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Que tal ir de bicicleta do Porto à Figueira da Foz?

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AGRADÁVEL. O mar, mesmo ali ao lado, acompanha-nos ao longo da maior parte da viagem

Um desafio para famílias que gostam de pedalar, mas que nunca o fizeram durante três dias seguidos — e sem carro-vassoura

João Paulo Galacho (texto), Catarina Pequeno, Paulo Pequeno e João Paulo Galacho (fotos), Carlos Paes (infografias)

Este percurso é ideal para quem se quiser estrear nestas andanças: acompanha o oceano, num traçado plano, maioritariamente em ecovias e é um deleite para os sentidos.

Somos cinco. Três cinquentões e dois jovens. A Catarina, com treze anos, é a mais nova e estreia-se este ano. Estávamos com medo que não aguentasse três dias a pedalar, mas depressa percebemos que a miúda estava em muito melhor forma do que nós, os mais velhos. Quanto ao Pedro, de 17 anos, já sabíamos desde o ano passado, quando fez connosco as etapas de Melgaço ao Porto, que se lhe déssemos ‘guita’ chegava ao destino ainda nós íamos a meio do caminho.

INSÓLITA. A capela do Senhor da Pedra é de visita obrigatória. Aqui a equipa completa saúda a... máquina fotográfica

INSÓLITA. A capela do Senhor da Pedra é de visita obrigatória. Aqui a equipa completa saúda a... máquina fotográfica

E sendo assim, foi a juventude que teve de refrear a sua força para não envergonhar os ‘cotas’, que se achavam os maiores por estarem quase a terminar uma Volta a Portugal — em muitas etapas — iniciada em 2001.

Fomos de autocarro para o Porto, com as bicicletas embrulhadas — requisito da Rodoviária Nacional — e com pequenas mochilas onde arrumámos meia dúzia de tarecos. Não reservámos dormidas e não marcámos uma meta para cada dia. E à Catarina, que nunca vacilou a pedalar, só isso lhe causava impressão: “Oh pai, onde é que vamos dormir hoje? E é num hotel?” — ao que o Paulo invariavelmente respondia: “Oh filha, logo vemos!”

As preocupações mais mundanas tinham ficado em Lisboa. Agora era altura de usufruir desta escapadela, alimentada por uma energia limpa, a força das nossas pernas.

1º DIA

Adeus rio Douro, olá oceano. A capela na ilha e os 'margipontões'

São 13h quando saímos do cais de Gaia, depois de termos descido, já de bicicleta, da estação de autocarros do Porto até à Ribeira. De Gaia, o caminho margina o rio Douro até à foz e, apesar de haver um passadiço de madeira, está interdito a bicicletas. Não temos outro remédio senão circular na estrada paralela, que em certas zonas é estreita e perigosa, mas vai sempre um dos cinquentões a encerrar o pelotão, com a missão de alertar os outros quando se aproxima um carro.

Nas ruas estreitas do Porto — ainda agora começámos e já estamos a pedir informações, o que além de habitual, também é agradável: fazemos uma pausa, e conhecemos pessoas locais
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Nas ruas estreitas do Porto — ainda agora começámos e já estamos a pedir informações, o que além de habitual, também é agradável: fazemos uma pausa, e conhecemos pessoas locais

Junto à Sé, na parte alta do Porto
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Junto à Sé, na parte alta do Porto

A atravessar a Ponte D. Luís, a caminho de Vila Nova de Gaia
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A atravessar a Ponte D. Luís, a caminho de Vila Nova de Gaia

Já na margem esquerda do Douro, num troço mais perigoso onde partilhamos a estrada com os carros
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Já na margem esquerda do Douro, num troço mais perigoso onde partilhamos a estrada com os carros

Finalmente nas ecovias de Vila Nova de Gaia, já com o oceano como companhia
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Finalmente nas ecovias de Vila Nova de Gaia, já com o oceano como companhia

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O dia enublado está bom para cicloturismo, a temperatura ronda os 20 graus, e depressa chegamos ao início da ecovia das praias de Gaia. O traçado desenvolve-se numa marginal exemplarmente arranjada, com imenso espaço para pessoas e bicicletas circularem em segurança, apartadas dos carros. O caminho é sempre plano e nesta zona a grande atração é a insólita capela do Senhor da Pedra, na praia com o mesmo nome, construída nuns rochedos que formam uma ilha quando a maré está cheia.

