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A elegância do desejo

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Malas que não são meras malas. São fruto da paixão de princesas e um símbolo de statu quo

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Há coisas que são difíceis de definir. Como o luxo. No dicionário Priberam encontramos duas opções. “Modo de vida que inclui um conjunto de coisas ou atividades supérfluas e aparatosas. Um bem ou atividade que não é considerado necessário, mas gera conforto ou prazer.” Qualquer das frases poder-se-ia associar a uma it bag. Não há como traduzir este termo para português. São malas, símbolo de um statu a que se aspira. Carteiras de usar ao ombro ou pela mão com um preço exorbitante, mas com as quais muitas mulheres sonham. São peças que se desejam com paixão. Intemporais. Ser a privilegiada dona de uma it bag é alcançar um patamar, completar um item de uma bucket list. Muito diferente do que ter uma hit bag, as carteiras que mais se vendem durante uma estação. Esse agá é a diferença entre um casamento e uma relação fugaz. Estas carteiras são histórias de amor.

É preciso vê-las além do óbvio. Do design e dos materiais delicados. Atrás de uma mera imagem inacessível está, quase sempre, uma história, rica em simbolismos e metáforas. Como é o caso da mais emblemática de todas as malas, a Birkin. Tal como muitas histórias de amor que se veem no cinema, este romance entre a cantora e atriz francesa, Jane Birkin, e a casa Hermès começou há 33 anos, durante um voo de Paris para Londres. Jane deixou cair o imenso conteúdo da sua mala, no qual se incluía um diário Hermès, e Jean-Louis Dumas, na altura diretor-geral da marca, ajudou-a. Gerou-se uma conversa e, no regresso, Dumas e a Hermès criariam um objeto de luxo, feito em pele de um raro crocodilo dos Himalaias, e por um único artesão a partir de uma só peça, que batizariam de Birkin. Estava criada a mala mais cara de sempre. Começa nos €6200 e pode chegar aos €267 mil, como a que foi leiloada este verão, pela Christie’s em Hong Kong, e que continha 245 diamantes incrustados. O comprador foi um anónimo daquele território chinês. A lista de espera para se comprar uma destas malas (falamos de pessoas com disponibilidade para dar milhares de euros por uma carteira) começa em ano e meio.

A Hermès lançou a moda das it bags

A Hermès lançou a moda das it bags

Antes de a mala Birkin nascer, nos anos 50, já a Hermès tinha dado o pontapé de saída das it bags, quando Grace Kelly se apaixonou por um modelo que a casa produzia desde 1892, a Sac à Dépêches. A atriz tinha tomado contacto com a mala durante as gravações do thriller de Alfred Hitchcock “To Catch a Thief”. Anos mais tarde, já princesa, usou-a para tentar esconder a gravidez da primeira filha. Foi o momento em que a mala foi elevada a símbolo de desejo mundial. Diana de Gales foi outra princesa cujo (bom) gosto tornou célebre uma mala. A pequena Lady Dior, também conhecida por carteira princesa, foi criada em 1995 e destacou-se pelo tamanho pequeno e por discretos amuletos presos numa das alças. Numa altura em que o conceito de menos se tornou mais, a então primeira-dama francesa, Bernadette Chirac, ofereceu uma destas malas à princesa inglesa. As duas — princesa e mala — tornar-se-iam inseparáveis.

Também na década de 50, a conceituada Coco Chanel contribuiu para alimentar a paixão por carteiras com a sua 2.55, criada em fevereiro de 1955 — daí o nome. As suas origens, contudo, estão no início do séc. XX, quando Coco se cansou de carregar as suas malas com as mãos e teve a ideia de criar uma que fosse transportada apenas ao ombro. Com o seu regresso à indústria da moda, em 1954, veio também a 2.55. Conta-se que o forro interior borgonha é inspirado nas fardas do colégio católico que frequentou — e onde os bolseiros eram separados dos restantes alunos. Esta distinção é, aliás, apontada como uma das origens do seu interesse pela moda e algo que a influenciou nos primeiros tempos de criação. Desde que foi lançada e relançada, em 2005, desta vez, pelas mãos de Karl Lagerfeld, que se tem mantido na moda. O seu preço varia, mas pode chegar aos €5 mil. O bolso interior com fecho foi desenhado para esconder cartas de amor.

