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Saúde e educação para viver mais

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Vivemos e vamos continuar a viver até mais tarde — MESMO nos países onde a esperança média de vida é baixa

O Jardim da Parada, em Campo de Ourique, no centro de Lisboa, é um sítio pacato para onde convergem habitualmente as famílias e os habitantes das redondezas. E é também a metáfora da demografia em Portugal. De um lado, um grupo de idosos, acima dos 70 anos, joga às cartas. Do outro, num pequeno parque infantil, crianças abaixo dos 5 anos divertem-se entre o escorrega e os baloiços. “Gosto de vir para aqui passar o tempo a conviver com os amigos, a recordar a vida de antigamente. E é bom ver a malta mais nova, é a vida que se renova”, conta António Silva. Aos 78 anos, sente-se “a meio da vida” e ainda espera viver mais umas duas décadas. É um desejo, é certo, mas a ele e aos amigos, que viram os pais falecer antes de chegarem à casa dos 70, não lhes parece impossível.

Os jogos de cartas são um entretém do grupo. As gargalhadas de quem está a ganhar uma partida de sueca mistura-se, em harmonia, com os risos eufóricos das brincadeiras dos mais pequenos. Nos últimos anos, o grupo dos mais velhos tem crescido e ocupado mais espaço no jardim. Enquanto o das crianças vai mantendo-se na mesma ou diminuindo. Tal como a nossa envelhecida pirâmide demográfica.

Os portugueses vivem cada vez até mais tarde e também têm menos filhos. Na lista feita pela Organização Mundial da Saúde, Portugal ocupa um honroso 21º lugar a nível mundial e o 15º na tabela europeia. Espera-se que a média dos portugueses viva 81,1 anos. E, quando se separam os dados por sexo, é expectável que as mulheres vivam 83,9 anos (15º lugar na tabela mundial) e os homens 78,2 (27º lugar). Esta é uma boa posição, já que estamos a pouca distância dos países líderes — o Japão nas mulheres, com 86,8 anos, e a Suíça nos homens, com 81,3 (na média de sexos, o Japão é o primeiro, com 83,7 anos).

“[Isto] é explicado pelos progressos registados na provisão de vários serviços públicos, com particular destaque para os serviços de saúde e de educação, que registaram melhorias significativas e se alargaram ao conjunto da população, e pelas políticas de segurança alimentar e evolução verificada em matéria de modelo de vida”, afirma José Cádima Ribeiro, professor de economia na Universidade do Minho.

Os números da esperança média de vida e a perspetiva de futuro são animadores para os portugueses — têm aumentado e prevê-se que continuem a aumentar. Em 2000, a taxa global era de 76,6 anos, em 2005 passou para 77,7 e em 2010 para 79,6. O ano passado colocou Portugal na faixa dos países onde se vive mais (acima dos 80 anos). Ao todo, aumentámos cinco anos desde o início do século e estamos hoje acima de países mais ricos e industrializados, como EUA (79,3), Alemanha (81,1) e Dinamarca (80,6), e ao mesmo nível de países como Finlândia (81,1) ou Bélgica (81,1). Todos eles têm um PIB mais elevado que o português e estão mais industrializados, tornando Portugal um caso singular, já que o aumento da esperança média de vida se relaciona com a riqueza das nações. “Mas há um outro elemento, que é o Estado social e a existência de um Serviço Nacional de Saúde [SNS]. O investimento do Estado tem um efeito na qualidade de vida. E mostra que só a riqueza e a produtividade não são suficientes para viver mais tempo”, explica Renato Miguel do Carmo, sociólogo do ISCTE.

O acesso à saúde e à educação é um fator fundamental para justificar a evolução positiva pela qual o país tem passado — reflexo das alterações feitas no pós-25 de Abril, com a criação do SNS e o aumento da literacia. Neste último domínio, Portugal situa-se ainda abaixo dos níveis europeus, mas o aumento da escolaridade entre gerações foi dos mais altos nos países da OCDE. Os jovens entre os 25 e os 34 anos com ensino secundário em Portugal representam 65% da população nacional, enquanto a média da OCDE é de 83%. E, se recuarmos umas gerações, dos 55 aos 64 anos apenas 23% têm o equivalente ao atual 12º ano. “Há também uma relação com a questão da escolaridade. Uma população mais letrada está menos exposta a riscos”, continua o sociólogo, que é também responsável pelo Observatório das Desigualdades. Uma população com mais educação escolar está mais informada, tem maior capacidade para prevenir e antecipar situações de risco e será também mais exigente, obrigando o SNS a responder mesmo quando este é ineficaz.

