “casas de passe”, Amélia dividia o espaço com “outras desgraçadas”, assim como a obrigação de pagar à patroa, que residia no segundo andar, uma certa quantia pela sua atividade diária. Era uma profissional de um ofício muito criticado, mas considerado “um mal necessário”, como dizia o médico e professor Ângelo Fonseca no seu estudo detalhado sobre a prostituição, no qual apresenta estatísticas que até à data de publicação, em 1902, ninguém reunira em 58 anos de “tolerância legal”.

Devido a essa dissertação de concurso a uma das cadeiras vagas da faculdade de Medicina, fica a saber-se que Amélia Marques é uma das mais de mil toleradas em exercício na cidade de Lisboa. Em 1901, encontram-se registadas 1.197 mulheres que “habitualmente se entregam à prostituição e estão inscritas no registo policial”, para uma população de 176.359 homens. Nestas contas não entram, claro, as “clandestinas” que, segundo o professor, se apelidam, na sua maioria, “costureiras”. “Com um salário exíguo e pouco dado às exigências das circunstâncias em que vivem, é fácil compreender como resvalam para a prostituição, depois de esgotados todos os expedientes que costumam adotar.”

“A costureira, gozando quase sempre desde criança uma certa liberdade, permite-se sair dos ateliês mal acompanhada. Com a idade vem a preocupação do luxo, a necessidade de satisfazer uma multiplicidade de caprichos dispendiosos, o desejo de uma vida ociosa em contraposição do trabalho mal remunerado. Além d’isso, a vida nos ateliês é sempre perigosa porque importa um convívio suspeito em que as mais novas começam a educar-se. É difícil reagir a um meio tão livre como aquele, demais quando é certo influenciar raparigas mal saídas da adolescência”, escreveu Ângelo Rodrigues da Fonseca em “Da prostituição em Portugal”.

Não é o caso de Amélia Marques. Esta terá sido registada “à força”, que era o que acontecia às mulheres que se entregassem à prostituição clandestina e fossem apanhadas pelos polícias. Primeiro davam-lhes 24 horas para se matricularem - se não o fizessem, na segunda vez que as prendessem por ofensas à moral pública não se livravam do registo — , o que incluía nome, filiação, naturalidade, idade, estado, sinais característicos, residência e outros esclarecimentos que se julgassem necessários para certificar a identidade. Depois ganhavam um livrete com a sua matrícula e o regulamento e tinham de apresentá-lo sempre que fosse solicitado pela polícia ou quando se ia à inspeção sanitária que, em princípio, deveria ser de oito em oito dias.

Uma desordem aqui, outra ali, mais umas facadas, mortes...

A Pencuda, como a ela se referiam polícia, jornais e gentes do bairro, terá pouco mais de 20 anos. Conhecida principalmente como tolerada, ladra e desordeira, já tinha o nome ligado a alguns casos de homicídio antes de ter resolvido vingar-se de “o Varino”. Há uns tempos, envolvera-se no assassínio do carroceiro Reis, acontecimento que “sobressaltou a população de Lisboa, enchendo-a de pavor pela perversidade com que foi cometido” — uma cena horrível, passada numa marcha noturna de archotes, e o assassino foi um homem de apelido Amaral, na altura seu amante e por ela instigado a praticar o crime, segundo se provou.
Por volta de 1902, dois anos antes do acontecimento sangrento em sua própria casa, originado por uma vontade de vingança de que foi acometida e que lhe valeu mais umas cicatrizes e uma série de notícias em quase todos os jornais da época, metera-se noutra confusão. No Cais do Tojo, também ali próximo da sua casa, onde já não se faziam enforcamentos de condenados desde 1842, protagonizou uma cena de facada que lhe ficou marcada no rosto para sempre.

