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O murmúrio desonesto

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joão carlos santos

Negros e muçulmanos. O Ocidente está a perder o seu centro liberal e conservador porque é incapaz de criar um discurso honesto sobre a questão negra e sobre a questão muçulmana

Rachel Dolezal é uma mulher branca, filha de um casal caucasiano do branquíssimo estado do Montana (EUA). O seu rosto até tem sardas. Ou melhor, tinha. Dolezal elevou a barreira do politicamente correto a um novo patamar. Não chegava ser uma ativista do “antirracismo”, não chegava esse comprometimento intelectual, era preciso um comprometimento carnal, biológico, epidérmico: Dolezal começou a tapar as sardas e a tez branca com uma maquilhagem escura que imita a pele das mulheres negras. Ou seja, levou a culpa do homem branco até à farsa biológica. Na pele escurecida e no cabelo africanizado, esta caucasiana inventou um alter ego negro. Anda pela rua a fingir que é negra. É como se a sua biologia fosse um mero prolongamento da sua ideologia. Repare-se portanto nesta inversão de papéis que chega a ser cómica: no exato momento histórico em que humoristas negros como Chris Rock desistem de dar espetáculos nas faculdades porque os estudantes estão a perder a sentido de humor devido ao politicamente correto, uma mulher branca quer ser negra à força para assim ter mais legitimidade para se sentir ofendida com as piadas sobre negros.

Selin Goren foi violada por três homens em janeiro na cidade de Mannheim (Alemanha). Esta porta-voz do movimento de esquerda “Solid” começou por dizer que os três homens eram alemães normalíssimos, mas depois foi forçada a reconhecer a verdade: os três violadores eram muçulmanos. É impossível encontrar exemplo mais flagrante da desonestidade do politicamente correto: uma mulher violada que mente sobre a identidade dos homens que a violaram. A justificação de Goren é previsível: não queria alimentar a “islamofobia” da extrema-direita. Ora, o que Goren e meio Ocidente não percebem é que a ascensão da extrema-direita resulta precisamente deste clima de silêncio, mentiras e tabus sobre os muçulmanos. A extrema-direita nos EUA e na Europa não está a ganhar espaço fora do seu círculo original só por causa do racismo contra negros, hispânicos e muçulmanos. Metade da população do Reino Unido não pode ser toda racista; o ‘Brexit’ não é só racismo. 30% da população francesa não pode ser toda racista; o voto em Le Pen não é só racismo ou homofobia, até porque a Frente Nacional conta com o apoio de muitos judeus e gays. Metade da população americana não pode ser toda racista; o voto em Trump não é só racismo.

Fala-se muito nas semelhanças entre um romance de Philip Roth, “Conspiração Contra a América”, e a ascensão do nacionalismo de Trump. A comparação faz sentido. Mas convém perceber aquilo que une Trump e o Roth de outro romance, “Mancha Humana”: a crítica ao politicamente correto. Claro que Roth terá uma resposta civilizada ao politicamente correto, enquanto Trump desenvolve uma resposta boçal, mas o ponto de partido é o mesmo. E, já agora, quais são os pontos de contacto entre Trump e figuras como Jerry Seinfeld, Jay Leno, John Cleese ou Larry Summers? Nada, a não ser a crítica ao politicamente correto que exerce neste momento uma repressão orwelliana sobre o pensamento e até sobre o humor. O problema é que a resposta sofisticada ao politicamente correto tem poucos soldados. Seinfeld, Cleese, Leno e Summers são exceções que confirmam a regra. Em consequência, a válvula de escape que alivia a pressão do politicamente correto não está situada no centro político e intelectual, está situada na extrema direita. São raros os intelectuais, jornalistas ou políticos do centro-esquerda ou centro-direita com coragem para apresentar um discurso sofisticado e crítico sobre negros e muçulmanos. A maioria apenas murmura em privado problemas e factos que deviam ser debatidos em público. Aproveitando este vazio, a extrema-direita está a gritar bem alto aquilo que os outros murmuram; desta forma, Trump e os Trump europeus conseguem — pelo menos por enquanto — um extraordinário apoio popular. Porque, de facto, a maioria das pessoas está com Jerry Seinfeld: “Esta coisa do politicamente correto é sinistra.” É sinistra e conduziu-nos a uma bifurcação histórica. Se não sairmos deste bloqueio narrativo que impede qualquer tipo de conversa séria sobre negros e muçulmanos, os extremos nacionalistas continuarão a crescer e destruirão por dentro aquilo que ainda apelidamos de “Ocidente”. Repare-se, por exemplo, no caso dos gays franceses que estão a votar em massa na Frente Nacional, porque têm medo da violência homofóbica dos muçulmanos e porque estão saturados do silêncio dos políticos e media tradicionais sobre essa violência.

