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O escritor sem medo

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LAZER. O general nos anos 40 no Canadá num momento de descontração

FOTO Arquivo Fotográfico Humberto Delgado/ANTT

Meio século depois de ter sido assassinado por uma brigada da PIDE, vai ser lançado um romance inédito de Humberto Delgado, escrito nos anos de exílio. O original estava no espólio da secretária, a brasileira Arajaryr Campos, morta juntamente com o general

Em 2005, a documentação da Fundação Humberto Delgado foi enriquecida com a entrega do espólio da cidadã brasileira Arajaryr Campos. Secretária e companheira do general nos seis anos de exílio, Arajaryr foi assassinada juntamente com Delgado pela PIDE, a polícia política da ditadura, a 13 de fevereiro de 1965. Volvidos 40 anos, a família de Arajaryr decidiu doar o seu espólio à fundação com o nome do general, presidida por Iva Delgada, historiadora e uma das suas filhas. Entre a vasta documentação encontrava-se um romance inédito, desconhecido da própria família e que a própria Arajaryr datilografara no Rio de Janeiro. São 185 páginas em folhas de papel A4, a que Delgado deu o título de “Elsa — Romance de Costumes Políticos Portugueses”.

Uma brevíssima referência a esta ficção foi feita em 2008 pelo neto e biógrafo Frederico Delgado Rosa, no monumental trabalho “Humberto Delgado. Biografia do General sem Medo”. Anos depois, aquando da extinção da fundação, o original de “Elsa” foi entregue ao Arquivo Histórico da Força Aérea. Foi lá que viria a ser descoberto pela Sociedade Portuguesa de Autores e pelo seu presidente, José Jorge Letria, no âmbito da preparação da exposição “General da Liberdade e Escritor”, com a qual foi homenageado aquando da atribuição do seu nome ao aeroporto da Portela.

A faceta de escritor é uma das menos conhecidas da sua multifacetada personalidade. No entanto, Delgado escreveu quatro peças de teatro, uma monografia, várias obras de carácter militar e um livro de memórias, além de centenas de textos publicados na imprensa ou lidos na rádio.

Começou a colaborar na imprensa periódica em 1924, com apenas 18 anos. O que então o motivou, segundo Frederico Delgado Rosa, foi tentar “ultrapassar” uma crise sentimental com “uma mulher experimentada que dava pelo nome de Lizette”. Estreou-se no “Jornal de Abrantes”, onde publicou algumas páginas do seu diário. Alargou depois a colaboração à imprensa de difusão nacional, assinando nos maiores jornais do país, como “O Século”, “Diário de Lisboa”, “Diário de Notícias” e “Comércio do Porto”.

Em 1931, estando na quinta familiar de Cela Velha, em Alcobaça, escreveu o primeiro livro. A inspiração partiu da leitura dos feitos de Mouzinho de Albuquerque em Moçambique e em particular na chamada “pacificação” dos vátuas e do seu imperador, Gungunhana. Com o título “Da Pulhice do Homo Sapiens”, destinava-se, como o próprio explicava, “a insuflar patriotismo nas veias dum povo que ‘mama leite e mama política’”. Era uma época em que desdenhava dos políticos, que responsabilizava por todos os males da defunta República. Aos inevitáveis críticos, mas também adversários e inimigos, que já vinha colecionando, desafiava: “Se querem pedir-me responsabilidades por acharem ser calúnia o afirmado, só os autorizo a que o façam por via legal. Hoje, eu, à bofetada, respondo a tiro.” Ao longo de quase 300 páginas, o tenente aviador expunha o seu pensamento político, de ardente adepto da ditadura militar, que ajudara a implantar cinco anos antes, quando alinhara entusiasmado no golpe de 28 de maio de 1926. Compreende-se que o principal destino dos seus acirrados comentários fossem os “chacais do reviralho”, ou seja, os políticos republicanos depostos pelos militares liderados por Gomes da Costa.

Salazar ainda não tomara o poder e Delgado acreditava piamente nas virtudes da ditadura, que viria a servir nos anos seguintes não apenas como oficial mas também nas suas estruturas paramilitares, como a Legião e a Mocidade Portuguesa. Eram tempos de deslumbramento pelos feitos e valores da Alemanha nazi, que o levaram inclusivamente a saudar “o grande Hitler”.