IDEAL Pistas próprias para ciclistas rolarem descontraídos, com o vento na cara e sem motor a poluir os ouvidos, preenchem a maior parte do caminho

IDEAL Pistas próprias para ciclistas rolarem descontraídos, com o vento na cara e sem motor a poluir os ouvidos, preenchem a maior parte do caminho

Atravessamos Espinho mas logo a seguir temos de nos afastar do mar para contornarmos a barrinha de Esmoriz/Lagoa de Paramos. Segue-se a praia de Esmoriz, onde um grande e pobre bairro de pescadores marca o fim do casario. É o primeiro exemplo que vimos nesta viagem do assoreamento que a costa desta zona tem sofrido: um imponente pontão de pedras protege as casas da fúria do oceano, mas tapa a vista de mar. Em vez de marginal, talvez hoje seja mais apropriado chamar-lhe ‘margipontão’.

Depois de passarmos Esmoriz, apanhamos a ecovia mais segura desta viagem: corre paralela à Estrada Nacional, mas em muitas zonas tem pelo meio uma faixa de pinhal, que nos protege de um possível despiste de um carro. Perdemos a vista de mar, mas a Mata Nacional, que se estende até ao Furadouro, é também um regalo para os olhos.

SOSSEGO Os ares dos 10 km da ecopista que atravessa a Mata Nacional até ao Furadouro são perfumados pelo velho pinhal

SOSSEGO Os ares dos 10 km da ecopista que atravessa a Mata Nacional até ao Furadouro são perfumados pelo velho pinhal

Tranquilizamos finalmente a Catarina, no cruzamento onde podemos seguir para São Jacinto ou desviar para o Furadouro, quando decidimos que vamos dormir no Furadouro. Esta localidade, o segundo exemplo do avanço inexorável do mar nesta zona, também tem casas que atualmente estão a uma cota inferior ao mar e a praia fica mais pequena a cada ano. Rui, o proprietário do Furadouro Terrace Hostel — o agradável sítio onde dormimos, barato e com um pequeno-almoço muito bom —, resume bem a situação: “A malta desta zona diz que vai lá acima ver o mar”, numa alusão a terem de subir uma barreira para ver o oceano.

2º DIA

O artista do Furadouro e a lancha que não transporta bicicletas

Do Furadouro chega-se rapidamente ao primeiro braço da Ria de Aveiro, que nos acompanha até São Jacinto. Apanhamos vários troços de ecovia, mas mesmo quando temos de circular na estrada, vamos descontraídos numa berma larga.

Arte Popular, malandreca, ingénua, engenhosa. Este artista, a não perder numa casa da avenida principal do Furadouro, é um atento crítico da realidade
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Arte Popular, malandreca, ingénua, engenhosa. Este artista, a não perder numa casa da avenida principal do Furadouro, é um atento crítico da realidade

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A frente ria da Torreira — uma vila sui generis com uma frente virada para o mar, e outra para a ria — é paragem obrigatória: para umas fotografias no típico cais dos barcos moliceiros e para observar ao longe os muitos pescadores que caminham, literalmente, nas águas pouco profundas da ria, a esgravatar o lodo à caça de amêijoas.