Como é que saímos desta tenaz formada pela ditadura cultural do politicamente correto e pela crescente contrarresposta nacionalista de Trump e Le Pen? Como é que podemos falar sobre negros e muçulmanos de forma adulta e crítica, sem o racismo da direita nacionalista e sem o racismo invertido do politicamente correto? A solução está na herança de Albert Camus. No contexto da guerra civil da Argélia, Camus procurou um equilíbrio entre franceses e argelinos, criticando o colonialismo branco mas também o radicalismo argelino. A meta de Camus (que era argelino) passava pela criação de uma pátria que funcionasse como chão comum para europeus e muçulmanos comprometidos com os valores democráticos. Hoje em dia, o caminho passa por encontrarmos o espírito de Camus em intelectuais muçulmanos que critiquem os europeus (uma banalidade), mas que também critiquem os muçulmanos (uma raridade); do mesmo modo, há que encontrar intelectuais negros que critiquem ao mesmo tempo o velho racismo branco e o politicamente correto que prende o negro a um eterno ciclo de vitimização. Estes intelectuais não são figuras quiméricas; eles existem, não têm é a visibilidade que deviam ter.

Black fathers matter

John H. McWhorter é um dos intelectuais americanos mais interessantes do momento. Claro que ele critica o que resta do velho racismo branco e a violência policial, claro que contesta a “burguesia negra” que diz que o melhor é não dizer nada até as coisas acalmarem, claro que critica a “guerra às drogas” que atira para o sistema prisional milhões de garotos (sobretudo negros) que só cometeram pequenas infrações. Contudo, o autor de “Losing the Race: Self-Sabotage in Black America” considera que o principal adversário dos negros não está no exterior da comunidade negra; o grande inimigo do negro é o negro, o grande lobo do negro americano é o negro americano, a grande arma do negro não devia ser o megafone mas um espelho.

O politicamente correto que impera nas NBC, CNN e no “New York Times” repete três vezes por dia que um negro tem mais 2,5 probabilidades de ser morto pela polícia do que um branco. É verdade. Mas olhar apenas para este número é como olhar para a foz de um rio e assumir que não há mais nada a montante. O choque entre polícia e negros é mais frequente porque as comunidades negras são as mais violentas da América. Em 2014, 6065 negros foram assassinados, contra 5397 vítimas mortais de todas as outras comunidades juntas. A esmagadora maioria das 6065 vítimas negras foi assassinada por outros negros. No recetor e no emissor, a morte é mesmo um assunto afro-americano. Tendo em conta esta realidade, não é surpreendente verificar que os grandes assassinos de polícias são negros. É uma verdade estatística. 40% dos agentes do FBI mortos em serviço foram assassinados por negros, apesar de os negros representarem apenas 13% da população. Quando entram em bairros negros, os polícias sabem que estão a entrar num território onde estatisticamente ficam mais próximos da morte. Perante esta realidade indesmentível, a questão de John H. McWhorter e de outros intelectuais negros como Thomas Sowell, Larry Elder, Jason Riley ou Shelby Steele é a seguinte: já não será tempo de falarmos dos negros de outra forma? Já não será tempo de falarmos do negro sem partirmos do pressuposto paternalista de que ele só pode ser uma vítima passiva do “sistema branco e racista”? Já não será tempo de fazermos perguntas difíceis? Porque é que os afro-americanos são os mais violentos dos EUA, superando asiáticos, caribenhos, africanos, indianos, hispânicos e brancos? Porque é que os afro-americanos ficam sempre em último nos resultados escolares, sendo até superados por emigrantes de primeira geração das Caraíbas, do subcontinente indiano e de África? John McWhorter não foge a estas questões e encontra respostas na autorrepresentação do negro, que começa e acaba na cultura rap ou hip-hop.