Em 1938, Jorge Botelho Moniz, seu camarada na arma de Artilharia e na Legião, pediu-lhe que escrevesse uma peça de teatro, a ser emitida em direto no Rádio Clube Português, destinada a assinalar o 12º aniversário do 28 de maio. Delgado aceitou o desafio. A peça, intitulada precisamente “28 de Maio”, reconstituía combates da primeira revolta contra a ditadura militar, de fevereiro de 1927, em que Delgado participara de armas na mão em defesa do regime. O cenário começava por ser a Rua de S. Filipe de Néry, tendo como protagonista o capitão Hersílio Silva, que se preparava para penetrar no estratégico Largo do Rato. O capitão acabou por ser gravemente ferido, terminando a peça com um diálogo com a noiva, Cidália, tendo como pano de fundo, sucessivamente, os hinos da Mocidade, da Legião e, por fim, “A Portuguesa”. Para o biógrafo, tratou-se do “último contributo” do avô como “propagandista de Salazar e da Revolução Nacional”.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, passou a ter uma secção na revista “Defesa Nacional”. Chamada “Operações em Terra e no Ar”, eram crónicas militares, que acompanhavam os desenvolvimentos do conflito, enquanto o capitão-tenente Sarmento Rodrigues (futuro ministro das Colónias) comentava a guerra no mar. Reconhecido especialista em assuntos militares (sobre os quais escreveu vários livros), intensificou a colaboração na Emissora Nacional (atual RDP).

À frente da rádio oficial estava o capitão Henrique Galvão. Com trajetos políticos muito semelhantes — desde entusiastas da ditadura militar até ferozes opositores de Salazar —, Galvão aceitou a proposta de Delgado, de uma nova peça radiofónica. “A Marcha para as Índias” recriava o feito histórico de Vasco da Gama, a descoberta do caminho marítimo para a Índia, em 1498. A peça assumia a forma de um diálogo entre dois jovens namorados: ela (Maria), uma fidalga, ele (Martim), um bastardo que haveria de embarcar na nau comandada pelo próprio Gama na sua aventura marítima, o que lhe daria direito a ser feito cavaleiro, tendo como prémio a mão da mulher amada… Os papéis foram desempenhados por Manuel Lereno e Maria Spranger, uma atriz por quem Delgado, no dizer do biógrafo, “teve uma paixão que se transformou em sólida amizade para o resto da vida”. Os dois atores já lhe haviam emprestado a voz no trabalho “28 de Maio”.

Estreia. A peça “Asas”, de Humberto Delgado, foi apresentada pela primeira vez no Teatro da Trindade, a 24 de dezembro de 1942. O autor, ao centro, tem à sua esquerda a atriz Brunilde Júdice e, atrás, João Perry, que desempenhavam os principais papéis

Estreia. A peça “Asas”, de Humberto Delgado, foi apresentada pela primeira vez no Teatro da Trindade, a 24 de dezembro de 1942. O autor, ao centro, tem à sua esquerda a atriz Brunilde Júdice e, atrás, João Perry, que desempenhavam os principais papéis

foto Arquivo Fotográfico Humberto Delgado/ANTT

Um exemplar impresso da peça “A Marcha para as Índias” foi oferecido, com uma dedicatória, a Salazar ainda em 1940 — o ano em que ocorreu “a maior viragem psicológica” de Delgado desde a instauração da ditadura, expressa numa longa carta ao presidente do Conselho. Foi a primeira expressão de uma rutura que viria a acabar da pior maneira, com o assassínio de Delgado por uma brigada da PIDE.

Ainda em 1940, escreveu uma terceira peça radiofónica: “Mariana Alcoforado, a Freira de Beja”, inspirado nas cartas de amor daquela religiosa do século XVII, endereçadas a um oficial francês que estivera ao serviço do rei de Portugal durante a guerra da restauração. Segundo o relato do próprio Delgado (em “A Tirania Portuguesa”, de 1995), a peça foi apresentada na Emissora Nacional e “passou na Censura a despeito do escabroso do assunto, creio que mercê de o último ato ter sido por mim intitulado de expiação”. O texto viria a ser publicado, 23 anos depois, como anexo a uma monografia que Delgado lhe dedicou, com a chancela da editora Civilização Brasileira e o título de “O Infeliz Amor de Soror Mariana Alcoforado, a Freira de Beja”.

Não deixando nunca as crónicas de guerra — em que já se notavam as suas inclinações pró-britânicas —, regressou à dramaturgia em 1942. Desta vez, a peça não se destinava à rádio, sendo um projeto bem mais ambicioso. Chamou-lhe “Asas”, o tema era da sua especialidade (a aviação) e tinha uma marca acentuadamente autobiográfica. Não por acaso, o principal protagonista era um capitão aviador, Rui Albuquerque, injustamente perseguido pela justiça militar. Julgado em conselho de guerra, o herói tinha como amante uma refugiada do regime soviético, suspeita de espionagem. A estreia no Teatro da Trindade, pela companhia Alves da Cunha, foi na véspera de Natal, a 24 de dezembro de 1942. João Perry (pai do ator com o mesmo nome) vestia a pele do oficial, enquanto Brunilde Júdice era a alegada espia comunista. O original desta peça esteve desaparecido durante décadas e foi já neste século que um exemplar foi descoberto na Direção-Geral da Propriedade Industrial, estando depositado na Biblioteca Nacional.

