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Ter uma ideia 
e vendê-la 
na internet

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O alcance das redes sociais transformaram-nas em plataformas para divulgar produtos e serviços a uma larga escala. Testa-se, comunica-se e vende-se um produto a custo zero (ou quase)

Carolina Reis

Carolina Reis

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Jornalista

Olavo Cruz

Olavo Cruz

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Primeiro era um hobby. Marta Gonçalves gostava de cozinhar e tinha uma receita única de bolo de chocolate com base de suspiro e recheio de nutella e morangos. Era uma delícia para o seu grupo de amigos. Licenciada em Comunicação Social e sem emprego na área, Marta cedeu aos incentivos para criar uma página no Facebook. Era o espaço ideal para testar a viabilidade do negócio. Numa plataforma alargada (em média, cada português passa uma hora e meia nas redes sociais) e com muito pouco investimento, vendia o produto e fazia publicidade. Cada like ou partilha de um amigo dava-lhe exposição, ou seja, mais público. E isto sem aumentar o investimento inicial, que era quase nada. A maravilha das redes sociais reside aí — é barata e eficaz.

Em pouco tempo, “O Bolo da Marta” foi acumulando likes (66 mil no Facebook, 7 mil no Instagram) e encomendas. A cozinha da casa ficou pequena, e do espaço virtual a jovem, de 27 anos, passou para o piso de cima da Livraria Ler Devagar, na Lx Factory. Agora tem também uma cake van que percorre mercados e outros eventos e começou a ter procura para o seu bolo ser comercializado por terceiros. E assim se constituiu, definitivamente, um negócio.

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Era tempo de crise, e Marta não é caso único de hobbies que se transformaram em negócios através de uma loja virtual. Como os brincos da Pampa Mia, ou os calções da Change, ou os biquínis da BOW — Best on Water. Nas redes sociais — em especial no Facebook —, cada like é sinal de um potencial cliente e as compras são feitas por impulso. O produto está perto e as queixas e dúvidas expõem-se imediatamente. “Em oposição aos meios de comunicação tradicionais, como a televisão, a rádio e a imprensa, as redes sociais permitem às empresas que a comunicação se realize nos dois sentidos. Seria um erro utilizá-las sem aproveitar a oportunidade de ouvir o que os nossos clientes e o público em geral têm para nos dizer”, explica Luís Costa, consultor em marketing digital.

O primeiro passo é encontrar o ambiente mais adequado para a audiência. Aquele que terá maior potencialidade para o tipo de negócio. Partindo sempre do envolvimento de quem vê, gosta e partilha (o consumidor) com a marca. Fazer o sorteio de uma peça entre quem enviar a frase mais original sobre um produto ou pedir às pessoas que partilhem uma fotografia com o que compraram (assinalando como a devida hashtag) são dois exemplos simples e eficazes. Tal como as próprias redes. “Procurem demonstrar toda a área de negócio, as qualidades e benefícios dos produtos e serviços. Esta demonstração constrói-se com conteúdos fortes, apelativos e de grande diversidade (publicações escritas, imagens, vídeos, infografias, apresentações). Estamos a assistir a um verdadeiro digital storytelling das marcas, que se reinventam para contar as suas histórias”, explica Pedro Caramez, formador em redes sociais.

Não se pense, contudo, que é só abrir uma conta numa rede social para tentar vender os colares ou as mantas que costura nos tempos livres. Há que ter a noção de que não basta ter um produto e vontade de o vender. É preciso ter um plano e perceber em que rede se deve apostar maioritariamente. E comprometer-se com o projeto. “Muita gente espera encontrar uma fórmula mágica para ganhar dinheiro nas redes sociais, mas a realidade não é assim tão linear. E como qualquer pessoa pode criar gratuitamente um perfil pessoal, é fácil cair-se na tentação de pensar que gerir a presença de um negócio é algo fácil e sem custos associados”, diz Luís Costa.

Cada rede tem um público

Nem todos os produtos funcionam com a mesma eficácia em todas as redes. O Instagram, por exemplo, é mais visual e adequado para produtos apelativos, aqueles que apetece comer com os olhos. O LinkedIn é mais profissional, podendo ser usado por quem quer vender um serviço de escrita. O Twitter permite criar um grupo mais intimista; foi esse um dos motivos do êxito do projeto “Da Cozinha”, em que o chefe Joe Best vai a casas particulares fazer jantares. E o Facebook é o rei de todas as redes, presença quase obrigatória. “Se a faixa etária que se quer alcançar se situar entre os 18 e os 24 anos, o Snapchat é uma opção a considerar. Se o objetivo for chegar a gestores e administradores de pequenas e médias empresas, o LinkedIn apresenta-se como a melhor solução. Se o público for maioritariamente feminino, a opção é o Pinterest”, frisa Luís Costa.

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E também aqui se aplica a máxima ‘menos é mais’. Vale mais concentrar energias e atenção num número limitado de presenças digitais. “Seria muito negativo ter uma presença fraca em diversas redes apenas para referir que estão presentes em todas as redes sociais”, diz Pedro Caramez.

Mesmo quando o negócio se estabelece fisicamente, o digital continua a ser um suporte fundamental. Mariana Silva sabe-o bem. É através das redes sociais que vende e mostra os biquínis e fatos de banho que faz, baseados em desenhos seus. A Aumar, que ainda o verão não ia a meio já tinha uma parte da coleção esgotada, usa o Instagram e o Facebook para mostrar os modelos. “Normalmente, fazemos um a dois posts, de manhã e ao fim do dia, que é a hora em que temos mais visitas.” E o produto mostrado à sua comunidade (13 mil likes no Facebook, 5 mil no Instagram) vai ter mais procura. “Às vezes, as pessoas veem, encomendam e quando chegam à loja é só experimentar ou só pagar e levar”, diz a jovem.

O essencial é que os ‘amigos’ gostem e que partilhem com outros ‘amigos’, gerando um ciclo que parece espontâneo. E não há melhor plataforma para isso do que as redes sociais.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 24 de setembro de 2016