No debate sobre armas, a narrativa dos Jon Stewart e dos Anderson Cooper diaboliza apenas a NRA e o branco sulista que gosta da sua M-16. Sucede que este redneck não é o único aficionado pelas armas. Aliás, se olharmos para o peso cultural e artístico, o grande aficionado das armas é o rapper negro. Haverá algo mais violento do que o típico videoclipe de hip-hop ou rap? Aquela batida sem melodia que se assemelha ao som de uma metralhadora é acompanhada por letras e gestos que glorificam as armas, a violência e até o assassínio mafioso. É my Glock aqui, cap your ass ali, kill that nigga acolá. A par da glorificação da violência ou mesmo da guerrilha urbana, encontramos a mais abjeta misoginia. Nada é mais desrespeitador da figura da mulher do que o clássico videoclipe de hip-hop ou rap. Ao pé da bitch criada por este marialvismo negro, Cicciolina até passa por freira beneditina.

Eis então a grande narrativa que o rap ou o hip-hop deixou à juventude negra: o respect só é alcançável através da romantização do crime e da glorificação do Don Juan sempre rodeado por um harém de bitches e afastado de qualquer responsabilidade familiar. As ideias e narrativas têm sempre consequências na realidade. Esta narrativa não é exceção. É na comunidade negra que encontramos os mais altos índices de criminalidade e os mais altos índices de ilegitimidade (filhos sem pai). É por isso que a grande causa de Larry Elder é Black Fathers Matter. Os números não mentem: um miúdo que cresça sem pai tem cinco vezes mais probabilidades de viver na pobreza, nove vezes mais probabilidade de abandonar a escola e 20 vezes mais probabilidades de ir parar à cadeia. Se a família está em crise um pouco por toda a América, é na família negra que encontramos a crise das crises por causa deste ideal de masculinidade. Walter Williams, outro intelectual negro, afirma que entre 1890 e 1940 os miúdos negros tinham mais probabilidades de crescer com pai e mãe juntos do que os miúdos brancos. Nos anos 60, apenas 23% dos miúdos negros nasciam numa casa sem pai. Hoje em dia, essa taxa subiu para uns absurdos 73% (a média nacional é de 41%; média dos brancos, 25%; média dos hispânicos, 53%). A raiz do mal está aqui. A anormal violência dos rapazes negros tem aqui a sua causa. Nem por acaso, quando olhamos para os 27% de famílias negras com pai e mãe juntos, o retrato fica logo diferente, isto é, normaliza-se. Por exemplo, à beira do ano 2000, as famílias negras com os dois pais em casa ganhavam cerca de 87% do rendimento das família brancas — e esta diferença explica-se em parte pela alta percentagem de população negra residente no Sul (o Sul é pobre para todos). Estes números familiares de Walter Williams e Larry Elder conduzem-nos aos números criminais de Thomas Sowell: nos anos 30, 40 e 50, quando ainda existia um conceito de família negra, as taxas de criminalidade e desemprego dos negros eram mais baixas. Por exemplo, a taxa de homicídio entre jovens negros baixou 18% nos anos 40 e 22% nos anos 50. Com a alegada libertação dos anos 60, a taxa de homicídios entre negros subiu 89%.

O politicamente correto gosta de romantizar o rap e o hip-hop enquanto resposta legítima à opressão sentida pelo negro. A resposta de McWhorter é simples: porque é que o negro tem esta carta branca amoral? Se um criminoso branco ou asiático é um criminoso imoral, porque é que um criminoso negro é sempre visto como alguém cool ou, no mínimo, como alguém que deve ser desculpado, justificado e glorificado como uma espécie de Robin dos Bosques da selva urbana? McWhorter revolta-se contra este paternalismo que coloca o negro numa escala moral mais baixa. É como se o negro fosse uma criança inimputável. Os esclavagistas do século XIX tratavam os negros por boy. O politicamente correto do século XXI continua essa tradição por outra via.