“Pode dizer-se que Portugal é caso raro. Evoluiu de uma maneira extraordinária em 30 anos, apesar de não sermos um país rico e de a taxa de escolaridade não ser tão elevada como noutros países”, frisa Renato Miguel do Carmo. Se, como as previsões indicam, Portugal continuar a subir na tabela da literacia, os portugueses continuarão a viver mais tempo.

A tendência mundial é de crescimento, mas o continente africano tem níveis muito distantes dos dos países onde se vive mais, como Japão (83,7), que subiu dois anos desde o início do milénio; Suíça (83,4), com um aumento de quatro anos; Singapura (83,1), que teve um crescimento de cinco anos; Austrália (82,8) e Espanha (82,8), com uma subida de três anos. No fundo da tabela está Serra Leoa (50,1), que cresceu 11 anos desde 2000; Angola (52,4), que subiu sete anos; República Centro-Africana (52,5), que aumentou seis anos; e Chade (53,1), que subiu seis anos. Pelo meio, onde a escala vai dos 70 aos 79 anos, há parceiros de Portugal na União Europeia, como República Checa (78,8), Croácia (78) e Estónia (77,6).

Desafios e oportunidades

Ao aumento da esperança média de vida associa-se a insustentabilidade da Segurança Social. O peso dos mais idosos no Estado social é uma consequência do envelhecimento da população, que se deve às quedas da taxa de natalidade e, mais recentemente, à emigração de jovens devido à crise económica. A solução dos Estados tem sido alargar a idade ativa e reduzir os valores das pensões de reforma. “Há também quem equacione respostas que passam pela alteração do modelo de constituição dos fundos que asseguram as pensões de reforma e sua gestão, com a instituição de modelos de capitalização, isoladamente ou em paralelo com os sistemas tradicionais, públicos. Mas aí põe-se o problema da confiança que possam inspirar esses modelos e quem os gere, aparte as dificuldades que sempre se levantarão no período transitório”, alerta José Cádima Ribeiro.

Mas não é no aumento do número de idosos que reside o problema. “Viver mais anos é bom sinal, atenção”, sublinha Renato Miguel do Carmo. Além da vantagem óbvia, há também uma oportunidade para a economia. “Há novos mercados que se vêm gerando, de bens e serviços, destinados a este segmento da população: do vestuário aos fármacos e aos serviços de saúde, dos serviços diversos prestados ao domicílio aos lares de terceira idade e centros de dia, às oportunidades no mercado de lazer e turismo e, algumas vezes, também de saúde, isto é, turismo que concilie tratamentos de saúde com lazer, que tem vindo a crescer no nosso país”, explica o economista. Um exemplo disto é dado pelos reformados que vão fazer o Caminho de Santiago ou viajar pelo interior do país durante a época baixa. Geram receita em alojamento e alimentação e, por não estarem presos a um horário de trabalho, podem atenuar a sazonalidade.

Os grandes desafios, contudo, estão em África. É lá que se encontram os países onde a expectativa de vida não ultrapassa os 60 anos. Na faixa dos 70 aos 79 está Cabo Verde (73,3), Marrocos (74,3) e Tunísia (75,3). Em nenhum é normal chegar até aos 80 anos. “[Isto] é uma consequência do PIB e dos fluxos migratórios, da falta de condições de vida, que leva as pessoas a emigrarem”, frisa Renato Miguel do Carmo.

O cenário mais agradável encontra-se na Europa: na maioria dos países é considerado natural passar as oito décadas de vida. Em todo o mundo, acima de Portugal, além dos países já referidos, só está Reino Unido (81,2), Irlanda (81,4), Áustria (81,5), Nova Zelândia (81,6), Malta (81,7), Noruega (81,8), Holanda (81,9), Luxemburgo (82), Canadá (82,2), Coreia do Sul (82,3), França (82,4), Suécia (82,4), Israel (82,5), Islândia (82,7) e Itália (82,7). Em nenhum se vive, ainda, até aos 100 anos.