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“Onde é que está toda a gente?”

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JÚPITER. O que se esconde em Europa? A pequena lua de Júpiter terá mais água salgada do que todos os oceanos da Terra

FOTO NASA

Às 19h desta segunda-feira, 26 de setembro, a NASA promete novidades surpreendentes sobre Europa, uma das luas de Júpiter. A Agência Espacial Norte-Americana já avisou no twitter que não se trata de extraterrestres, mas que as notícias podem envolver o registo de atividades num oceano subterrâneo que existirá num dos locais onde, há muito tempo, os cientistas esperam encontrar vida ou o suporte para vida. Estimativas, com base na observação daquela lua com a ajuda do telescópio Hubble, indicam que Europa poderá ter mais água salgada que todos os oceanos da Terra juntos. Um facto ainda mais surpreendente se tivermos em consideração que esta lua é mais pequena que a nossa. Pode ficar a saber mais sobre Europa no site oficial da NASA.

Aliás, a importância do satélite de Júpiter é tal na futura exploração espacial que já o ano passado a NASA aprovou o lançamento de uma sonda que deverá chegar a Europa em 2030. Altura em que ficaremos a saber, afinal, se aquele imenso oceano (a existir) é, ou não, habitável. Para já, pode acompanhar aqui em direto, às 19 horas portuguesas, a conferência de imprensa da NASA e ter em conta que Europa pode, no futuro, ser um dos melhores candidatos a uma base que dará apoio a futuras missões de exploração espacial.

Olhando com mais atenção para o anúncio da NASA achei piada à forma como a equipa que gere as redes sociais daquela agência esclareceu logo que não se tratava de vida extraterrestre. A questão não é tão despicienda como possa parecer a princípio. A busca por vida extraterrestre inteligente ocupa um lugarzinho na mente de cada um de nós. Não é algo que nos atravesse o pensamento com frequência, é certo, mas no dia em que a NASA ou outro organização anunciar que foi descoberta vida inteligente algures no Universo vamos desabafar um aliviado: Finalmente!

Vamos fazê-lo por duas razões conflituantes: pelo alívio de saber que não estamos sozinhos na vastidão negra do Universo; e pelo medo do desconhecido. Sim, vai ser bom saber que há mais “gente” lá fora, mas será complicado lidar com “eles” se forem uma civilização mais avançada que a nossa. Como avisa Stephen Hawking quando diz: “Se os Aliens nos telefonarem, o melhor é não atender a chamada” (ver aqui)

Este primeiro contacto está mais que estudado, nas suas hipóteses, pelos cientistas e por organizações. Como é possível ler nesta ata do Comité das Nações Unidas para a Utilização Pacífica do Espaço onde o tema foi abordado.

A nossa fixação com os “homenzinhos verdes”

Em 1950, Enrico Fermi almoçou em Los Alamos, Estados Unidos, com outros cientistas e fez a pergunta: “Onde é que está toda a gente?”. Não se referia à suposta ausência de alguns convivas. A pergunta do Físico que ajudou ao plano nuclear norte-americano era mais vasta.

Fermi falava do Universo, que, se era tão vasto e antigo como os cientistas preconizavam (e preconizam), por que razão não encontrávamos vivalma? Onde andava (anda) a vida inteligente? A nossa espécie é a única que singrou das poeiras do Big Bang? A pergunta de Fermi não teve resposta e deu início aquilo que hoje a comunidade científica designa como Paradoxo de Fermi.

Não há grande acordo sobre se Fermi, vencedor do Prémio Nobel da Física de 1938, fez a pergunta no tal almoço ou se foi noutro contexto. Indiscutível é o facto deste paradoxo se manter atual. Aliás, ainda é mais pertinente se tivermos em conta o que se descobriu sobre o Universo desde os anos 50 do século passado.

Há algum contexto a ter em conta para perceber o que levou Fermi e a comunidade científica mundial – principalmente a norte-americana e a soviética – a colocarem a procura de vida extraterrestre na agenda. O mundo tinha saído de uma Guerra Mundial e em 1947 a queda de um objeto estranho em Roswell, no Novo México, trouxe os alienígenas para as primeiras páginas do jornal.

