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Spotify + Soundcloud = vem aí o maior serviço mundial de música digital

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COMPRO! Daniel Ek, CEO da Spotify

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O cruzar de braços amarrota a t-shirt e há um esgar de sorriso suave que sobe até aos olhos, sombreados por um chapéu amparado por uns grandes auscultadores. Aos 19 anos, Shawn Fanning conquista por mérito a capa da “Time” de 2 de outubro de 2000. O adolescente, que tinha desistido do liceu, era o responsável pela maior revolução de sempre na indústria da música. Foi naquele cérebro, escondido na fotografia de capa pelo chapéu dos Red Sox (equipa de basebol de Boston), que se produziu o caldo primordial de onde eclodiu o Napster, o primeiro serviço de partilha de ficheiros criado para a troca de músicas.

À “Time” Fanning contava que nem se lembrava bem do processo criativo. Recorda-se de grandes maratonas de programação (algumas de 60 horas) e de gerar os milhares de linhas de código necessários para colocar no ar o Napster antes de possíveis concorrentes. Acreditava que a ideia era tão boa que outros a poderiam concretizar. Era preciso programar… e rápido – até parece que estamos a ouvir Mark Zuckerberg a descrever o advento do Facebook.

Foi em 1999 que a criação do jovem de 18 anos viu a luz do dia. Materializou-se num programa que podíamos instalar no computador e que abria as portas, literalmente, a um mundo onde a música circulava livremente, longe do controlo dos músicos e das editoras discográficas. Fanning não teria noção dos efeitos devastadores que a sua criação tinha injetado nas redes de computadores um pouco todo o planeta. O resto é história. A indústria discográfica ajudada por alguns artistas lesados pela livre circulação da música (os Metallica chegaram a processar o Napster, como pode ler AQUI ) acionou os meios legais necessários para fechar, em 2002, as portas do Napster. Altura em que aquela rede teria mais de 80 milhões de utilizadores diários. Mas já não havia volta a dar: os utilizadores tinham mostrado que o suporte físico já não fazia sentido e a música começava a fazer um caminho tortuoso entre a liberdade permitida pela Internet e as regras que regulamentam esta atividade.

Hoje, 16 anos volvidos do engenho de Fanning, esta indústria começa dar sinais animadores. Voltou ao crescimento como pode ser constatado pelos números apresentados pela RIIA e referentes ao primeiro semestre deste ano. O relatório da Recording Industry Associaton of America que pode ser consultado AQUI é a melhor lupa para nos dar a perceber todos os pormenores desta área de atividade.

É dessa forma que é possível ver como os serviços de streaming continuam a registar um aumento do número de utilizadores pagantes e como são estas empresas as principais responsáveis pela faturação das editoras discográficas. Sim, leu bem. Pela primeira vez, a principal fonte de receita da maioria das editoras e dos artistas vem de serviços como o Spotify e o Apple Music. Este analista da “Forbes” prevê, mesmo, que o crescimento de receitas da indústria da música suba este ano para os 7,3 mil milhões de dólares. Um crescimento de 4%, como pode ler-se AQUI.

O crescimento de serviços de música de subscrição paga, como os já referidos, vai continuar a crescer. Afinal, nos EUA serão 30 milhões os que já pagam para ouvir música. Metade dos que investem para ver vídeo em serviços de streaming como o Netflix.

Spotify aposta forte no Soundcloud?

Tem sido um rumor das últimas semanas. O Spotify, o serviço de streaming de música com mais utilizadores pagantes no mundo, estará em conversações para comprar o Soundcloud. Vamos por partes. O Spotify anunciou em junho que tinha 100 milhões de utilizadores ativos. Desses, 30 milhões pagam subscrição. Os outros 70 ouvem publicidade entre as músicas como forma de pagarem a utilização do serviço. Só para termo de comparação, e são números de junho deste ano, o Apple Music, da Apple, tinha 13 milhões utilizadores a pagar subscrição.

O mais curioso é constatar que, apesar da alarvidade dos números e de ter sido o primeiro a fornecer um serviço “all you can eat” para música, o Spotify teve, o ano passado, uma perda de 185 milhões de euros.

Como é que isto é possível? O problema é fácil de identificar. O modelo de negócio do Spotify está baseado em revenue share: quantos mais utilizadores ouvem determinada música, mais a editora e o artista recebem por parte da empresa sueca. Simples. Certo? À medida que o número de utilizadores aumenta, mais gente ouve música, mais o Spotify paga. Seria bom, caso o número de subscritores pagantes fosse mais equilibrado com os que preferem o freemium (ouvir com a publicidade incluída). E, como já referi, menos de um terço paga para ouvir música neste serviço.

É preciso inverter esta tendência, convencer mais pessoas a pagar e, por isso, o Spotify poderá estar a preparar-se para comprar aquele que é conhecido como o “YouTube da música”. O Soundcloud é uma gigantesca rede social onde músicos wannabe e melómanos partilham os seus conteúdos. E há um pouco de tudo. Listas, remixes, faixas, audiobooks... Estamos perante um grande caldeirão criativo independente onde há lugar para tudo e para todos. E, para a Spotify, há um elemento crítico: a maioria dos 175 milhões de utilizadores do Soundcloud é bastante jovem. Claro que isso também é um desafio. Afinal, essa base tão apreciada não paga para ouvir música.

Por isso, para a Spotify o caminho, a ser este, será feito muito devagar com um pé à frente do outro. É nesta corda bamba que poderá assumir-se como a maior empresa mundial de música digital. A única que consegue juntar, num único local, o Michael Jackson, os Beatles e os Rolling Stones… e milhares de faixas gravadas em caves de artistas que dificilmente vão ascender ao estrelato. Espero que o negócio se concretize. Dará origem a uma plataforma inédita de música que vai, pela primeira vez, espelhar com realismo todos os ingredientes de uma indústria fantástica.