Ao contrário do que aconteceu na capital, no Porto a peça teve um acolhimento entusiasta, não apenas da crítica, mas entre o público, que esgotou as várias récitas. Curiosamente, foi também o Porto que protagonizou, em 1958, a primeira receção apoteótica a Delgado, já não ao dramaturgo, mas ao candidato a Presidente da República, dando o tom ao resto da campanha. Candidato da oposição, para este entusiasmo muito contribuiu a sua promessa de afastar Salazar do poder, expressa no decorrer de uma conferência de imprensa no Café Chave de Ouro e numa frase que ficou para a história: “Obviamente demito-o.” As eleições tiveram lugar a 8 de junho de 1958. O regime estremeceu e não quis correr qualquer risco de um vexame nas urnas. Como não podia deixar de ser, a vitória foi atribuída ao candidato do regime, o apagado almirante Américo Tomás, a quem foram conferidos 76,4% dos votos, contra os 23,6% de Delgado, que entretanto ganhara a alcunha de “general sem medo”. “Fui roubado!”, foi o comentário de Delgado ao resultado oficial, o que a Censura tratou de silenciar. Transformado em principal inimigo da ditadura, a PIDE não mais o largou. A 12 de janeiro de 1959, pediu asilo político na embaixada do Brasil, que se situava paredes-meias com a sede nacional da polícia política, na Rua António Maria Cardoso. Recebido de braços abertos pelo embaixador Álvaro Lins, ali permaneceu durante três longos meses. Sem poder sair, sem receber ninguém (exceção feita à visita diária da família), voltou à escrita. O embaixador disponibilizou-lhe o espaço da biblioteca e uma máquina de escrever, onde deu início à redação das suas memórias e do romance “Elsa”.

Afastado compulsivamente da Força Aérea (onde só seria readmitido postumamente e com o título de marechal), Delgado deixou Portugal a 21 de abril de 1959, com destino ao Brasil e ao exílio. Consigo levou os dois manuscritos, que só viria a completar, anos depois, no Rio de Janeiro. Quem datilografou os originais foi Arajaryr Canto Moreira Campos, uma carioca filha de mãe portuguesa e pai espanhol. Conheceram-se um mês depois da chegada do general ao Rio, numa festa em sua honra. Contratada como secretária, passou a ser sua companheira e viria a ser igualmente assassinada pela PIDE, perto de Badajoz. Três anos antes lançara no Brasil o livro “Tufão sobre Portugal”, uma compilação dos seus principais textos de carácter político desde a campanha eleitoral.

Concluídas, segundo o jornalista e amigo António de Figueiredo, em 1961, as memórias só foram publicadas em 1964, em Londres. Adquiridas inicialmente pela editora Opera Mundi, de Paris, acabaram por ser editadas em inglês pela Cassel (“The Memoirs of General Delgado”). O autor queixou-se amargamente — e não sem razão. Numa carta escrita num hospital de Praga (onde fora submetido a uma cirurgia de urgência aos intestinos), contou a Figueiredo que “eles encomendaram-me 450 páginas, só saíram 230 sem consulta”. Por outro lado, foi publicado com três anos de atraso, sem as indispensáveis atualizações (designadamente sobre o golpe de Beja), que haviam sido enviadas ao editor. Enfim, “o tradutor tem passos em que fantasiou, introduzindo alterações de sentido pondo o contrário (!) do original”. As memórias valeram-lhe dois mil dólares (cerca de 24 mil euros ao valor atual). “Estoirei quase todos em Marrocos, antes de Beja, por causa da falta de dinheiro”, lamentou-se noutra carta. Estranhamente, a edição não chegou ao grande público. O próprio António Figueiredo, que vivia em Londres, explicou que tivera “dificuldade em encontrar uma cópia do livro porque a edição se tinha rapidamente esgotado”. Mais tarde, o jornalista viu confirmadas as “suspeitas de que Salazar mandara adquirir a edição na totalidade”.

O original das memórias desapareceu. Foi a partir da versão inglesa que as Publicações Dom Quixote publicaram, em 1991, as “Memórias de Humberto Delgado”, com coordenação de Iva Delgado e António Figueiredo. Quanto ao romance “Elsa”, vai ser editado pela Guerra e Paz e já tem lançamento marcado: 13 de fevereiro, dia em que completam 52 sobre o assassínio do autor.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 1 de outubro de 2016