Este ideal de masculinidade tem ainda efeitos na escola. A atitude à gansgta transformou a escola numa “coisa de brancos”. McWhorter conta inúmeras histórias pessoais de jovens negros que são gozados no bairro por serem bons alunos. Ele próprio sofreu esta estranha forma de bullying que parte desta premissa: a autenticidade do negro depende do insucesso escolar; “és um bom aluno” é a pior ofensa que se pode fazer a um jovem negro. E este anti-intelectualismo tem outro efeito a jusante: escritores, cantores ou realizadores negros só fazem obras sobre... negros. Há um ensimesmamento na cultura negra. É por isso que é raríssima a presença de negros em cursos científicos. É por isso que Spike Lee tem a tendência para fazer filmes que seguem o guião habitual sobre o “racismo estrutural da sociedade dominada por brancos”; curiosamente, quando sai desta camisa de forças, Lee atinge níveis artísticos notáveis (“Inside Man”) ou mesmo perfeitos (“25ª Hora”).

O politicamente correto afirma que os miúdos negros não têm sucesso na escola devido à pobreza, falta de investimento público nas escolas, etc. Não é verdade. Os miúdos pobres oriundos de famílias das Antilhas, da Índia ou mesmo de África frequentam as mesmas escolas e têm sempre melhores notas do que os afro-americanos. Mais: estudantes negros de classe média com pais a ganhar cerca de 70 mil dólares por ano têm piores resultados do que miúdos pobres brancos com pais a ganhar 6 mil dólares, e miúdos negros com pais com formação universitária têm piores notas do que miúdos brancos com pais só com formação liceal. O problema é cultural, não material. O problema está nesta conceção errada de autenticidade. Para se sentir um negro autêntico, um indivíduo sente que tem de caminhar do sentido do anti-intelectualismo que leva ao fracasso na escola, sente que necessita de desenvolver um ideal de masculinidade que leva à taxa de ilegitimidade altíssima, sente que necessita de uma atitude violenta à rapper que conduz ao facto inegável: os negros são responsáveis por metade dos crimes violentos na América.

Quando é confrontado com estes factos, o politicamente correto costuma ter duas saídas. A primeira passa por acusar de racista aquele que aponta para estes factos. No caso de McWhorter, esse rótulo não faz sentido, visto que estamos a falar de um homem negro; recorre-se então à caricatura do Uncle Tom ou house negro, o negro que quer agradar ao branco por covardia ou egoísmo. A segunda saída passa pela seguinte declaração: “A América precisa de uma conversa séria sobre racismo, precisa de reconhecer que este país foi construído sobre a escravatura, etc.” Mas como é que alguém em 2016 pode ainda dizer que a América precisa de uma conversa sobre racismo? Essa tem sido a única grande conversa da América das últimas décadas. Logo nos anos 70, a série “All in the Family”, por exemplo, foi feita para mostrar como o racismo de Archie Bunker era tolo, gozável e destinado a desaparecer. Depois disso, centenas de filmes, séries e documentários sobre a escravatura (século XIX) e sobre a luta pelos direitos civis (século XX) tornaram a saga do negro num dos pilares da cultura americana. Hollywood lança todos os anos filmes sobre a libertação dos negros. Nos últimos anos, tivemos “O Mordomo”, “12 Anos de Escravo”, “Red Tails”, “As Serviçais”, etc., etc. Nas faculdades, qualquer intelectual na linha de McWhorter que desafie a narrativa habitual sobre negros é vítima de apupo, boicotes, bolos na cara. Nesta atmosfera, como é que se pode pedir ainda mais vitimização do negro e culpabilização do branco? Porque é que se insiste em justificar as falhas dos negros de 2016 com a escravatura de 1816? Quando a TV e a internet estão cheias de rappers negros a glorificar a Glock e a palmadinha nas bitches, porque é que temos de ir até ao Amistad para falar da questão negra? Os negros de 2016 já não são os escravos de 1816 e já não vivem no Alabama do apartheid pré-Lyndon Johnson, mas a verdade é que a eternização do estatuto de mártir dá jeito a intelectuais, cantores e até políticos negros. O papel de mártir é muito conveniente, sobretudo se a martilogia em questão for uma herança de um distante tetravó.