Como se vê, Amélia estava habituada a uma vida difícil, dura, miserável, mas, em setembro de 1904, começou a fartar-se do amante, um cliente a quem se afeiçoara após o seu anterior “parceiro” ter sido preso, em junho, por suspeita de envolvimento num duplo assassínio no Boqueirão Duro e a ter arrastado consigo para os calabouços da polícia, embora por poucos dias. De início, o amante, António Joaquim Dias Pereira, homem com cara de poucos amigos que gostava de resolver as questões à “marrada” e à facada, era para com ela cordial e pacífico, mas agora tratava-a mal, muito mal.

O Varino, assim conhecido talvez por ser de Ovar ou por vender peixe, batia-lhe “por dá cá aquela palha”, chegando mesmo a esfaqueá-la e, por isso, já fora preso e condenado no Tribunal da Boa Hora. “Para as odaliscas dos bordéis modernos tanto se lhes importa que o amigo toque e cante bem o fado ou não, Cocheiros e marujos é gente que já não lhes quadra”, comenta Fernando Schwalbach. No seu livro “O Vício em Lisboa antigo e moderno”, de 1912, o jornalista e escritor diz que o amante preferido das prostitutas do início do século XX e “disputado às vezes à ponta da chinela é aquele que maiores melenas tem, que maior número de prisões conta e que melhor sabe dar uma picada ou ‘marear’ um ‘gajo’ desta para a melhor, como eles dizem no seu calão baixo de faquista porco”.

ARTIGO. O jornal republicano “A Vanguarda” também dedicou algum espaço à “desordem grave” na casa da Pencuda

ARTIGO. O jornal republicano “A Vanguarda” também dedicou algum espaço à “desordem grave” na casa da Pencuda

d.r.

Os amantes de Amélia encaixam-se neste retrato na perfeição - os gatunos e os artistas da navalha também eram “o seu mais que tudo”. A dada altura, começou a substituir o Varino pelo Viana, rapaz ainda com ar imberbe, “tido e havido como faquista ‘enragé’”, isto é, enraivecido e radical. Desde criança que armava confusão na rua da Esperança, onde sempre morou e sobressaía entre o grupo de desordeiros; de noite, ao verem-no sair de boina, a vizinhança previa desde logo que alguma desordem se ia produzir. “Era seu costume, quando tinha de ajustar contas com algum da sua igualha, trazer uma boina para poder dar cabeçadas — marradas, como dizem os fadistas —, processo rápido e seguro para pôr um adversário fora de combate. Uma cabeçada dada a tempo no nariz ou no estômago de um antagonista assegura a vitoria a quem dá”, segundo explicou o “Diário de Notícias”.

A vingança contra o Varino é o caso de que falamos

Ora, foi com Francisco Viana que Amélia combinou dar uma lição ao Varino, deixá-lo fora de serviço durante uns tempos ou... No dia 4 de setembro de 1904, convidou-o para pernoitar consigo. Mal este entrou na casa, pouco antes das duas horas da madrugada, deixou-o com a sua colega Maria Cascalheira e saiu a correr, a pretexto de ir comprar carapaus e vinho para ambos cearem. Mas em vez de se dirigir a uma taberna, das muitas que por ali havia e que estaria prestes a fechar, rumou ao encontro do Viana, que a esperava já com mais o seu irmão José Viana, mais Artur dos Santos, o Sota da rua da Silva, e Lúcio de Oliveira Graça, da travessa do Poço dos Negros.

O grupo subiu ao primeiro andar como se nada fosse, mas começou logo a crivar o ex-amante de Amélia de frases injuriosas, que, de início, ele ignorou, “fingindo não lhe ligar importância, atendendo à superioridade do número de inimigos”, como refere “O Século”. Só que, a dada altura, as ofensas subiram de nível e António Dias Pereira começou a responder no mesmo tom. “Foi como que o rastilho da desordem em que imediatamente todos se envolveram”, conta o diário, que assim descreve a cena seguinte: “Atirando-se às cegas uns sobre os outros e servindo-se de todos os objetos ao seu alcance, na intenção de alvejarem o Varino, fizeram com que viesse a terra o candeeiro que pendia do teto da sala, continuando a luta no meio das trevas, à mistura com uma tempestade de gritos, de queixas e de gemidos em que nenhum se entendia e cada qual procurava apenas dar largas à fúria de que estava possuído”.

