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Gangue do tabaco escondia-se em França

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Dois alegados assaltantes em pose no Facebook

DR

Motoristas sequestrados para fora do país. Grupo foi apanhado esta semana por causa de GPS no tabaco

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

“Firma de pesados. Bang bang”. Nas redes sociais deixavam palavras em código e faziam selfies com a cara tapada com gorros escuros como os usados nos assaltos às carrinhas de transporte de tabaco. Agiam com tanto à vontade que o líder, Francisco C., apesar de ser procurado pela polícia — depois de ter saído em licença precária da cadeia de Sintra — tinha um perfil ativo no Facebook onde posava ao lado de um cartaz da cantora Ana Malhoa e viajava para o estrangeiro com regularidade.

As armas de guerra, as ameaças de morte e os sequestros repetiram-se nos últimos cinco meses. Vinte assaltos depois, o núcleo duro do grupo “que ultrapassou o grau de violência de gangues que fazem o mesmo tipo de assaltos na cidade do México ou de São Paulo” — segundo fontes ligadas ao processo — foi apanhado em duas operações policiais que deixaram um militar da GNR ferido e um assaltante morto. O arsenal de armas de guerra apreendido no Porto Alto e em Camarate, no início da semana, veio confirmar as suspeitas de que os cinco homens detidos tinham ligações com outros grupos do submundo do crime violento, dentro e fora do país.

As pistas estendem-se até uma pequena cidade francesa situada entre Bordéus e Toulouse: Villeneuve-sur-Lot. Era daí que Francisco C. comandaria as operações, distribuindo ilegalmente o tabaco roubado em Portugal para outros pontos de França, a preços abaixo do mercado. Apesar da sua detenção a 30 de setembro, as autoridades suspeitam que esta rede de contactos continue ativa. E estarão a contar com a colaboração da polícia francesa para apanhar mais cúmplices. Uma fonte oficial da Polícia Judiciária garante que a investigação “ainda está em curso”.

Em Portugal, os assaltantes de tabaco seguiam o mesmo guião: apanhavam os motoristas desprevenidos e ameaçavam-nos com armas apontadas à cabeça. “Matamos a vossa mulher e os filhos se fizerem queixa à polícia”, gritavam para intimidar. De seguida, fechavam as vítimas no interior das viaturas e viajavam com elas amarradas durante cerca de uma hora. Largavam-nas depois, com novas ameaças de morte, transferindo os maços de tabaco para várias carrinhas Ford Transit. O sequestro foi mais prolongado do que o habitual em pelo menos um dos vinte casos: as vítimas foram libertadas “já do outro lado da fronteira”, algures em Espanha.

Os autores foram cometendo erros durante os crimes, que se iam sucedendo em Leiria, Santarém, Torres Vedras, Caldas da Rainha ou Lisboa. Alguns permitiram que as vítimas vissem o seu rosto, mesmo que por breves segundos. E foram mais tarde reconhecidos no Facebook.

Um dos passos mais importantes na investigação da PJ e da GNR deu-se depois da colocação de aparelhos GPS dentro dos maços de tabaco. Foi assim possível perceber com maior exatidão quais as rotas rodoviárias utilizadas na fuga após cada assalto: o material roubado era rapidamente escoado para fora do país até Villeneuve-sur-Lot. O cerco foi-se apertando e a “firma de pesados” foi apanhada, precisamente numa altura em que preparavam um novo assalto.