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Frescos com 400 anos revelados em igreja de Santiago do Cacém

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TIAGO CANHOTO

Escondida atrás da cal, uma pintura do século XVII, onde figura um "concerto celestial" e a "santíssima trindade", está agora exposta na abóbada da Igreja Matriz de Alvalade, em Santiago do Cacém, que vai ser convertida em museu.

Escondida atrás da cal, uma pintura do século XVII, onde figura um "concerto celestial" e a "santíssima trindade", está agora exposta na abóbada da Igreja Matriz de Alvalade, em Santiago do Cacém, que vai ser convertida em museu.

Durante os últimos dois meses, especialistas em conservação e restauro estiveram no edifício de bisturi em punho para, num trabalho minucioso, remover cautelosamente as camadas de cal até expor a pintura, que terá sido executada há cerca de 400 anos, na primeira metade do século XVII.

"A construção da igreja termina em 1570, portanto estamos a falar em finais do século XVI, e a pintura figurativa será, com toda a certeza, realizada cerca de 40 a 50 anos depois, na primeira metade do século XVII, entre 1600 e 1650", diz à agência Lusa Artur Pestana, da empresa Mural da História, que executou os trabalhos de conservação e restauro.

Com tons como o "amarelo, o castanho, o preto e o branco", a pintura, feita com "pigmentos naturais", representa "um concerto celestial", ou seja "um grande concerto de anjos", com "instrumentos de sopro", mas também "violinos, guitarras, alaúdes e um órgão", que envolve o "motivo central", que é "a santíssima trindade", explica.

O trabalho de conservação e restauro dos frescos agora revelados levou à descoberta de motivos decorativos ainda mais antigos, presumivelmente datados da época da construção do edifício, em 1570, e que passaram a ficar também parcialmente visíveis, dando, assim, prova de "duas campanhas decorativas" no mesmo espaço.

"A primeira campanha não é uma pintura, é um trabalho em esgrafito muito simples, muito singelo e que é visível, uma decoração circular com uma flor de quatro pétalas que está no centro da abóbada", revela Artur Pestana, esclarecendo que essa terá sido "a primeira decoração da capela ou da igreja, que será com toda a certeza contemporânea da construção".

Descobertos em 2014, no decurso de trabalhos de prospeção pictórica, os frescos, que decoram a abóbada da capela, vão agora permanecer visíveis no edifício que a Câmara Municipal de Santiago do Cacém, no distrito de Setúbal, pretende converter em Museu de Arqueologia.

Com esse projeto em mente, o município e a Junta de Freguesia de Alvalade têm vindo a investir na reparação das coberturas do edifício, bem como na escavação arqueológica e antropológica, que levou também à descoberta, há alguns anos, de uma necrópole no interior da igreja.

"Temos o projeto praticamente concluído, queremos avançar com a empreitada da obra em princípio no primeiro semestre do próximo ano com o objetivo de abrirmos o novo espaço até ao final do mandato", adianta à Lusa o presidente do município de Santiago do Cacém, Álvaro Beijinha.

A intenção é que uma nova estrutura museológica venha reforçar as três já existentes no concelho, o Museu Municipal, em Santiago do Cacém, o Museu do Trabalho Rural, na Abela, e o Museu da Farinha, em São Domingos, criando uma "rota de museus".

Para criar o novo museu, está previsto um investimento de 300 mil euros, esperando o município contar com comparticipação de fundos comunitários, que poderão chegar a 85%.

Desde 1861 que o edifício da antiga Igreja da Misericórdia de Alvalade deixou de ser usado como lugar de culto, tendo desde então, servido de sapataria, residência familiar, sede partidária ou local de acolhimento de escuteiros, exposições e da comissão de festas.