Riqueza. A ria de Aveiro garante o sustento de muitas famílias e delicia muitas mais com as suas amêijoas, berbigões, enguias e outras iguarias que de lá saem

Riqueza. A ria de Aveiro garante o sustento de muitas famílias e delicia muitas mais com as suas amêijoas, berbigões, enguias e outras iguarias que de lá saem

Rodamos numa boa média e com pouco menos de 30 km percorridos estamos em São Jacinto, onde se atravessa a ria de ferry até à Gafanha da Nazaré. Tínhamos a informação que de que o ferry estava avariado, e que a lancha que o substitui não transportava bicicletas mas, numa loja à beira da estrada, garantiram-nos que a lancha até motorizadas levava. Só que, quando chegámos à beira do atracadouro da lancha, informam-nos que afinal só transportam pessoas.

Ficámos preocupados com a perspetiva de termos de voltar para trás, mas lembrámo-nos de ter visto no cais um cartaz a anunciar barcos-táxi. Depois de um telefonema, ficamos a saber que em 10 minutos um deles estará no cais à nossa espera. Assim foi, e ainda tivemos direito a um bónus: o taxista desembarca-nos junto ao farol da Barra, poupando-nos meia dúzia de quilómetros que teríamos da fazer desde a Gafanha da Nazaré — local onde a lancha atraca. O desembarque é feito num molhe inclinado, cheio de limos escorregadios, mas decorre sem incidentes.

O barco-táxi atravessa velozmente as tranquilas águas da ria de Aveiro
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O barco-táxi atravessa velozmente as tranquilas águas da ria de Aveiro

Já o desembarque foi algo atribulado...
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Já o desembarque foi algo atribulado...

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As praias da Barra, logo a seguir ao farol, são protegidas por pontões que entram no oceano e que amansam este poderoso mar do norte. E com águas muito mais calmas, onde mesmo os mais temerosos se podem banhar, claro que é aqui que vemos os areais com mais pessoas.

Rumamos à Vagueira, na expectativa de ver os pescadores da arte Xávega em ação, mas aí esperava-nos mais uma surpresa: também “temos de ir lá acima ver o mar”. Chegados ao cimo da barreira, que evita que as marés-vivas entrem terra adentro, outra surpresa: o areal que há uns anos existia em frente ao casario quase desapareceu. Agora, só olhando para norte, conseguimos ver uma praia maior, com alguns barcos da Xávega estacionados no areal.

MAR BRAVO. O paredão da Vagueira procura evitar que as ondas cheguem às casas

MAR BRAVO. O paredão da Vagueira procura evitar que as ondas cheguem às casas

Dois quilómetros depois da Vagueira, voltamos a ter de nos afastar do mar, passamos pela Gafanha do Areão, e apanhamos um troço de uma estrada com muitos carros que nos obriga a uma atenção redobrada.

Em passadiços de madeira, estradas mais ou menos esburacadas, a planura do caminho é um descanso
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Em passadiços de madeira, estradas mais ou menos esburacadas, a planura do caminho é um descanso

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O sol já está muito baixo, os quilómetros já pesam nas pernas, quando, numa pequena pausa com a Praia de Mira já muito perto, chega a hora de o Paulo tranquilizar a Catarina: “Filha, vamos dormir nesta terra aqui à frente.

— A sério, pai? E num hotel?”

3º DIA

A estrada esburacada, os (bons) cheiros da Mata Nacional e a Serra da Boa Viagem

Não, mais uma vez não foi num hotel. Uma das premissas desta viagem é gastar o mínimo dinheiro possível. Pelo que, os locais onde pernoitamos e onde fazemos as refeições, têm de ser muito bem escolhidos. E, com alguma sorte à mistura, até foram. Comemos sempre bem, dormimos ainda melhor, não estourámos o orçamento e usufruímos em pleno destes dias de liberdade.

Em Mira, dormimos na Casa da Sagrada Família, um enorme edifício à saída da povoação. Somos recebidos pela dona Lucília, uma leiga consagrada, que depois de nos ‘tirar as medidas’ nos informa: “Sim, para vocês temos quartos para alugar. E incluem pequeno.almoço.” Na manhã seguinte despedimo-nos da dona Lucília, que abraça afetuosamente a Catarina, enquanto a elogia pela coragem demonstrada ao acompanhar os mais velhos nesta aventura.