Nesta lista de objetos supérfluos, aparatosos e que geram prazer, a Jackie O, a carteira de ombro da Gucci pela qual a primeira-dama americana se apaixonou, ocupa um lugar de destaque. Desde que Jacqueline Kennedy se tornou inseparável da então moderna mala — na altura as carteiras de bom tom eram as de mão — que outras celebridades se seguiram, como Elizabeth Taylor, ajudando também a popularizá-la. O sucesso manteve-se. O modelo foi relançado em 1999 pelo estilista Tom Ford e dez anos mais tarde por Frida Gianni, a nova diretora criativa da marca.

Mas nem só de princesas e primeiras-damas se faz a história das it bags. Uma aparição, em 1997, da Baguette da Fendi na série “O Sexo e a Cidade” lançou a carteira para o sucesso. Mais de cem mil modelos se venderam depois disso. Demasiado para uma bolsa muito pequena (o nome está precisamente relacionado com o tamanho) e muito pouco funcional (não cabe quase nada lá dentro). “Foi uma tolice, um deleite, antifuncional. Foi a primeira bolsa que foi tratada como uma peça de roupa”, disse Silvia Venturini, da “Vogue”, comentando o sucesso de vendas desta mala.

O valor do desejo

Em 1889, Thorstein Veblen, um economista e sociólogo americano, apresentou um livro sobre o consumo ostensivo que o capitalismo fomentava. Em “A Teoria da Classe Ociosa”, aquele que é considerado o fundador da economia institucional, criticou a ostentação dos ricos e a forma como adquiriam objetos unicamente para mostrar que eram ricos.
Veblen explicava como o preço de alguns bens aumentava à medida que a procura subia, ao contrário da lógica da economia que diz que o preço tende a diminuir com o aumento da oferta. Estes bens têm o valor de mostrar a riqueza do seu proprietário. Está aqui a origem da relação entre uma it bag e o seu preço. Esta explicação reforça a distinção entre uma hit e uma it bag.

As marcas de luxo agarram-se à qualidade de fabrico, ao trabalho dos artesãos, à raridade dos materiais para justificar o preço. À revista inglesa “1843”, da “The Economist”, um analista do BPN Paribas explicou que, apesar destes fatores, o preço de produção de uma carteira Birkin ronda os 800 dólares, ficando muito aquém dos 7 mil dólares ou dos 300 mil que já foram cobrados.

Esta imagem de novo rico não tem impedido as vendas destes modelos. Um estereótipo que não atinge os turistas chineses cujas compras, em lojas japonesas, da famosa Birkin e Kelly impulsionam o crescimento dos lucros da Hermès. É um fluxo responsável por um aumento de 31% nas vendas.

O ano passado, a mítica casa francesa faturou 2,3 mil milhões de euros em vendas, no primeiro semestre do ano, quando em 2014 se tinha ficado pelos 1,9 mil milhões de euros. Há relatos de chineses donos de fábricas que compram vários modelos de uma só vez para os poderem copiar. A Kelly e a Birkin, especialmente esta última, são das malas mais falsificadas. Tanto se compram imitações numa feira barata como algumas marcas de massas já assumiram que se inspiraram nestes modelos e produzem exemplares com design semelhante e material inferior.

Mas não é a mesma coisa. Quem sonha com uma verdadeira 2.55 ou com uma original Kelly sabe que não se pode contentar com uma falsificação. É que este querer ter para querer ser também é emocional. É o preço do luxo. Do desejo. Da paixão. De querer ter algo especial que distinga quem o carrega e não o contrário. Mas ainda há quem não se deixe deslumbrar. Aos 68 anos, Jane Birkin veio pedir à Hermès que rebatize a carteira. Não quer ser associada à morte cruel dos crocodilos que dão corpo à mala.