No final do dia, o politicamente correto torna impossível qualquer autocrítica no sentido de McWhorter, Thomas Sowell, Larry Elder, Jason Riley, Shelby Steele, porque cria uma bolha acrítica em redor do homem negro, qual frágil bibelô. Como diz McWhorter, os brancos têm de parar com esta condescendência que assenta num raciocínio racista: o perímetro moral do negro é mais reduzido. A violência, o abandono de crianças pelo pai, o machismo e o desprezo pelo conhecimento estão entre as piores características da natureza humana; são violações universais da decência e não podem ser desculpadas ou elevadas à condição de cool quando são cometidas por negros. Esta condescendência impede a autocrítica negra e nenhuma cultura progride sem autocrítica, sem um exame de consciente, sem um espelho. Por outras palavras, falta à cultura negra um “Sopranos” ou um “Padrinho”. Ou talvez a série “The Wire” possa ser vista como o equivalente negro das obras clássicas sobre a máfia italo-americana, sobretudo aquele monólogo que Bunk (polícia negro) dirige a Omar (gangster negro): “Nós tínhamos uma comunidade e agora só temos cadáveres e predadores como tu. Estive há bocado no local do assassínio e ouvi miúdos a glorificar o teu coiro, a gritar o teu nome. Isso dá-me nojo, filho da puta.”

Bunk sai de cena, a câmara aperta o plano e vemos em pormenor o rosto de Omar: está consumido pela culpa. Onde é que estão mais cenas como esta na cultura negra americana?

O outro Camus

Na Europa, um mecanismo mental semelhante ocorre na relação entre reformistas muçulmanos e o politicamente correto dominante. Tal como McWhorter, o muçulmano democrata e liberal é visto como um house negro sem a verdadeira autenticidade do field negro. Olhemos por exemplo para os casos de Boualem Sansal e Kamel Daoud, romancistas argelinos com forte presença mediática em França.

Sansal considera que o islamismo radical está a crescer em França sem obstáculos e, para surpresa de muitos, considera que a França de 2016 é cada vez mais parecida com a Argélia da guerra civil. Intelectual de filiação orwelliana, Sansal é impiedoso na crítica que faz à cobardia e imprecisão intelectual do centro político e mediático: “Vivemos numa sociedade que murmura; as pessoas não dizem as coisas com clareza porque têm medo de serem rotuladas de islamofóbicas, ou porque têm medo de estarem a fazer o jogo da extrema-direita, ou porque têm medo de serem assassinadas.”

Tal como na questão do negro nos EUA, a questão do muçulmano na Europa fica escondida em murmúrios privados sem acesso ao espaço público. São tabus. Neste sentido, Sansal é parecido com Houellebecq. Tal como Houellebecq, o argelino considera que as forças que poderiam conter o islamismo estão paralisadas pelo medo de ver e dizer as coisas com clareza; tal como o último romance de Houellebecq, “Submissão”, o último romance de Sansal, “2084”, é uma distopia orwelliana sobre um futuro controlado por uma ditadura islamita. Como seria de esperar, esta linha de raciocínio já lhe valeu a acusação de “islamofobia”. “Je suis islamistophobe, pas islamophobe”, foi a sua óbvia resposta. Mas o problema está precisamente nesta justificação de Sansal. Não é ele que tem de dar explicações. Quem deve uma justificação é o típico intelectual de esquerda que insiste em transformar o islamita antiocidental no único e autêntico representante do Islão.