MANHÃ NUBLADA Acordamos no conforto da Casa da Sagrada Família, mas já na rua vestimos roupa mais quente que o sol tardou a aparecer

MANHÃ NUBLADA Acordamos no conforto da Casa da Sagrada Família, mas já na rua vestimos roupa mais quente que o sol tardou a aparecer

Na primeira rotunda depois da Praia de Mira não tem nada que enganar: é só escolher a estrada mais esburacada, uma reta com mais de 20 km, que vai até Quiaios. É impressionante o estado a que deixaram chegar o alcatrão, ao ponto de a maior parte do tempo seguirmos pela terra da berma. É um percurso duro, apesar de plano, com os traseiros a acusarem a passagem por tantos buracos.

A ligação de Mira a Quiaios é uma estrada? Já foi. Agora é um queijo suíço. A única vantagem é que poucos carros se aventuram por aqui
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A ligação de Mira a Quiaios é uma estrada? Já foi. Agora é um queijo suíço. A única vantagem é que poucos carros se aventuram por aqui

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Mas o sacrifício é compensado pela excelência da paisagem: circulamos novamente no interior da Mata Nacional, com os enormes pinheiros a lembrar soldados em guarda de honra e, a acompanhar a banda sonora dos muitos pássaros que por aqui são reis e senhores, ouve-se também o barulho das ondas que nos faz adivinhar o mar ali perto.

Atravessamos Quiaios e embalamos numa descida de cerca de 3 km até à praia. Junto ao mar, o Cabo Mondego domina a vista a sul, e sabemos de antemão que estão ali as únicas subidas, dignas desse nome, destes três dias a pedalar. Passamos as últimas casas da Murtinheira, depois de uma primeira subida íngreme, continuamos mais umas centenas de metros em alcatrão, até que desembocamos num estradão que serve as pedreiras de calcário da cimenteira.

O Monumento Natural do Cabo Mondego é considerado um sítio de elevado interesse geológico e já há muito tempo que as populações locais reclamam a reconversão da pedreira ali existente. É realmente um local mágico, e pedalar aqui marca a diferença em relação à paisagem que nos tinha acompanhado até agora: do mar, mesmo ali ao lado, passamos a ver o mar lá em baixo.

Na primeira subida a sério... desmontámos e empurrámos as bicicletas (também vale)
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Na primeira subida a sério... desmontámos e empurrámos as bicicletas (também vale)

Aqui a Catarina já tem mais motivos para sorrir. Estamos num topo e, a norte, o areal sem fim é uma das melhores vistas desta viagem
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Aqui a Catarina já tem mais motivos para sorrir. Estamos num topo e, a norte, o areal sem fim é uma das melhores vistas desta viagem

As falésias do Cabo Mondego são um paraíso para os paleontólogos que gabam a abundância e qualidade dos fósseis ali existentes
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As falésias do Cabo Mondego são um paraíso para os paleontólogos que gabam a abundância e qualidade dos fósseis ali existentes

Depois de uma última subida, que nos eleva até à cota do farol do Cabo Mondego, depressa chegamos ao alcatrão. Fazemos uma última paragem num miradouro contíguo à estrada, onde temos a primeira panorâmica da Figueira da Foz e dos extensos areais a sul do Mondego. A partir daqui é sempre a descer, mas com cuidado, pois neste acesso à cidade da foz do Mondego circulam muitos carros.

Acabamos a viagem numa esplanada, mesmo em frente à Torre do Relógio, o ícone da Figueira da Foz, com um brinde em que comemoramos estes três saudáveis dias, longe do ramerrame do dia a dia da cidade. E claro que o prato forte da conversa foi a etapa do ano que vem.