Viviam-se dias de assombro. Os “homens verdes” vinham para conquistar a Terra e um pouco por todo o mundo as pessoas viam objetos estranhos nos céus. Tanto que em 1956 se criou léxico para o fenómeno. Nascia, assim, o acrónimo UFO (Unidentified Flying Objects); OVNI (Objeto Voador Não Identificado, em português.

Os preliminares da Guerra Fria eram o combustível ideal para alimentar uma cultura popular que há muito tinha enraizado o conceito de não estarmos sozinhos no Universo. Aliás, basta lembrar a transmissão radiofónica da “Guerra dos Mundos”, de Orson Welles, em 1938, e recordar o pânico vivido por alguns norte-americanos convencidos que Nova Iorque tinha sido tomada por extraterrestres – aconselho-o vivamente a reviver essa experiência radiofónica que está disponível no youtube.

E não se pense que o tema dos OVNI e dos ET foi abandonado pelos mass media. Em 1995, a RTP comprou para Portugal os direitos a transmitir a autópsia a um dos aliens (extraterrestres) que teria, alegadamente, sido recuperado em Roswell (sim, a tal nave que caiu nos EUA) quase 50 anos antes. Pode ver a reportagem emitida pelo canal públicon aqui. Esta “autópsia” acabou por dar origem a um filme de 2006 (ver aqui), que conta como dois jovens britânicos falsificaram o filme e ganharam uns bons milhares de euros com o esquema.

De todos os filmes feitos sobre vida extraterrestre o mais cientificamente correto será “Contacto”, de 1997. Baseado na obra de Carl Sagan (o cientista que usou a televisão como ninguém para nos mostrar as maravilhas do Universo), retrata a forma como um sinal captado pelo SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence – o instituto SETI dedica-se à procura de vida inteligente extraterrestre) acaba por dar início ao primeiro contacto com uma inteligência alienígena.

EM GRANDE. Em terras chinesas está quase concluído o maior radiotelescópio do mundo

EM GRANDE. Em terras chinesas está quase concluído o maior radiotelescópio do mundo

getty

O SETI continua a fazer o seu trabalho e ficámos a saber, a semana passada, que também os chineses estão a olhar lá para cima. Para isso, cá em baixo, estão a construir aquele que será o maior radiotelescópio do mundo. Estão tão empenhados no esforço que vão desalojar 9 mil pessoas para ganhar espaço para um telescópio que tem mais de 500 metros de diâmetro (veja aqui), a capacidade de perscrutar duas vezes mais área que o de Arecibo (usado pelo SETI) e com quase cinco vezes mais sensibilidade.

Os fãs das teorias da conspiração (os que até defendem que nunca fomos à Lua) afirmam que os extraterrestres já estão entre nós ou que já estiveram. A verdade é que não há provas. Nem de uma coisa, nem de outra. As sondas que enviámos para o Espaço, as muitas centenas de missões espaciais, os telescópios que procuram a imensidão… todos falham em encontrar provas que contrariem a nossa solidão.

“Uau!” Foi há 39 anos que um pequeno sinal de rádio surpreendeu o mundo

“Uau!” Foi há 39 anos que um pequeno sinal de rádio surpreendeu o mundo

FOTO NAAPO

Há um momento. Um único momento em que o mundo susteve a respiração. Foi a 15 de agosto de 1977. O astrónomo Jerry Ehman, do SETI, observava as leituras feitas pelo telescópio Big Ear nos dias anteriores, quando deparou com o registo de um sinal de rádio. Só demorou 72 segundos, mas era um sinal único, distinto. Nunca se repetiu, nem foi encontrada explicação oficial para o que era. Veio da constelação de Sagitário a 120 anos-luz da Terra, a 120 anos de distância de nós. O cientista, impressionado com o seu achado, escreveu “Wow!” na folha onde estava registada a combinação de números ouvida pelo telescópio. Ainda hoje, passados 39 anos, os especialistas elaboram teorias para aquele ficou conhecido como o “Sinal Wow!” (ver aqui)

Ao final da tarde de hoje, vamos saber se os cientistas da NASA também vão ter um momento “Uau!” para partilhar connosco. Para já, só a ideia de existir um oceano subterrâneo com mais água salgada do que a existente nos oceanos desta nossa Terra já é apaixonante o suficiente para começar excitar a imaginação “Spielberg” que habita em mim.
Por isso, até às 19h nada me vai impedir de imaginar os mais incríveis seres aquáticos a viver em Europa…