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José Tribolet: “O Estado, em Portugal, não é pessoa de bem”

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Luis Barra

É um dos principais rostos da ciência e tecnologia em Portugal dos últimos 40 anos. Sem o INESC não teria tanta fama. Ou será o contrário?

Luís Barra

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Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores (INESC) diz-se incapaz de pensar descalço. E por isso é sem sapatos que recebe, no seu gabinete, caloiros do Técnico e ministros. “Vem dos tempos em que andava a brincar descalço com a rapaziada”, explica. Orgulhoso aluno do Colégio Militar e um dos melhores estudantes que alguma vez passaram pelo Técnico, faz um balanço dos 36 anos de INESC.

Em 1978, teve a ideia de criar o INESC com dois colegas. O que leva um doutorado com carreira promissora no Bell Labs a querer voltar a Portugal?
A minha educação nos EUA foi paga pelo povo português. Quando o doutoramento acabou, tive ofertas do MIT e da Bell. Mas tinha um compromisso moral. E os laboratórios da Bell disseram-me: “Vais, mas durante cinco anos, tens aqui o lugar à espera.” O que me permitiu regressar de cabeça erguida e sem medo quanto à carreira.

Com o INESC ganhou um poder que alguns secretários de Estado e ministros não tiveram...
Efetivamente, sim. Mas não fui só eu que fiz o INESC; foi um conjunto de pessoas do Técnico e da Universidade Técnica e dois ministros importantíssimos: Rui Crespo, da Educação, e Viana Baptista, das Comunicações. E ainda a administração dos CTT, com Norberto Pilar.

Os outros dois mentores do INESC também estudaram no estrangeiro...
A ideia original foi minha, do Fonseca de Moura e do Lourenço Fernandes. Nós éramos conhecidos como “os estrangeirados”...

… além de espiões da CIA!
Isso era comigo. O Fonseca de Moura estava ligado à UDP e o Lourenço Fernandes ao PCP.

E o professor Tribolet?
Eu pertencia à CIA – não era o que se dizia na altura?! Conscientes disto, fizemos um pacto: durante a criação do INESC tivemos de forjar alianças e usar relações a favor desta nossa ideia. Sabíamos o que se dizia, mas usámos a política para criar o INESC.

O INESC basta-se a si próprio?
Em 36 anos, o INESC deu prejuízo em dois. Foi durante o Governo de António Guterres, que não cumpriu os compromissos do Estado português numa ação que tínhamos com o Fundetec. E ficou tudo pago. Não houve faturas falsas nem fundo social europeu. Durante 10 anos, tive no gabinete ao lado uma inspeção de finanças que via tudo.

Houve guerra política?
Só lhe sei dizer o seguinte: ficámos a arder uns 1,250 milhões de contos (o correspondente a seis milhões de euros) em dois anos.

O professor Tribolet já não tinha o mesmo encanto.
Foi um enorme desalinhamento ideológico com a linha napoleónica que dominava a Ciência e a Tecnologia do Governo Guterres e que era personificada pelo professor Mariano Gago. Já agora: quero prestar a homenagem a Mariano Gago. Mais de metade das coisas que ele fez foram excecionais e o país deve-lhe muito.

E o INESC?
Houve comportamentos com que estive em profundo desacordo. Por muito que António Guterres tentasse que nos alinhássemos. Guterres, Gago e eu sempre fomos amigos. O pensamento napoleónico diz que o “Estado tem obrigação de...”, mas no meu entender o Estado, em Portugal, não é pessoa de bem. A minha experiência fez-me acreditar na iniciativa de indivíduos, associações ou câmaras. Do outro lado, defendia-se que era o Orçamento do Estado que devia aplicar as boas políticas. Tive uma reunião com Mariano Gago, um ano depois de ser ministro – e ele disse-me: “Quem é ministro sou eu e eu defino como é que é.” Respondi-lhe: “Então porque estamos a conversar?” Saí do gabinete e a conversa acabou ali.

Acabou a relação?
A relação pessoal não, mas nunca mais falámos sobre ciência e tecnologia. Em 10 anos, tínhamos formado 12 mil profissionais (de tecnologias). Eu e Roberto Carneiro chegámos ao Governo Guterres com uma proposta para formar 100 mil, entre 1995 a 2002. Diziam que era muito caro, que o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) fazia mais barato, e desfizemos tudo. Tudo! Estou a falar da máquina do Fundetec. E como se vê, o IEFP formou esses técnicos todos...

Está a ser irónico.
Só agora o ministro Manuel Heitor está a retomar o problema a sério.

Isso é recente. Antes disso, ficou na sombra política...
Fui castigado no Governo Guterres porquê? Como tivemos sucesso e o governo anterior era de Cavaco associaram-me ao cavaquismo.

... de certeza que não é do PSD?
Não sou do PS, nem do PSD, nem do CDS nem do PCP. Quando regressei a Portugal tomei duas decisões: nunca me inscrever num partido e nunca ir para o Governo. Tomei a decisão no momento em que me tornei catedrático, em 1979. Nos anos 90, Raul Junqueiro, outra pessoa a quem o país deve muito, colocou-me na comunicação social. Depois de um ano de sabática nos EUA, defini a reorganização do INESC. E partir daí só ia para a comunicação social falar sobre educação ou modernização do Estado. Nunca falei de investigação nestes anos todos...

Até porque já não é investigador.
[zangado] Não sou investigador? Desde 2007, doutorei 10 tipos em entreprise engineering! Tenho duzentos e tal papers publicados!

E sobre as novas incubadoras? Serão só um negócio de imobiliário?
O movimento de incubadoras e de capital de risco e de capital semente geraram uma dinâmica muito interessante. Nos anos 90, eu e Lourenço Fernandes viemos da Califórnia com uma proposta para aquilo que é hoje o Taguspark. Queríamos criar um campus universitário, com cinco mil estudantes a viver lá. Desafiámos as Universidades Nova, Técnica e Clássica. O plano exigia 50 milhões de contos (250 milhões de euros sem contar com a inflação). Tive conversas com o André Jordan, por causa do campo de golfe...

... que continua sem ser usado.
Está a falar do que sucedeu depois. A visão inicial tinha esses ingredientes todos, mas acabou por ficar partida aos bocados. Levámos isto ao ministro Valente de Oliveira, que achou piada. Havia alguns sítios possíveis: Palmela, Santarém e Mafra. Depois apareceu Isaltino Morais e juntou as câmaras de Sintra e Cascais, que também eram PSD. E disse que seria um projeto dos três concelhos. Sintra saiu logo e Cascais desistiu. Em Oeiras, tudo o que era supermercados ficou noutro sítio. As residências que faziam parte do projeto não ficaram no Taguspark. O golfe também ficou à parte. E o Taguspark ficou com um negócio não rentável. Eu disse que só íamos para lá com as residências construídas.

O INESC nunca saiu das Avenidas Novas.
O INESC ainda investiu no Taguspark um milhão de contos em infraestruturas. Foi tudo para o lixo, apesar de estar tudo preparado para termos um segundo financiamento. Já tínhamos ruas e esgotos, mas com o Governo Guterres, a nossa segunda candidatura que estava praticamente garantida foi perdida três vezes no ministério! Nunca me responderam durante três anos. Tinha um projeto lindo, mas não tivemos a segunda tranche de investimento. Com residências para alunos e professores e a vertente empresarial... era um novo Silicon Valley.

E hoje é o quê?
Está andar a um ritmo muito mais lento do que poderia andar. Não estou frustrado. Temos de ter sonhos altos e capacidade de lidar com a realidade.