O caso de Kamel Daoud é ainda mais interessante. Este escritor argelino filia-se diretamente em Albert Camus, quer no romance (“Meursault — Contra Investigação”), quer na opinião. Numa dessas colunas de opinião no “Le Monde”, Daoud teve coragem para abordar as violações em massa de Colónia. Seguindo à risca o reportório de Camus, Daoud criticou a forma como a direita nacionalista cede à caricatura do muçulmano enquanto bárbaro, mas também criticou a esquerda que é incapaz de criticar os muçulmanos que de facto violaram aquelas mulheres. De seguida, apontou o dedo à misoginia muçulmana, afirmando que os homens muçulmanos têm uma relação doentia com a mulher, que o sexo é a grande miséria do mundo árabe, que esta patologia sexual já existe nas comunidades muçulmanas da Europa e que poderá ser reforçada com esta vaga de refugiados que está a saltar de um espaço misógino e complexado (Médio Oriente) para um espaço feminista e descomplexado (Europa). Para terminar, Daoud defendeu a europeização dos valores e costumes dos refugiados. Nada disto é novo. Há dezenas de autoras muçulmanas que denunciam a misoginia do Islão, a começar no Islão europeu — Hirsi Ali, Camila Entekhabifarb, Shirin Ebadi, Qanta Ahmed, Touria Tiouli, Marjane Satrapi, Monica Ali, Seyran Ates, Serap Çeleli, Irshad Manji, Mukhtar Mai, entre outras.

Mas o politicamente correto ignora estas mulheres e, em consequência, criticou a mensagem de Kamel Daoud. Com a previsibilidade de uma alcateia pavloviana, 19 intelectuais franceses publicaram no “Le Monde” uma carta coletiva que se limita a desqualificar o escritor argelino com a novilíngua do costume: “clichés orientalistas”, “paternalismo colonialista”, etc. É um texto tão previsível que podia ter sido escrito por um algoritmo. Na contrarresposta, Dadoud recorreu mais uma vez à clareza cristalina de Camus: ele vive de facto na Argélia e não aceita lições sobre o Islão de intelectuais que vivem no conforto de Paris e de Nova Iorque. E termina o texto com uma declaração que simboliza bem o ar do tempo: ameaça deixar de escrever em jornais como “Le Monde”, pois não se sente acolhido. Em 2016, um intelectual muçulmano e reformista na linha clássica de Camus sente-se desprezado pela imprensa não por causa de islamitas mas por causa da atmosfera criada pela esquerda intelectual.

“The centre cannot hold”

Nos EUA e na Europa, o centro-esquerda e centro-direita deviam construir um discurso adulto sobre negros e muçulmanos a partir do pensamento de McWhiter e Dadoud, entre outros. Esta é a única forma de voltarmos a colocar a cavilha nesta granada; é a única forma de criarmos um chão comum entre negros e brancos nos EUA e entre brancos e muçulmanos na Europa. Mas é cada vez mais óbvio que este chão comum está a ser abandonado. O Ocidente está a perder o seu centro liberal e conservador porque é incapaz de criar um discurso honesto sobre a questão negra e sobre a questão muçulmana. Vamos passar da fase dos murmúrios à fase dos gritos sem passarmos pela fase do diálogo. O centro-esquerda é incapaz de largar a condescendência politicamente correta que sacrifica a verdade no altar de uma vaidade moral que nasce do velho racismo. O boy continua a ser o boy. Antes o boy negro e muçulmano estava ali para ser humilhado, agora está ali para ser desculpado, funcionando como espelho passivo da caridade da esquerda. O centro-direita, por seu vez, está a ceder à velha tentação identitária do direito de sangue, está a permitir que a questão negra e a questão muçulmana sejam debatidas nos termos reacionários e nacionalistas, está a cair na tentação de formar um bloco com a extrema-direita contra a esquerda numa lógica binária, quando devia perceber que as pessoas que acreditam numa direita liberal e conservadora estão cercadas por duas pulsões irracionais que é urgente combater: o politicamente correto de esquerda e o fechamento identitário da direita.

Do murmúrio ao grito é um pulo de cobra.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 1 de outubro de 2016