A confusão foi tal que o Viana, pensando tratar-se do pescoço do Varino, deu seis facadas no Sota, cortando-lhe artérias e tendões, e acabou por ferir numa mão a Pencuda, embora sem gravidade. O barulho do mobiliário transformado em balas e dos gritos atraíram inúmeros curiosos e a polícia, que teve bastante dificuldade em pôr cobro ao conflito, mas tratou logo de “lançar mão aos desordeiros, incluindo a Amélia Pencuda e a Maria Cascalheira, que assistira ao caso e nele também tomara parte ativa”.

Apesar dos esforços, dois deles conseguiram fugir, o Lúcio dos Poço dos Negros e o próprio António Dias Pereira. O primeiro seria cercado em casa e preso ao nascer do sol, o segundo só dias depois seria apanhado. Os feridos foram levados ao Hospital Militar da Estrela e os restantes envolvidos ao juízo de instrução, onde ficaram detidos e onde se juntaram mais tarde Amélia Marques e Artur Santos, o Sota.

NOTÍCIA Recorte de "O Século" sobre o crime da rua de Vale de Santo António

NOTÍCIA Recorte de "O Século" sobre o crime da rua de Vale de Santo António

dr

Seriam, então, todos levados à Boa Hora, tribunal onde quase apenas se julgavam infrações aos regulamentos policiais e eram “proferidas sentenças anódinas do alto da cadeira judicial: doze dias de prisão remíveis a tostão por dia”, como opinou o escritor Alberto Pimenta, constatando que o lisboeta “não pratica heroísmos, mas também não comete grandes crimes”.

E... perdeu-se o rasto a Amélia que, provavelmente, foi libertada depois de cumprir uma curta pena ou mais cedo se a patroa se resolveu a pagar-lhe a fiança, e voltou ao seu dia-a-dia habitual, continuando na mira do chefe Sarmento, polícia convencido da culpabilidade da rapariga e do seu amante do momento, o “Pai Pina”, no caso do Boqueirão Duro. Os jornais ficaram muito mais preocupados em seguir o caso da rua do Vale de Santo António, uma “horrível cena de sangue da qual foi protagonista um marido devorado pelo mais atroz ciúme e vítima sua mulher, uma esbelta rapariga ainda no verdor da idade, querida e estimada por toda a gente que a conhecia”, ele sapateiro e ela trabalhadora da fábrica do tabaco, casados há três anos.

“Toda a população desta bela cidade esquece facilmente: as tempestades da política, os incidentes do parlamento, os escândalos da sociedade. Cada facto notável que vai acontecendo preocupa-a dois dias — apenas. Um crime, por mais monstruoso que seja, obriga-a a gastar um vintém, somente. Durante dois dias consecutivos toda a gente compra um jornal, devora sofregamente quatro colunas de pormenores, e uma gravura. Mas ao terceiro dia, Lisboa sobe ao céu da sua frivolidade, manda ao diabo a reportagem, como um preguiçoso que, para dormir melhor, se volta para o outro lado e torna a pegar no sono”, escreveu o escritor Alberto Pimentel quando, em 1900, retratou a cidade em “Vida de Lisboa”
“Os garotos podem gritar na rua pregões atroares, as esquinas podem estar cheias de cartazes e de reclamos a quaisquer publicações alusivas ao facto. Lisboa não ouve os garotos, Lisboa não lê os cartazes, Lisboa não compra os opúsculos, ainda que esses opúsculos sejam panfletos. O que Lisboa quer, cansada já de um acontecimento que fez ruído dois dias, é — outro acontecimento”, completava o escritor nascido no Porto e que aos 26 anos se mudou para a capital.